Revista Vão Livre No.1

VÃO LIVRE ANO I - no.1 Julho 1979

 

[ÍNDICE]

EXPEDIENTE ______Pg.10
EDITORIAL/J .E. Ferolla ______Pg.11
INFORMATIVO IAB ______PG.12
OS POBRES NÃO SÃO MAIS AQUELES/ Marcos A.E.L.S. Coimbra ______PG.13,14
DEPOIS DAS CHUVAS.../ Diversos autores ______Pg.15a23
PLANO DE AUTO-CONSTRUÇÃO A BAIXO CUSTO/ José Carlos Laender ______Pg. 24,25
LENHA: A CRISE DE ENERGIA DO POBRE/ Maurício Andrés, Cláudio Martins ______Pg.26,27
ALTERNATIVA APROVEITAMENTO INTEGRAL DO ESPAÇO NATURAL/ M. Andrés ______Pg.28,29
ARQUITETURA EMERGENTE/ Rodrigo Andrade ______Pg.30
PANORAMA ______Pg.31a35
CONTRACAPA/ Equipe


[CAPA]


MONTAGEM
Álvaro Hardy, Éolo Maia, Francisco Moreira Andrade Filho, José Eduardo Ferolla, Paolo Laender e Sylvio Emrich de Podestá
FOTO
Gorduras: Herbert Teixeira
Retrato: fotógrafo anônimo


[EDITORIAL]

Os dicípulos de Gurdjieff acreditavam no máximo de esforço e privação mental, emocional e física como via de iluminação. Quem sabe por isso os pobres não são mais aqueles? Certo é que tem mais consciência de si mesmos que as outras classes, perdidas no devaneio de suas metáforas, iludidas e amaciadas pelo mel do conforto e do consumo. E como consomem! E como desperdiçam! Das sobras vive o grande herói brasileiro: o super-pobre. Com elas faz melhor para si que o governo consegue com verbas bem gordas. Gorduras? Talvez na panela do trabalhador houvesse mais benefício.

É essa a mensagem do pobre para os que sabem ler, e que andam tão assustados com a nova dominação moura, deixando-lhes antever a possibilidade da miséria. Melhor então que aprendam logo o que é viver à margem - uma alternativa para sobreviver mental, emocional e fisicamente lado a lado com o irmão fraticida, o Governo desgovernado e uma sociedade dissociada.

J.E.F.


INFORMATIVO IAB

Intercâmbio - A coordenação de pesquisa de Vão Livra está interessada em fazer contatos e manter intercâmbio com outros centros, associações, escolas, etc. que atuem na área de divulgação e pesquisa em arquitetura e urbanismo, no Brasil e no Exterior, para troca de informações e de publicações.

Aeroporto - Conhecendo a importância científico-cultural e histórica do conjunto kárstico situado ao norte da Região Metropolitana de Belo Horizonte - municípios de Lagoa Santa, Pedro Leopoldo e Matosinhos -, o Grupo de Estudos de Meio Ambiente, IAB-MG, vem realizando estudos e pesquisas relativas às conseqüências da implantação do futuro Aeroporto Metropolitano no local. A esse respeito, o IAB vem consultando profissionais especializados em áreas relacionadas ao assunto: geomorfologia, arqueologia, espeleologia, obtendo pareceres a respeito do impacto ambiental da instalação desse equipamento na região de Confins, Município de Lagoa Santa, próximo às formações calcárias que definem o conjunto. Do ponto de vista histórico, a importância da área deve-se ao fato de ter sido inicialmente explorada pela bandeira de Fernão Dias Paes, que ali morreu no final do século XVII abrindo o caminho para a descoberta do ouro no Rio das Velhas.

A importância científico-cultural do conjunto se relaciona à descoberta de vestígios da presença do homem e de uma fauna quaternária representados por esqueletos, cerâmicas e pinturas rupestres, encontrados nos abrigos e grutas da região.

O Grupo de Estudos do Meio Ambiente IAB-MG pretende realizar no dia 10 de agosto próximo, uma reunião com professores i pesquisadores do Instituto de Geociências e Museu da História Natural da UFMG, estudiosos do conjunto kárstico, a fim de fornecer maiores informações aos colegas arquitetos sobre as características do karst e as razões das preocupações relativas á implantação do Aeroporto Metropolitano no local.

Desenvolvimento Urbano - Criou-se em Minas Gerais, o Conselho Estadual de Desenvolvimento Urbano (CEDUR) pelo decreto 19.946 de 4 de julho deste ano. Sua finalidade principal é propor a política estadual de desenvolvimento urbano, sendo de sua competência definir diretrizes, estratégia, prioridades e instrumentos, definir programas de investimentos, propor instrumentos financeiros e legislação básica, expedir normas e diretrizes, e articular-se com a COPAM (Comissão de Política Ambiental) do Estado. A aplicação dos recursos do Fundo de Desenvolvimento Urbano (Fundeurb) também estará sujeita às normas e diretrizes do CEDUR, que é presidido pelo Secretário de Estado de Planejamento e Coordenação Geral.


[LIVRO]

Maurício Andrés Ribeiro


ENERGY, ENVIRONMENT AND BUILDING
, de Philip Steadman, Cambridge University Press, 1975 - há edição em espanhol, de 1978.

Este livro aborda um assunto que tende a tornar-se central para a atividade dos arquitetos e urbanistas e que ainda vai afetar profundamente a prática profissional. Trata-se das relações entre Energia, Meio Ambiente e Construção e o assunto adquire maior importância à medida que vai se expandindo a consciência de que é preciso encontrar maneiras de se criarem habitações, construções e cidades que sejam conservativas de energia. Na introdução ao livro, Philip Steadman adverte que a abundância de energia barata até há pouco existente foi responsável pelo descaso dos arquitetos com o desempenho energético da suas construções.

LE CORBUSIER E MIES

Mesmo os grandes arquitetos como Le Corbusier e Mies van der Rohe, demonstraram grande descaso pelo aspecto energético. No caso do funcionalismo de LeCorbusier, a preocupação em expor os elementos internos e os materiais tornava a face externa das edificações quase acidental. Descuidava-se então da casca externa do edifício, que fornecia a proteção contra os elementos, mantendo fora o vento, a chuva, o sol excessivo, e mantendo o interior fresco ou morno, de acordo com a estação. No caso de Mies, o autor observa que o interesse formal com os retângulos e o sonho de erigir torres cristalinas, transparentes e brilhantes, monumentos â neva tecnologia de aço e vidro veio a produzir blocos da escritórios onde "tanto a lógica financeira como a concepção estética que dita sua forma estão em contradição direta com a lógica da conservação de energia". Completa observando que o dito "Menos á Mais" de Mias. Embora expresse o ascetismo da forma de suas obras, é contraditório com a performance energética de suas construções".

Steadman chama atenção para as edificações tradicionais, primitivas, nas quais "podem se encontrar soluções muito engenhosas para os problemas arquitetônicos de resistência ás intempéries e manutenção do conforto ambiental no interior, quando o clima externo é adverso", através do uso de materiais simples, da manipulação da geometria do edifício e sua posição relativa aos demais. Conclui, então, que o resultado é um modo de desenho infinitamente mais sutil, econômico, conseqüentemente muito humano formal e esteticamente, contrastando com as soluções tecnológicas brutalistas, que trabalham desconsiderando o clima e os elementos, apoiando-se em energia e serviços mecânicos "importados" ao invés de usar as forças naturais locais, dirigidas ou desviadas para se atingir os efeitos desejados."

Paquistão - Climatização com vento


ENERGIA E PRE FABRICAÇÃO


Em seguida, chama a atenção para o desperdício de energia devido â complexidade da prática arquitetônica moderna: "Com a crescente complexidade veio a especialização e a divisão de responsabilidades do desenho entre várias profissões; assim, o arquiteto individual não abarca todo o processo de desenho, mas, ao invés disso, procura a ajuda de consultores ..." "Como as remunerações destes consultores são calculadas como percentagem do custo do equipamento e instalação que eles especificam, não há qualquer incentivo direto à economia de energia, ocorrendo justamente o contrário". O autor adverte para o problema da pré-fabricação, que não explora as condições específicas e climas de sítios individuais, sem acomodar-se a elas e para as construções leves, que tem pior desempenho que as paredes maciças de tijolos, do ponto de vista de conservação de energia.

Há, ainda, um apêndice sobre conservação de energia em construção, extraído de Fred xxx "Energy for Architects", Architecture Plus, julho 1973, apontando uma listagem de itens. Destinados a tornar uma edificação existente em um prédio mais eficiente. Entre estas medidas estão: reduzir as exigências ambientais, refinar os cálculos para se evitar superdimensionamento de equipamento, mecânico, reciclar água, esgoto e lixo, usar materiais de construção que demandam menos energia na sua fabricação, evitar a obsolescência precoce dos materiais, incentivar os proprietários e os arquitetos de construções conservativas de energia, criar programas educacionais e disseminar dados ambientais para o público, engenheiros, arquitetos e pessoal de manutenção, entre outras. O livro de Steadman constitui-se leitura importante e básica para se estudar os aspectos energéticos envolvidos na construção e no desenho urbano. 


OS POBRES NÃO SAO MAIS AQUELES


Sociólogo MARCOS A.E.L.S. COIMBRA da Fundação João Pinheiro

Existem fenômenos curiosos no mundo dos intelectuais brasileiros, região nebulosa onde vicejam idéias, teorias e hipóteses as mais estranhas ao lado de outras tantas plausíveis. Mesmo os orgânicos, para não falar nos inorgânicos, têm o hábito ancestral do retardo, chegando sempre atrasados nas encruzilhadas da história e lá encontrando as forças sociais de xxx as vanguardas, os aclaradores de caminhos, em plena pugna por seus interesses. Dito de outra forma, o que se tem é uma atávica incapacidade dos intelectuais em se porem à frente, pressentindo com sua teoricamente aguçada habilidade de leitura dos sinais que a história produz os rumos do futuro. Não sei o que falta a nós intelectuais, talvez lastro teórico, talvez comprometimento real com os interesses dos grupos e classes sociais que dizemos representar. Alguma coisa falta, e o resultado é raramente podermos exercer o papel do batedor que se expõe ao desconhecido e, no mais das vezes, nos é possível pouco mais que ser a lanterna do trem da história. Vamos iluminando o percurso feito, aquele já trilhado. Óbvio que também isto é relevante. Não se deve confundir, porém, com nenhuma posição de vanguarda, pois a quem está atrás, por definição, se dá outro nome.


A MOVIMENTOLOGIA


Estas rápidas idéias valem para inúmeros aspectos da sociedade brasileira que tem preocupado a reflexão intelectual nos últimos tempos. Parece-me, contudo, que há um tema em especial, para o qual estas observações caem, diria, como uma luva. Trata-se da recentíssima preocupação com os "movimentos sociais urbanos", coisa que tem excitado grandemente a imaginação dos intelectuais brasileiros. Não há mais de três ou quatro anos a noção de movimento social urbano soava no Brasil apenas como afetação de modernidade, pois o tema vinha trabalhado de outras plagas mais civilizadas, e era de bom-tom mostrar-se up to date com as idéias que empolgavam Paris. Hoje, como mudaram as coisas! Legiões de pesquisadores, centros inteiros, verbas vultosas de pesquisa são investidas em seu estudo. Quase se pode dizer que está surgindo uma nova profissão e uma nova ciência, a da "movimentologia", que tem suas próprias regras de validação, seus próprios objetos, sua própria linguagem, seu paradigma ou, porque não dizer, sua "problemática", em sentido althusseriano. A "movimentologia" está solta. Ela percorre todo o espaço do território brasileiro à cata de exemplos de movimentos sociais, encontrando-os por toda a parte, de Fortaleza á Bahia, do Rio Grande do Sul a Belo Horizonte. Sem falar, é claro, de São Paulo, o paraíso, o jardim das delícias do movimentólogo, onde pululam confirmações de sua existência em cada esquina.

A movimentologia não é ampla apenas em termos de cobertura geográfica. Nenhuma categoria ocupacional escapa à sua sanha. Garis, lavadores, operários, peões de obra, professores, motoristas, cada grupo profissional, se bem olhado, vai mostrar que já se movimentou um dia, ou está se movimentando no presente. A nova ciência e seus sacerdotes não se dão por satisfeitos. Os movimentos sociais independem da ocupação, e deve-se buscá-los em coisas como grupos de vizinhança, famílias, paróquias, enfim, na grass-roots da sociedade. Clubes, filas de ônibus, refeitórios, linhas de montagem, igrejas, festas juninas, bairros, em suma, de qualquer parte onde gente esteja reunida pode sair um movimento social e o movimentólogo deve manter abertos seus olhos para não deixar escapar nenhum.


O INVENTÁRIO DOS ESPASMOS

O inventário de cada espasmo da sociedade, de cada remelexo que ela dá, não se restringe à atualidade. Se "bem" estudado, diz a nova disciplina, vai-se ver que o passado brasileiro é fértil em exemplos. Faz-se, então, o rol de todas as greves, todos os quebra-quebras, todos os movimentos coletivos, revirando a história para encontrar confirmações do que já se sabia. O que é isto que se sabia? O que é que o estudioso dos movimentos sociais sempre encontra? Dito de forma breve, o que se descobre sempre de novo são confirmações para uma observação bastante simples: a sociedade é coisa viva, portanto, se movimenta.


Todo o mistério dos movimentos sociais urbanos está em saber por que uma coisa tão banal não se verificava, ou não era percebida, até recentemente, e porque passou a sê-lo agora. Assim, mais que arrolar exemplos e catalogar ocorrências, o verdadeiro problema do estudo desses movimentos são as condições em que se tornam simultaneamente observáveis e compreensíveis os fenômenos, as determinações de sua possibilidade, enfim. Que existem os fenômenos resumidos dentro do termo não se discute. Parece óbvio que, conforme diz o título, os pobres não são mais aqueles. Há uma nova vida nas periferias urbanas brasileiras, onde proliferam formas organizativas novas, como associações de bairro, grupos de melhoramentos, sociedades de defesa mútua. Há uma renovação da vida sindical, anunciada pelo aparecimento das oposições sindicais e hoje cristalizadas em novas lideranças. Há uma Igreja mais presente e companheira dos pobres em suas lutas por condições mais dignas de vida e trabalho, Há uma ousadia e uma coragem que são pouco usuais em nossa história, nas reivindicações dos grupos mais explorados.


PORQUE OS POBRES NÃO SAO MAIS AQUELES

Constatar isto de trás para frente, do cabo ao rabo, de um lado para o outro, não é o mais interessante. Como estas coisas ocorrem não as explica, nem onde. É preciso saber por quê. Trato, a seguir, de uma hipótese que me parece logicamente plausível para explicar porque não mais são aqueles os pobres e, ao mesmo tempo, porque só agora nos estamos dando conta disto. É desnecessário, mas oportuno, lembrar o caráter provisório da hipótese, que muito necessita de testagem e verificação. Vale.porém, como idéia para debate. O que me parece essencial para entender as mudanças que se observam hoje no comportamento político e pré-político das classes subalternas é observar que são uma decorrência necessária e contraditória do padrão de desenvolvimento que o capitalismo assumiu no Brasil. Não é este o lugar para discuti-lo, mas algumas coisas podem ser ditas. A continuidade e expansão do desenvolvimento capitalista, sob ameaça com a crise do modelo agro-exportador e sua variante substitutiva de exportações, se fez com a radical exclusão das classes populares do sistema político. Isto decorria do caráter novo que a internacionalização do mercado interno gerava, com as firmas oligopolíticas dando o ritmo e os estímulos para o avanço da acumulação. O padrão de concorrência próprio a esse mercado oligopolizado exigia renda reconcentrada, isto é, agravamento no perfil de distribuição de uma renda já anteriormente concentrada. A solução da crise, que poderia se dar com um modelo de maior participação, tomou outro rumo : aumento dos privilégios, da injustiça, a transferência maciça de renda real das camadas mais pobres para as mais rica,s. Naturalmente que este modelo não poderia conviver com um pacto de dominação marcado pela participação submissa e submetida dos trabalhadores, com o populismo, em breve. Assim, o autoritarismo era, até certo ponto, inevitável, pois não se poderia manter uma relação amiga e protetora de categorias sociais que viam a cada dia agravar-se o quadro de sua simples sobrevivência. Era preciso excluí-las do pacto político e mantê-las caladas e quietas pelo uso direto da força. No modelo, a exclusão econômica e o autoritarismo político andavam de braços dados, e não creio que poderia ter sido diferente.


POPULISMO E DOMINAÇÃO

0 populismo foi estratégia de dominação marcada desde o início por característica básica. Para incorporar despolitizando, era preciso dar algo de material aos aliados, era preciso pagar a adesão dos trabalhadores através de distribuição ou de redistribuição. O fim do populismo representava, então, a possibilidade de que o Estado pudesse libertar-se desse papel de agência "protetora", e abandonasse as práticas de atendimento de demandas e reivindicações dos setores das classes incluídas. Os efeitos dessa transformação se fariam sentir de imediato na política salarial e nas várias políticas distributivas de cunho social, como a previdência, garantias ao trabalho na forma de estabilidade e proteção, saúde, habitação, infra-estrutura urbana, etc. Todas na medida em que deixavam de ser orientadas para satisfazer, ainda que parcialmente, um aliado politicamente relevante, foram redefinidas com finalidades únicas de contribuir para a acumulação excludente que o Estado a o grande capital implantavam. Sob certo sentido, portanto, pode-se dizer que o autoritarismo liberta o Estado e as categorias que nele se representam diretamente da convivência com as classes, médias e populares, típica do populismo.

j.e. Ferolla
Há, porém, outro lado nessa moeda. O mesmo movimento que liberta o Estado cria as condições para outra liberação, que é a das classes populares de sua tutela pelo Estado. A nova estratégia de dominação, essencialmente baseada na repressão e na força, por outro lado fazia mais claras as coisas, ajudando a desmascarar certos mitos que o populismo acalentava carinhosamente. O interventor sindical, por exemplo, era mais óbvio, muito mais óbvio, que o pelego que, exatamente por ser um híbrido de trabalhador e agente estatal, confundia e dificultava uma ação sindical mais aguerrida. O fechamento dos Institutos de Aposentadoria e Pensão e, em outros exemplos, a criação do BNH, a privatização da medicina, o fim da política de abastecimento popular, entre outras, mostravam, cada vez com menores dúvidas, de que lado estava o Estado. Tem-se, assim, como decorrência contraditória do autoritarismo, uma situação quase original na história do Brasil contemporâneo. Pela primeira vez, desde a Revolução de 30 e a montagem subseqüente do modelo populista, em diversas versões, se puseram condições para uma ação social relativamente autônoma das camadas populares. A quebra do pacto populista, com seu paternalismo repressor, significou a perspectiva de uma independência dos pobres.

Disse que era "quase original" porque, sob certo aspecto, o Brasil de hoje se parece com o de antes de 30. O "laissez-faire" das relações sociais naquele período, que dava lugar a sindicatos autênticos, imprensa operária significativa e partidos ideológicos foi substituído por outro tipo de presença do Estado, mais bruta e forte, mas igualmente despreocupada com a promoção da justiça e do bem-estar comum. Daí, inclusive, um renascimento ambíguo do liberalismo, mesmo dentro do movimento sindical, que é, simultaneamente, a favor de negociações diretas, e procura canais próprios da representação e expressão.

É esse movimento amplo de autonomização relativa dos setores populares, desdobramento conflitual do modelo excludente e do autoritarismo, que explica, a meu ver, porque se assiste hoje a um vicejar dos movimentos sociais urbanos que tanto interessam aos intelectuais. Alguns de seus sinais já foram referidos: novas Sociedades de Amigos de Bairro, novas organizações mais horizontais como o Movimento de Custo de Vida, formas ainda há pouco consolidadas como Cooperativas de Consumo, etc.

Há outros, também, como a votação aos candidatos autênticos do MDB, as reclamações trabalhistas, as greves e paralisações.

É cedo para se falar nas perspectivas dessa situação que se descreveu muito grosseiramente. Uma possibilidade que creio bastante alta é embarcar o Estado novamente na expectativa do populismo, para tentar recapturar a sociedade que lhe escapou do controle. Outra, menos provável, é que, pelo que tem de recente e de localizada nas áreas industriais do país, onde se concentram os setores operários mais modernos, a nova vida nas periferias-não chegue a provocar mudanças de vulto e acabe engolida pela inércia da história.

O futuro dos movimentos sociais urbanos está por ser imaginado. Do conhecimento mais acurado de porque surgiram eles, do diagnóstico realista de sua real relevância política, da observação de como e onde ocorrem, devem-se retirar ensinamentos para orientar a ação a ser tomada, buscando compreender o presente para interferir no futuro. Sem esse esforço, acho que de novo nos condenaremos a ir de reboque na história e sermos surpreendidos na frente por coisas que estavam inscritas no presente, mas que fomos incapazes de ler.


DEPOIS DAS CHUVAS...

O Município de Belo Horizonte se localiza na Bacia Hidrográfica do Rio das Velhas, no vale de seus afluentes Arrudas e Pampulha-Onça. A Bacia do Arrudas abrange cerca de 20.600 ha, 16.200 ha pertencentes a Belo Horizonte, 2.900 ha a Contagem e 1.500 ha a Sabará. O talvegue do Ribeirão desenvolve-se na direção Oeste-Leste e sua extensão é de 47 km, contados desde a cabeceira à sua embocadura no Rio das Velhas.

Até então é o principal coletor das águas pluviais e dos afluentes dos esgotos sanitários da capital mineira. Sua situação em relação à cidade provocou aumento na urbanização e canalização de seus afluentes.

O problema das enchentes neste vale agrava-se de ano para ano, trazendo conseqüências desastrosas para os habitantes das margens e para o próprio poder público. Tais problemas tendem a se agravar ainda mais, na medida em que se constroem coletores e galerias de águas pluviais à montante.

Por isso, a discussão sobre as causas da grande enchente ocorrida a 8 de fevereiro passado em Belo horizonte ainda não se encerrou. De maneira geral existe a crença de que o fato decorreu de uma chuva excepcional, de pequena duração. Na realidade, a análise dos registros pluviométricos e pluviográficos dos serviços metereológicos localizado no Horto, no Aeroporto da Pampulha e em Contagem, permite algumas conclusões diferentes. Os meses de janeiro e fevereiro apresentaram realmente precipitação total de 902 mm, a maior dos últimos vinte anos. As chuvas de janeiro provocaram a saturação do terreno, tornando-o incapaz de reduzir o volume de água, que passou a fluir rápida e diretamente para os córregos. Numa região com características topográficas e com o nível de urbanização da Região Metropolitana, a saturação configurou-se crítica. Nos primeiros dias de fevereiro houve uma intensificação das chuvas que culminou com precipitação de 51,8mm entre 17,10 e 22 horas do dia 8, ocasionando violento transbordamento do Arrudas que atingiu o próprio centro de Belo Horizonte. De modo geral, analisando-se os pontos atingidos, é possível constatar o despreparo do aglomerado metropolitano para enfrentar esses fenômenos naturais e previsíveis. Por um lado o Plano Metropolitano de Drenagem Urbana elaborado em 1975 pelo PLAMBEL, não vem sendo executado nos prazos previstos por falta de recursos. Por outro, a ocupação do solo urbano se faz a mercê dos interesses do mercado imobiliário, sem que se meçam as conseqüências dessa urbanização. Verificamos, paradoxalmente, que as autoridades permitem o agravamento contínuo da situação por não fixar critérios técnicos adequados para garantir que a urbanização não resulte na necessidade de recursos crescentes para drenagem.

A ocupação de encostas íngremes verificada na zona sul da capital ocupa terreno friável onde grandes cortes e aterros vêm provocando sérias erosões, com carreamento de material para as galerias pluviais e leitos dos córregos. Esses loteamentos geralmente retiram toda a cobertura vegetal natural acelerando o processo erosivo, reduzindo a capacidade de retenção de água da área e produzindo rápida concentração das chuvas nas partes baixas. Como se não bastasse a ocupação de encostas íngremes, ainda se permite a abertura de loteamentos sem implantação da rede de drenagem, agravado pela eliminação da cobertura vegetal e aterro de talvegues, destruindo a drenagem natural. Some-se a isso os bota-foras indiscriminados em todas as áreas da cidade, mesmo junto às calhas dos córregos, composto de material não compactado, facilmente carreável, o primeiro a obstruir as redes de drenagem. As prefeituras vêm permitindo esses lançamentos para evitar que o custo de transporte de terra e outros materiais a longa distância venha onerar mais ainda as obras em execução. Chega-se ao absurdo de não se remover das margens dos córregos a terra retirada pela drenagem feita para recuperação de seus leitos. Isto leva à necessidade de implantação de um serviço sistemático de limpeza das galerias e recuperação dos leitos dos córregos, o que não vem sendo feito por descaso ou falta de recursos.

A situação da área central de Belo Horizonte é crítica. Sua rede de canalização fluvial é antiga e insuficiente para escoar o volume crescente de água que a impermeabilização que vem acompanhando sua ocupação acarreta. Essa área, que apresenta baixas declividades e é cortada pelos meandros do Arrudas, terá sempre lugares sujeitos a inundações, enquanto não se fizer a canalização definitiva d'o ribeirão.

A Lei de Uso e Parcelamento do Solo permitiu a ocupação e conseqüente impermeabilização de 100 por cento da área de cada lote em grande parte da área central, fato já agravado pelo asfaltamento extensivo. Além disto, as barragens do Acaba-Mundo e Santa Lúcia estão completamente assoreadas, sendo que na última foram executadas obras de terraplenagem. Mesmo a barragem da Pampulha não foi feita para controle das cheias, apontando-se várias falhas quanto a sua operação.

Os resultados estão aí aos olhos de todos; as calhas dos córregos e ribeirões assoreadas, as redes pluviais, onde existem, entupidas, as áreas baixas sofrendo inundações cada vez maiores, atingindo atualmente o próprio centro da cidade.

Entretanto, é nas áreas baixas inundáveis e de pior qualidade, naturalmente colocadas fora do mercado imobiliário, que os migrantes vão construir suas precárias habitações, os desempregados e operários cujo salário torna impossível aquisição de um terreno ou pagamento de aluguel O preço que esses pagaram é de conhecimento público conforme noticiaram os jornais.

 

Derly Maria da Silva, 24 anos, três filhos, estava fazendo comida. Há dois dias não chovia e ela já havia deixado o Abrigo São Paulo e, de volta ao seu barraco, às margens do Córrego do Onça, tentava colocara rotina na sua vida. "De repente, o céu começou a ficar preto. Eu vi a nuvem caminhando prá cá. E o tempo fecha, a gente perde até a fome". Miúda, clarinha, com os olhos muito pretos, Derly não pára de falar do dia em que ela chegou (8 de fevereiro de 1979), o dia em que caiu a tromba d'água sobre Belo Horizonte, provocando a enchente mais grave dos últimos vinte anos da história da cidade. "Eu tinha pensado em fazer um macarrão, mas quando vi que "ela" vinha, pensei, vai arroz com feijão mesmo. Dei pros meninos falando - anda, menino, come depressa. Mas não deu tempo. "Ela" chegou e em quinze minutos já estava com água na cintura. Na hora em que "ela” toma conta, eu só corro para salvar meus filhos. Porque eles se a gente perde na água, não acha nunca mais."

("EM TEMPO” no.15, pág. 12 de 15 a 21/02/79).


Essa é a situação dos flagelados mineiros, segundo as regionais do Cedec: Diamantina, 2.747 flagelados; Governador Valadares, 10.253 desabrigados; Bom Despacho 47; Barbacena, 1.661; Montes Claros, 33.646; Ipatinga, 1.498 e Patos de Minas, 36; Sabará, 40 desabrigados; Nova Lima, 200; Betim, 68; Neves, 60.

("ESTADODEMINAS" 1o. caderno, pág.6 8 de abril de 1979)


"As casas que estão sendo construídas no bairro Gorduras, para abrigo dos flagelados da cidade, são de inteira responsabilidade do governador do Estado e da prefeitura de Belo Horizonte".

A informação é do diretor da Chisbel, Marcelo Andrade Neves, que afirmou, ontem, a não participação do órgão Chisbel - na realização da obra. E desmentiu, ainda, que tenha informado, aos quatro vereadores que o procuraram na segunda feira, que a Cohab tenha qualquer participação na construção. A realização da obra foi decidida através de um convênio assinado, diretamente, entre o governador do Estado, na época Ozanam Coelho, e o então prefeito Luiz Verano, no Palácio dos Despachos. A participação da Chisbel se limita à prestação de ajuda em Unheiro e material de construção aos flagelados que perderam suas casas e, quanto à Cohab, a única participação foi a da doação do terreno do Gorduras. Inclusive as quatro construtoras encarregadas das casas foram afastadas de suas funções - Via Expressa - para atender a essa determinação do governador.

("ESTADO DE MINAS " 1o. caderno, pág.5 16 de maio de 1979)


Construídas pelas quatro construtoras da Prefeitura Municipal - Nossa Senhora da Glória, Andrade Gutierrez, Alcindo Vieira e Mendes Júnior - as futuras casas dos flagelados.

("ESTADO DE MINAS" lo. caderno, pág.6 8 de abril de 1979).

 
Passados cinco meses das chuvas, quando 402 pessoas que perderam seus barracos ainda se encontram abrigadas em locais oficiais, a Secretaria Estadual do Trabalho anunciou, ontem, sua intenção de construir casas para todos esses flagelados que estão cadastrados no Grupo Escolar JK e no Abrigo São Paulo. Segundo informações do gabinete do secretário, a Secretaria do Estado do Trabalho e Ação Social já tem a verba para a construção mas está em fase de contatos com "vários setores" para arranjar os terrenos onde serão construídas as casas. Sobre as casas do Gorduras, a Secretaria do Trabalho informou que "não tem nada a ver o conjunto" e nem recebeu do Palácio informação alguma sobre aquelas casas.

("ESTADO DE MINAS" lo. caderno, pág. 14 22 de abril de 1979).


Sem alicerce algum, as peças de madeira foram diretamente fincadas na terra e logo apodrecerão. As paredes são de frágil compensado de madeira, desse tipo que se usa como tapume de obras. A cobertura é de telha de amianto ordinário. A área construída é de apenas 18 metros quadrados e todo o lote (incluindo a cabana) mede somente 34 metros quadrados, quando se sabe que nos conjuntos mais modestos, tipo Cohab ou Profilurb, mede, no mínimo, 180 metros . Portanto, os chamados lotes do Gorduras são cinco vezes menores do que o legalmente indispensável. "Ruas não existem, apenas vielas de, no máximo, 3,90 metros de largura. As cabanas não possuem banheiro, nem vimos espaço para colocá-los.

Não há calçamento, sequer encascalhamento. A erosão já começa a aparecer nas encostas e até nas partes planas do terreno. Tanto a fragilidade das cabanas como o terreno inteiramente desprotegido levam a crer que não vão durar nem mesmo os seis meses calculados por entendidos, como, por exemplo, o Instituto de Arquitetos do Brasil, seção Minas Gerais. São 850 cabanas comprimidas numa área onde caberiam no máximo 200 habitações tipo Cohab.

("ESTADO DE MINAS" lo. caderno, pág.5 10 de maio de 1979).


"Mil vezes pior que o gasto na retificação deste ato criminoso seria deixar como está e permitir que milhares de seres humanos, crianças e adultos passem a viver naquele antro".


("ESTADO DE MINAS" lo. caderno, pág.5 10 de maio de 1979).


O presidente da União dos Trabalhadores da Periferia de Belo Horizonte, Francisco Farias Nascimento, está pedindo ao prefeito e a todos os membros das administrações municipal estadual e também federal que se posicionem no sentido de definirem as questões que dizem respeito "ao vergonhoso Conjunto Habitacional do bairro Gorduras", feito para abrigar os flagelados das enchentes que assolaram o Estado no início do ano. Segundo o presidente da União dos Trabalhadores, na época das chuvas o então secretário de governo assumiu o compromisso de construir um conjunto habitacional no bairro Gorduras. Agora, esclarece, "o que se vê no local são 850 caixotinhos de compensado forrado com telha de amianto, ambos de péssima qualidade, sem iluminação e sem rede de água. E dizem que é para ser habitado".

("DIÁRIO DA TARDE" lo. caderno, pág.2 21 de maio de 1979).


Numa reunião onde estiveram presentes representantes de 50 vilas (inclusive da Grande BH), os favelados de Belo Horizonte decidiram, na última quarta-feira, que não deixarão suas casas para ir para o Gorduras por "hipótese alguma". E começam essa semana a realizar um trabalho de conscientização de todos os favelados para que não se iludam com as palavras daqueles que tentarem forçá-los sob ameaças ou sob promessas a morarem por algum tempo no conjunto do Gorduras". Reafirmando a disposição dos favelados em hão deixarem suas casas sem a indenização definida e de não irem para o Gorduras, o presidente da União dos Trabalhadores da Periferia de BH disse, ainda, que "embora a Chisbel negue, ela continua, ainda essa semana, ameaçando moradores de várias favelas a serem levados para o Gorduras".

("ESTADO DE MINAS" lo. caderno, pág.5 22 de junho de 1979)


Em requerimento que irá apresentar esta semana na Assembléia Legislativa, o deputado oposicionista Luis Otávio Valadares encaminhou pedido ao governador Francelino Pereira para que proceda à demolição do conjunto habitacional do Gorduras, "uma vez que ele não se presta a nenhuma de suas finalidades, dada a sua extrema precariedade". O parlamentar justifica sua solicitação afirmando que "o conjunto habitacional do Gorduras, destinado a abrigar o restante dos flagelados das enchentes, é inabitável. Custa acreditar que firmas conceituadas tenham aceitado edificar tamanha monstruosidade.

("DIÁRIO DA TARDE" lo. caderno, pág.3 28 de maio de 1979)

Belo Horizonte - Contagem

Passada a grande enchente de Belo Horizonte, os flagelados voltaram a se movimentar, acostumados já a não aguardar ajuda de cima. Muitos se acomodaram em casas de parentes, a maioria voltou para as antigas favelas â beira de córregos ou nos altos de morros, como-opção restante. Houve casos de antigos moradores serem recebidos sob violência policial, inviabilizando o retorno pretendido. A violência também se fez presente quando da tentativa de invasão de terrenos públicos. Afinal, a ocasião era propícia para a remoção de parte das favelas da Grande BH, a baixo custo. Valendo-se da emergência, o Governo do Estado realiza convênio para implantar a "solução" do conjunto do Gorduras, a 8 km do bairro São Francisco, em terreno doado pela COHAB. Com término previsto para abril, o aglomerado do Gorduras propunha a construção de cerca de 850 casas, um poço artesiano e iluminação pública nas principais vias de acesso. Segundo a imprensa, os empreiteiros receberiam vinte mil cruzeiros por casa, mais cinco mil cruzeiros referentes á obras de saneamento, perfazendo valor unitário de vinte e cinco mil cruzeiros. O Informador das Construções, de 15 de fevereiro, apresentou orçamento de Cr$ 11.838,50 para a edificação de moradia nos moldes propostos, já computados mão de obra e encargos sociais. O CETEC, órgão ligado â Secretaria de Ciência e Tecnologia do Estado, estimou na época o custo do material a ser empregado em casa de alvenaria, com 3 cômodos, área de 20 m2, inclusive alicerces, laje e telhas francesas, em: Cr$9.129,00 - para alvenaria em blocos de concreto e Cr$ 10.726,00 - para alvenaria em tijolos furados.

Para o caso de Gorduras, dos materiais a empregar, destacam-se: telhas de amianto, paredes em madeirite. De curioso, a inexistência de alicerces, fincando-se as casas diretamente no solo. Área de cada unidade: 17,49 m2. Na ocasião, o Jornal dos Bairros publicou a opinião dos flagelados como favorável ao recebimento de terreno com infra-estrutura e respectivos materiais, ficando a construção por conta deles em regime de mutirão. Renegando a "solução" Gorduras, os marginalizados resistem â ameaça de mudança, como é o caso dos moradores do Perrela, Vila União e favelas próximas, chegando mesmo a afirmar: "Ali é pior que qualquer favela." (V. entrevista pág.20)

Favela e Gorduras apenas se identificam quanto à precariedade do material utilizado nas construções, mas falta ao segundo as características sociais e de coletividade que viabilizam a primeira. A favela é a própria garantia de subsistência, localizada próxima ao mercado de trabalho', na maioria das vezes o biscate e o emprego doméstico, próximo às áreas servidas por infra-estrutura utilizada clandestinamente. Além disso, há o lixo caseiro: móveis e roupas jogados fora e restos de comida que servem para alimentar criação de porcos. Outro aspecto importante diz respeito â constituição da favela como estrutura de apoio ao morador. A própria organização espacial reflete isso: espaços familiares criados entre as casas, quase sempre nos fundos, as portas de serviço se defrontando. Todo este condicionamento típico inexiste no Gorduras, com o agravante de os moradores serem obrigados a grandes deslocamentos até os locais de trabalho, pesando no precário orçamento.



O QUE SE QUESTIONA


Gorduras mostra construções distribuídas em patamares com duas fileiras de casas cortadas por rua de 3,60 m. de largura. A cerca de um metro do limite de fundos das habitações, existem taludes que definem os patamares. A distância entre casas é de três metros e a organização regular e retilínea. Foi justificada como solução provisória, aproximadamente 4 meses, enquanto se estuda o problema de cada uma e a melhor maneira de solucioná-lo", segundo Marcelo Neves, diretor da Chisbel. O otimismo do Sr.Diretor quanto ao prazo seria estimulante, não fosse tão grande a desconfiança da população frente à eternização de soluções 'provisórias. Questiona-se Gorduras principalmente pela precária viabilidade de serviço,onde entrar e sair se evidenciam como possibilidade única. Ora, para o morador de favelas, o espaço externo é fundamental e a casa mais um abrigo, o lugar de dormir. Atividades outras são realizadas no terreiro, onde comadres trabalham batem papo, vigiam crianças, se divertem. Dentro e fora se confundem: o fogão pode estar dentro, mas a bacia de lavar panelas, em geral, está fora. O verde envolve tudo, com bananeiras trepadeiras, couve e chuchu. Há o espaço coletivo, a clareira das "peladas" aos domingos. A bica e o boteco definem áreas comuns, interiorizadas, fatores de coesão, espaços polarizadores. Tudo isso reforça as dúvidas quanto ao acerto do esquema Gorduras, cuja rigidez de malha disciplinada não possibilita qualquer ajuntamento de pessoas, menos ainda convivência comunitária. Reproduziu-se ali "modo de morar" típico de classe média, em dimensões caricaturais, miniaturas de apartamentos em espaço sufocante, massificante. Pode-se mesmo afirmar que é um processo de violentação do favelado, na medida em que avilta sua forma de apropriação do espaço e a manifestação de sua própria cultura. A intenção aparte* dará : entrar no conjunto. Ir para essa (se possível encontrá-la), sair do conjunto, dispersar-se pela cidade à procura de trabalho, não conviver, não se relacionar, é tirada a possibilidade de organização e cada uma como puder, que se recolha em seu pequeno cômodo, face à ausência do entorno da casa, do quintal coletivo, das clareiras. A casa é clausura: apenas uma porta, interior e exterior separados de forma rigorosa.



PROMISCUIDADE

Paralelamente, não há possibilidade de isolamento, uma vez que a distância entre casas e os materiais utilizados não permitem privacidade, é ilustrativo o depoimento de Francisco Nascimento, Presidente da União de Moradores da Periferia de Belo Horizonte: "Calcula-se que serão 850 famílias comprimidas em tão pouco espaço. (V. entrevista). Há perigo de conflito entre vizinhos, a angústia, o desespero permanente e o medo contínuo de incêndios alastrantes, dado o perigo de um fogão dentro de tão apertadas cabanas feitas de material altamente inflamável. Nas favelas, as diferenças de nível do terreno, o agrupamento de casas orientadas de forma diferente, os espaços familiares individualizados, ainda que os afastamentos entre moradias sejam pequenos a organização permite a individualidade e ao mesmo tempo a possibilidade da área coletiva. Constata-se no Gorduras a impossibilidade de reproduzir o próprio modo de viver daqueles a quem se destina.

Para uma situação de calamidade, uma solução da emergência, favorecendo apenas algumas empresas construtoras e configurando ameaça permanente para centenas de famílias que, a duras penas, reconstruíram seus barracos com maior rapidez que esses empreiteiros, que contaram com recursos até excessivos frente ao produto apresentado. O conjunto Gorduras ainda nem estava pronto e a maioria dos flagelados já tinha "quebrado o galho". Se a Chisbel tivesse eliminado os intermediários e entregado diretamente aos interessados o terreno e os materiais como pediram, a solução seria muito mais eficaz, e ainda, muito mais rápida e econômica. Afinal, quem constrói nas grandes empresas são esses mesmos favelados, e ninguém conhece melhor que eles o modo de vida e moradia que lhes convém. Assistimos outra vez à falência das atitudes paternalistas e comprometidas, que levaram ao conhecimento público um vexame maior que a atual atitude da Chisbel, que andou carimbando casas de favelados, lembrando o "xis" nas moradias dos hebreus...

P.S. Quanto se terminou de redigir este artigo, chegou-se ao conhecimento da instauração de uma comissão parlamentar de inquérito para tentar apurar o que foi feito da verba / destinada às vítimas de enchente (V.Estado de Minas de 8/7/79), outro vexame que o Sr. Marcelo Andrade, diretor da Chisbel, poderia ter facilmente evitado. Como em várias outras CN provavelmente será tudo arquivado, pois reconhecer a incompetência do Estado é algo que, nem em tempos de abertura, ainda se teve notícia.

 

Esta entrevista foi feita durante uma reunião comunitária de moradores das vilas do Perrela, Santa Terezinha e União. Ameaçados de i desalojamento devido às obras da via expressa Leste-Oeste, foi-lhes apresentada possibilidade de ocuparem o conjunto dos Gorduras por um1 período de tempo, para posteriormente conseguirem adquirir um lote e se instalar definitivamente.

Esta conversa é uma coletânea de impressões sobre as medidas que são tomadas com relação aos favelados analisadas por eles mesmos, e fala também de suas aspirações e seus problemas.

No final, um depoimento de uma moradora da favela que na última enchente (Fev/79), perdeu sua casa e tudo o que havia dentro.



... Falaram que o favelado não sabia morar Eu sempre penso que á o governo é que não sabe construir...
 
1 - Que impressão tem do Gorduras?

Não somos contra as obras públicas, porque sabemos que as obras públicas são o engrandecimento de nossa BH Somos contra de ir para os Gorduras porque não tem condições para a família morar. Porque os barracões de lá já foram condenados pelos engenheiros arquitetos (sic).

O engenheiro arquiteto é que refere que as casas não tem sobrevivência mais de 6 meses. Aquilo lá não serve nem pro cachorro do favelado morar. Muito embora o favelado seja marginalizado lá em cima, aqui existe muita gente boa, são pessoas de baixa renda, carentes, mas nós também sabemos morar. Esse caso dos Gorduras, esse diretor da CHISBEL, eles tão querendo aproveitar i a mesma coisa de uma palhada - depois que você colhe\ o mantimento, então solta a criação naquele resto que fica lá e eles vão e comem o resto.

Então aquele resto, eles comeram uma verba muito garante que ficou pelos 21 mil e pouco aqueles barracões e tem pessoas aqui que entendem e diz que não ficam mais de 5.000,00. Então, eles querem mandar nós para lá, é a mesma coisa que uma palhada, o negócio não presta não, pode jogar qualquer criação lá para comer o resto. Até para pessoas que foram indenizadas eles estão propondo de ir para lá. Porque se fosse casa própria, eles não queriam dar. As casas lá são emprestadas por 90 dias. Depois de 90 dias, dar um dinheiro para o favelado dar entrada no lote. Os barracões, eles tão doidos pra mandar gente pra lá por que eles comeram a verba, era uma verba que podia ter feito coisa melhor, eles estão querendo ver se ocupa aquilo lá de qualquer maneira e estão propondo que vão dar um dinheiro, mas eu já tenho uma série de experiências e sei a convivência desse diretor da CHISBEL com o favelado, eu não acredito que ele vai dar nem o dinheiro para o favelado dar entrada num lote. Sou um dos presidentes da Vila União e Santa Terezinha e o que nós falamos para os nossos companheiros, é que não vá à CHISBEL nem atender esses avisos.

Moro em favela há 14 anos, sei muito bem que quando vem esses avisos, vem um fiscal percorrer esses barracões, saber quantos cômodos tem, o que é de melhoramento, e esses avisos é exatamente para as pessoas chegar lá e o pessoal da CHISBEL perguntar, saber da vida deles, saber o que que eles tá comendo.

A CHISBEL não tem nada a ver com isso. Eles teriam que saber ou sobre uma casa própria ou a indenização justa de 16.200,00. Desse jeito nós saímos plenamente. Estamos para sair a qualquer momento, desde nos indenizar. Do contrário não saímos de maneira nenhuma. Nós temos nosso advogado Dr. Obregon Gonçalves que trabalha 24 horas por dia para o favelado sem cobrar um tostão. Mas voltando ao problema dos Gorduras, além do espaço ser de apenas 18 m2, sem jeito para crescer, ainda não tem água, luz, e a instalação sanitária é para quatro famílias ao mesmo tempo.  

Todo favelado pode não ter instalação completa, mas tem sua casinha com fossa, alguns até de rede. Lá é muito longe e tem pessoas sem condição para trabalhar, não tem dinheiro para pagar a condução todos os dias. Aqui a gente sempre vai a pé, o serviço é perto.

Até que se tivesse lá nos Gorduras, uma casa própria de 180 m2 de terreno, pelos menos meio lote, as pessoas sofriam uns tempos, mas podiam dar um jeito de arrumar emprego por lá e sobreviver.

Uns tempos atrás, num governo anterior, falaram que o favelado não sabia morar. Eu sempre penso que é o governo é que não sabe construir. Morar nós sabemos, nós não temos é condição.


2 - Saindo daqui, onde pensam ir?

Tem muita gente que se for indenizado em 16.200 irá para outra favela. O nosso lema não é receber a indenização, nós estamos querendo é o PLANHAP- Plano Nacional de Habitação Popular. Nosso interesse é ter casa própria. As pessoas estão dizendo que até o fim do ano teremos que sair daqui, eles enrolam, a prefeitura já disse que deu o terreno, o Plano PLANHAP de Habitação alega que não recebeu o terreno, por isso temos certeza que não vai sair as casas.

Por 16.200,00, nós saímos tranquilamente sem precisar recorrer à polícia, como já ocorreu aqui recentemente. Um nosso companheiro foi levado por pessoas que nem sabíamos que eram da polícia. Foi levado para a CHISBEL, e de lá para o DOPS. Depois de muito falaram que o favelado não sabia morar. Eu sempre penso que é o governo é que não sabe construir.

Ameaçado no DOPS, foi dito a ele para aceitar qualquer acordo que a CHISBEL fizesse, sob pena de represálias. Mas não fugindo da sua pergunta, eu como todo favelado tem desejo de ir para uma casa própria e não para outra favela. A maioria das pessoas não tem condições de ir pra um lote urbanizado. Menos de 15 por cento. Aqui nas nossas favelas, temos 2000 casas. Dessas, somente umas 200 podem ir para um lote próprio.


3 - A indenização de 16.200,00, o que cobre?

É por cada cômodo, sendo que um melhoramento vale como um cômodo. Uma cisterna vale um cômodo, um padrão de luz vale um cômodo. O preço médio de um barraco indenizado fica por 50.000,00 mais ou menos. Mas esse dinheiro é pouco para adquirir uma casa própria. Como o favelado está acostumado com pouco, faz um barraco mais humilde e com o tempo ele pode melhorar. Eu acharia pelo menos, que tem aqui barracões com só um cômodo, de papelão, que não seria justo que este companheiro também recebesse a mesma indenização. Ele deveria receber uma ajuda para sair da favela, pra não dá mais amolação pra CHISBEL.



4 - Como é o processo de remoção do favelado?

Eles vem e tiram as pessoas, mas por não ter quem tome conta, vem outro favelado e ocupa o lote que está vazio. Para ser assim, é preferível a gente mesmo ficar, porque se eu saio, dou lugar pra outro. Nós saímos com a lei mas não para ir para os Gorduras. A CHISBEL tem interesse em desapropriar, por isso ela não põe alguém para tomar conta dos locais desocupados, ela ganha dinheiro com isso, de forma que para um barraco de 60.000,00 para o favelado, a verba é de 80.000,00 para a CHISBEL. Além disso, ela não tem critérios para a distribuição de verbas de emergência, não beneficiando as pessoas que precisam realmente.


5 - Qual o emprego do favelado?

Eu acho que o embelezamento e o engrandecimento de BH nós devemos ao favelado, porque o favelado sendo o de baixa renda, é que é o pedreiro, que começa o prédio, é o que pega todo o pesado. No entanto, a maioria dos favelados passa fome. Na época daquela enchente teve muito gente que ia lá para o Jumbo pegar os restos de comida, coisas estragadas, para poder sobreviver.


6 - Qual foi aqui a conseqüência das chuvas?

Aqui teve muita casa caída e se tiver uma enchente metade da anterior, vai ser bem pior porque deu rachões na terra. Com uma nova chuva o que sobrou vai embora, pelo menos umas duzentas famílias vão embora porque não vai dar tempo de sair, poderá morrer muita gente.


7- Continuam vindo muitos do interior para BH?

Se o governo olhasse para o homem do campo, ele não viria para a cidade grande. Eles vem de lá porque não tem condições. No interior o homem tá ganhando 30 cruzeiro por dia para trabalhar de 6 da manhã às 6 da tarde, e ganha 40 cruzeiros se traz o caldeirão de comida de casa. Os alimentos lá são mais caros e de pior qualidade, e não existe mais de um tipo. Agora, se der condições para o homem do campo viver lá, ninguém vem para BH O homem do campo quando vem para a cidade, para ele é uma coisa de outro mundo.

Ele não acostuma aqui nem com um ano. Ele vive aqui por necessidade e a vida não á fácil pra ele. As mulheres num pode nem ter muito filho porque o dinheiro não dá. Eu achava que o governo devia tomar uma providência, porque tanto o homem do campo chega aqui, ele enfrenta aquele dilema: o emprego é difícil. Muitos vêm para BH e ficam desempregados, uns às vezes por motivo de documentos, ele tem que ter o certificado de reservista pra tirar a carteira profissional, começando por aí as suas dificuldades. No interior devia ter hospital, escolas, etc.

Por exemplo, o fazendeiro põe o agregado na sua fazenda.O agregado é aquele que faz a roça com o patrão. O patrão cobra dele a terça. Se ele colhe 30 alqueires de milho, o patrão tem 10 alqueires sem ter trabalho nenhum, ele não arou o terreno, não fez nada. O homem do campo é geralmente doente, é difícil de ver homem gordo porque ele vive sofrendo, passando fome. Ele alimenta só duas vezes por dia e pouco.

O custo de vida em BH é mais barato que no interior mais de 30 por cento. O povo do interior tá muito desfardado, mesmo devido as faltas de chuva, num tá produzindo mais nada "nas suas terras".

Tem muitos fazendeiros que não gostam de ter o "camarada” nas suas terras para não ter problemas depois. Eles preferem buscar os camaradas na cidade e nas favelas, sendo que o trabalhador tem que viajar todo dia, até 200 km. Se o governo não tá agüentando manter a cidade de combustível...


8 - Existe aqui, algum tipo de assistência de Entidades Filantrópicas?


Durante a época das enchentes, teve distribuição de roupas e alimentos, os quais foram tão bem distribuídos quanto à verba que a CHISBEL distribuiu para os flagelados; distribuíram para pessoas que não precisavam. Os alimentos e roupas não foram distribuídos pela CHISBEL - Ela só dá veneno e polícia para favelado .

A LBA ainda não veio aqui, sendo que existem mães que não alimentam seus filhos direito por falta de recursos.

 


DEPOIMENTO DE UMA FLAGELADA

No dia da enchente, eu tava trabalhando na AÇOMINAS e quando cheguei lá pelas 23 horas, uma menina veio correndo atrás de mim porque ela já sabia que mais em baixo não dava para passar mais por quanto da água. Todo mundo já tinha saído e tinham levado as coisas para o campo lá em cima. Fiquei desesperada. A menina me levou pra onde a minha menina e minhas coisas estavam. Um vizinho tinte levado ela para a casa dele. Eu fiquei muito chateada. Fui na CHISBEL e eles falaram que iam dar alguma coisa pra gente. Eles me deram já gorjeta, mas aí eu já não estava agüentando mais andar, juntou o susto com tudo e eu ainda sem lugar pra ficar. Eu queria totalmente que eles me desse um cômodo pra mim ficar com as minhas meninas. Eles não deram. Aqui morreu um rapaz mais em cima, não sei bem a idade dele, mas acho que não tinha 22 anos. Acharam o corpo só lá no Caetano Furquinho depois de 3 dias. A mãe dele e eu tivemos que ser internadas pelo mesmo motivo, ficamos desesperadas. Então como eu ia falando a ação da CHISBEL, eles me deram um cartão, mas então eu não pude voltar lá porque eu tive que ser internada. E sem lugar de ficar agora estou e não posso trabalhar para alimentar nem nada e esperando aí, nem posso ir na CHISBEL porque as pessoas que foi na CHISBEL, colegas minhas, ontem mesmo desceram aqui chorando porque até hoje . . .

Prometeram que iam dar pra uma colega uma indenização pelo menos assim um lugar pra ela ficar. Justamente nós estamos aqui porque não tem lugar pra ficar. Pagar aluguel, quem tá trabalhando e tem condições paga, mas quem não está, como eu, nato dá, né? Minhas meninas tão com a i madrinha porque eu tinha que ir para o hospital e elas não tinham onde ficar. O médico não falou comigo o que é que eu tenho, só falou que eu nato posso parar o tratamento agora, que não posso pegar peso a mais de um quilo e nem costurar máquina a motor eu nato posso. Agora, estou sem condições até de alimentar porque já sai do hospital e nato tenho dinheiro pra comprar comida. Tenho só tomado soro que o médico me deu. Tamos esperando a decisão da CHISBEL, tenho até o cartãozinho guardado aqui. Ainda que eu saiba, não indenizaram ninguém. Inclusive a dona desse barraco, ofereceram pra ela 3.000,00 por quatro cômodos e ela não quis. Se ela aceitasse os 3.000,00,0 que que ela ia fazer com eles, ela não tem marido e se aceitasse o dinheiro tinha que sair daqui, e como é que ia construir outro barraco <x>m os três mil cruzeiros?

... O EMBELEZAMENTO E O ENGRANDECIMENTO DE BH, NÓS DEVEMOS AO FAVELADO, PORQUE O FAVELADO, SENÃO O DE BAIXA RENDA, É QUE É O PEDREIRO.

Autores:
Est. Arq. Anna Flávia Franco
Est. Arq. Ana Maria F. Saraiva
Arq. Ana Maria Schmidt
Arq. Herbert J. Teixeira
Est. Arq. Gina Beatriz Rezende
Arq. José Márcio de L. Franco
Arq. José Roberto G. Ferreira
Arq. Jupira Mendonça
Arq. Laudelina Garcia
Eng. Sanit. Marco Aurélio L. Gomes
Arq. Reinaldo G. Machado
Arq. Yara Marques
Coordenação dos textos:
Arq. José Eduardo Ferolla
Arq.. Ronaldo Masotti


PLANO AUTO-CONSTRUÇAO A BAIXO CUSTO (SOLO - CIMENTO)

José Carlos Laender de Castro, arquiteto.
 
Com os interesses econômicos e políticos ligados â constante expansão e desenvolvimento das cidades mineiras pode-se apresentar alternativas para encontrar pelo menos algumas soluções parciais para os problemas mais urgentes que atingiram as cidades com estas enchentes. Se não forem estabelecidos agora planos mais amplos e ambiciosos, elas sofrerão graves problemas de ordem social como desemprego por carência de habitação e serviços públicos (água, luz, esgoto) tudo isto posto á mostra durante as inundações de Janeiro/Fevereiro.

Não podemos permitir um plano habitacional paternalista dando tudo ao flagelado sem a mínima participação dele; aí o plano estará fadado ao fracasso, pois não foi aceito e assumido por eles.

Não podemos simplesmente doar terreno nem casa-embrião, senão estaremos fortalecendo o fluxo migratório de toda a região em busca de solução habitacional nas cidades maiores, e seria um caos em termos do desenvolvimento urbano do Estado.

O que se pretende é integrar os flagelados nas comunidades, dando a eles oportunidade de produzirem e se integrarem nesta mesma comunidade.

O problema habitacional não pode ser isolado do contexto da problemática urbana. Não basta dar casa própria se ao morador desta casa vai faltar água, luz, esgoto, transportes, meio de comunicação, saúde, educação, abastecimento satisfatório de alimentos e outros bens essenciais, além de recreação e oportunidade de trabalho.


PLANO HABITACIONAL DE EMERGÊNCIA


As últimas inundações ocorridas deixaram saldo de centenas de milhares de desabrigados em todo o Estado de Minas Gerais, particularmente em Teófilo Otoni, pólo regional dos Vales do Mucuri, Médio Jequitinhonha e São Mateus, captadora de migração dos flagelados da região em busca de melhores condições de vida. Na área de influência de Teófilo Otoni temos as cidades de Águas Formosas, Águas Vermelhas, Almenara, André Fernandes, Araçuaí, Atalaia Bandeira, Berilo, Campanário, Caraí, Comercinho, Coronel Murta, Felisburgo, Francisco Badaró, Frei Gaspar, Itaipé, Itambacuri, Itaobim, Itinga, Jacinto, Jequitinhonha, Joaima, Jordânia, Ladainha, Malacacheta, Medina, Nova Módica, Novo Cruzeiro, Curo Verde de Minas, Padre Paraíso, Pavão, Pedra Azul, Pescador, Pote, Rubim, Salto da Divisa, Santa Maria do Salto, Santo Antônio Jacinto, São José do Divino, Virgem da Lapa, etc.

Cerca de 2.000 flagelados vindos da região estão abrigados nos Galpões do Parque de Exposições na Pampulhinha em situação de miséria absoluta, isto é , sem casa para morar, sem comida, dinheiro ou trabalho. O planejamento de uma solução para problemas desta natureza depende fundamentalmente de ação comunitária do povo de Teófilo Otoni e ação cooperativista deles mesmos, isto é, o plano habitacional inclui não somente a urbanização da área do antigo Seminário da Vila Barreiros (Mitra Diocesana) mas fundamentalmente a criação de Cooperativa de ajuda mútua para construção dos embriões-sanitários (sala/quarto-cozinha/l .S. -2 cômodos) que serão aumentados posteriormente ainda no sistema mutirão, obedecendo â uma diretriz técnica (planta básica do PROFAC). O Conjunto Habitacional conta com cooperativa de materiais de construção que fornecerá aos cooperados para construir com suas famílias ou seus amigos o embrião-sanitário. Cabe â Prefeitura Municipal de Teófilo Otoni, através do Prefeito Wander Lister, a parte da infra-estrutura urbana do local (arruamentos, água, luz, esgoto) e a máquina de fazer tijolos de solo-cimento. Teremos de pensar, também, no sério problema de que deve-se criar alternativas de absorção da mão de obra ociosa (pessoal de origem rural sem ofício qualificado), implantando-se cooperativa de hortigranjeiros (em convênio com o BNCC - Secretaria de Agricultura), cooperativa de artesanato de madeira, couro, argila, etc. (em convênio com a Secretaria do Trabalho) e uma lavanderia coletiva para ocupação de mão de obra feminina, (PRODECOM).

Inicialmente propõe-se que a própria casa existente seja transformada em Centro Social Religioso da Comunidade em formação. Será local de reuniões, escola, culto e discussões dos problemas surgidos nesta nova comunidade teofilotonense.

Tudo isto significa uma idéia-base levada e discutida democraticamente com a comunidade dos flagelados, pois serão eles que definirão finalmente o melhor e mais importante. A participação deles tornará viável o plano, na medida em que se fizerem presentes com força de trabalho e definições necessárias.


PROFACIPROGRAMA DE FORMAÇÃO E ASSISTÊNCIA A COMUNIDADE


Criou-se o PROFAC T.O. para coordenar a ação comunitária na orientação da execução dos projetos do loteamento e execução das plantas das casas no sistema solo-cimento, além de ajudar com a venda de materiais de construção em condições especiais, assim como orientar os pré-moldados de cimento.

A Prefeitura Municipal, através de subvenções realiza a infra-estrutura urbana (trator para abrir ruas, topógrafo para realizar o levantamento topográfico, além do fornecimento de água, luz, esgoto, etc.). O projeto experimental mutirão que a PROFAC. T.O executa em Teófilo Otoni no Bairro Vila Barreiros, além de atender a 300 famílias flageladas destas últimas chuvas com renda mensal familiar de 0,5 a 2,0 salários mínimos regionais, permite a avaliação dos custos do processo e sua aplicação de maneira intensiva como solução para barateamento da construção de habitação popular.

O PLANO prevê um Conjunto Habitacional de 161 casas individuais em lotes de 200m2 (10x20) com 2 ruas de penetração de veículos dando acesso futuramente ao novo Conjunto Habitacional localizado a "posteriore". As outras ruas são vias de pedestres convergentes para o Centro Comunitário cuja largura é suficiente para, em casos de emergência, poder entrar ambulância, caminhões de mudança, carro funerário, etc.


PARTICIPAÇÃO COMUNITÁRIA

Quando o PROFAC T.O selecionou os flagelados que estão alojados no Parque de Exposições Agro-Pecuária da Pampulhinha em Teófilo Otoni para participarem do projeto experimental mutirão (ajuda mútua ou auto-ajuda), levou em conta que a grande maioria é proveniente do meio rural e que 40 por cento é constituído de mães solteiras cuja atividade é prostituta - lavadeira ou lavadeira-prostituta, com o número de dependentes variando de 4 a 7 e renda familiar entre 0,5 a 2,0 salários mínimos regionais.

Pesquisou-se na comunidade flagelada o tipo de habitação que ela morava e que tipo gostaria de ter, com desenhos elaborados por eles mesmos, constatando um baixíssimo nível de aspiração. Normalmente, moravam em barracos de 1 a 3 cômodos sempre com a fossa, e gostariam de morar em casa também de 3 cômodos com privada acessível por fora da casa (devido ao mau cheiro, moscas e falta de costume de usar vaso sanitário). Foi discutido e decidido por eles a sua participação no sistema mutirão de construção das casas em grupos de 10 famílias/10 casas e sua contribuição com o capital-trabalho que será contabilizado pelo PROFAC T.O.


MATERIAIS DE CONSTRUÇÃO

Em Minas um dos grandes problemas da construção de baixa renda é o preço do terreno B a qualidade do material de construção. A madeira é rara e cara, sendo substituída por aglomerados de chapa de madeira ou mesmo por concreto, pois cimento não falta em Minas (major Parque Cimenteiro do País). As paredes de alvenaria são normalmente feitas de tijolos de barro, por isso a demanda deste tipo será muito grande. Atualmente usa-se tijolos prensa¬dos de cimento (blocos de concreto) afim de economizar tempo e mão de obra, além de serem facilmente executados no próprio canteiro de obra.

A intenção do governo estadual em delegar ás grandes empresas construtoras a execução dos grandes núcleos habitacionais em Minas não é a solução, pois elas não estão preocupadas com o mutuário final, e sim com a lucratividade que toda empresa almeja. Assim, a grande firma de construção sub-empreita para a empresa média que sub-empreita para a pequena que sub-empreita para o mestre de obras e deste para os pedreiros., Porque não vamos então diretamente às pequenas empresas e mestres de obras que conjuntamente com os pedreiros façam casas populares com mão de obra e custos operacionais e administrativos mais baratos??.' Empregar-se-ia a semi-prefabricação como lajes pré-fabricadas, blocos de cimento pré-moldados, etc. que aceleram a construção das casas populares, barateando em parte seu custo final. Atualmente o custo da laje e tijolos semi-industrializados é alto devido ao preço dos transportes. Os custos atuais das COHAB'S e INOCCOP'S giram em torno de Cr$3.000,00/ m2 e Cr$3.800,00/m2 e no sistema mutirão (ajuda mútua ou auto-ajuda) baixa para Cr$800,00/m2.

O plano de placas de solo cimento moldadas na própria obra, além de proporcionar a participação de toda a família e conseqüentemente toda a comunidade, aproveita enormemente o material local mais disponível: a terra. A terra misturada ao cimento (solo-cimento) dando condições de barateamento do custo da construção de casas populares não é uma solução nova, embora nunca usada pelas grandes firmas. Mas o que se pretende realmente é buscar um modelo ou tipo de construção que não somente atenda, mas satisfaça a todas as necessidades de uma população carente e que também possa ser produzida em série.


TECNOLOGIA DE SOLO-CIMENTO

Como o processo de solo-cimento é muito simples, foram selecionados alguns pedreiros, carpinteiros, eletricistas, encanadores, serventes, etc. para executarem o serviço mais técnico, como pilares de concreto armado, alicerces, cinta de amarração, locação das casas, cobertura, parte elétrica e hidráulica, etc. O restante é jogar solo-cimento (pré-misturado) nas formas de madeira e depois socar bastante (apiloar) com soquetes ou pilão (trabalho realizado pelas mulheres, velhos, meninos e até mesmo crianças).

Além disto, houve um treinamento prévio com uma casa piloto que foi construída na obra para efeito de testes e análises. Acompanhamento e avaliação dos custos das obras estão sendo realizados pelo eng. Aventino Jorge Magalhães do PROFAC T.O, inclusive com documentários em Slides dos resultados obtidos em cada fase do programa. Levantamento do PROFAC T.O conclui que a prestação a ser paga pelos flagelados após conclusão dos imóveis será cerca de Cr$100,00 a Cr$200,00 (1/5 do salário-família) inferior ao mais baixo dos aluguéis por eles pagos atualmente. Há casos de flagelados que chegaram a pagar Cr$500,00/mensais por aluguel de um barraco de 3 cômodos ou simplesmente pagavam ao proprietário da terra o direito de construir seu barraco. (Cr$100.00/mensal até Cr$20,00/mês)

A preços atuais, cada uma das 300 unidades habitacionais que estão sendo construídas em Teófilo Otoni pelo processo de auto-ajuda (mutirão) com tecnologia de construção em solo-cimento ficará muito abaixo do custo final de m2, de padrão igual construída pelo processo convencional. Com o sistema mutirão e com tecnologia de solo-cimento (tijolos ou placas) estes sistemas de construção poderão constituir-se em um dos instrumentos mais eficazes de dinamização de habitação popular.

A partir dos resultados obtidos com o projeto experimental mutirão solo-cimento pretende-se estender a utilização deste processo a todas as áreas carentes de habitação popular no Estado.


DIREITO DE PROPRIEDADE

O terreno pertencia originalmente à Diocese de Teófilo Otoni. A proposta seria uma doação da Diocese à Associação Comunitária de base que, através da instituição do Direito Real da Habitação, garantiria o direito de morar aos flagelados construtores das casas. Cláusulas resolutivas seriam incluídas na doação, para garantir à Diocese que a finalidade do empreendimento seria cumprida e para garantir aos moradores o direito de permanecer na casa enquanto precisassem dela. Constatou-se em reunião com os flagelados que, com o direito de propriedade plena, elas seriam tentados a vender a casa na primeira e tentadora proposta em dinheiro que se apresentasse e voltariam a morar no antigo local onde o barraco ruiu com as chuvas, ficariam sujeitos a que nova tragédia se repetisse.

(Assessoria Jurídica de Hila Flávia M.Teodoro)


CONCLUSÃO


A solução de mutirão utilizando solo-cimento não é nova, mas com esta experiência -piloto de Teófilo Otoni, novas comunidades ganharão idênticas soluções, dando novas características urbanas ás cidades.

Mas temos consciência de que experiências como estas, isoladas, não serão suficientes para equacionar o grave problema da organização do espaço urbano nas nossas cidades


Lenha: A crise de energia do pobre.

Texto: Maurício Andrés
Ilustrações: Claudio Martins

>> acesse através das imagens na primeira página [aqui]


ALTERNATIVA PARA O APROVEITAMENTO INTEGRADO DO ESPAÇO NATURAL

MAURICIO ANDRÉS RIBEIRO, arquiteto

Como organizar o espaço de uma sociedade mais conservativo de energia? Esta é uma das grandes questões e desafios que a crise de energia coloca diante dos planejadores.
 
Alguns assentamentos humanos oferecem exemplos notáveis de como adequada organização do espaço pode evitar desperdícios de energia e contribuir â proteção do meio ambiente, explorando bem as possibilidades de complementação entre áreas urbanas e rurais.

As aldeias indianas têm sido consideradas como das mais eficientes. Sua estrutura básica, definida no passado, continua ainda muito semelhante. Compõe-se de um grupamento de casas circundado por terras agrícolas, de forma tal que as distâncias podem ser percorridas a pé ou em carros de boi. Evita-se, assim, o transporte mecânico e mesmo cavalos são considerados luxo, já que competem com a população humana pela terra existente para produzir alimentos. No que se refere á habitação, muitas de suas funções são desempenhadas ao ar livre, diminuindo o espaço construído; há uma relação simbiótica entre homem e gado, que é alimentado à tardinha, posto para dentro de pátios â noite, produzindo aí esterco que é recolhido pela manhã e utilizado como adubo nos campos.

Diversos aspectos ligados ao estilo de vida - desde hábitos alimentares vegetarianos, proteção â vaca, mobiliário reduzido das casas, até o uso intensivo do corpo, reduzindo a necessidade de objetos - têm também sua expressão espacial e contribuem para a eficiência das aldeias.


 
APROVEITAMENTO PREDATÓRIO

A terra no Brasil ainda não é bem muito escasso. Comparando, porém, com países mais densos e bem menores, ela vem sendo utilizada e comprometida de forma muito predatória. Tanto por parte do poder público quanto da iniciativa privada. Milhares de quilômetros quadrados de nosso território anualmente transformam-se em loteamentos, grande parte solo potencialmente agricultável. Perde-se riqueza incalculável, dificilmente recuperável, dada a pequena possibilidade de reversão do uso urbano para novamente campo.

Embora hoje seja mais proveitoso para o proprietário de terras no entorno das cidades, loteá-las que mantê-las com uso rural, impõe-se a longo prazo sua proteção para que se aproveite de forma socialmente mais desejável o potencial de riquezas que o solo oferece. Para se ter uma idéia dos prejuízos que um país sofre por falta de uma política adequada de uso do solo, pode-se mencionar o caso do Egito, onde estimativas mostram que a quantidade de terras tornadas agricultáveis pela construção da represa de Assua é muito menor do que a quantidade de terras agrícolas sacrificadas pelo crescimento desordenado do Cairo.
No Brasil, a conservação e proteção dos solos potencialmente agricultáveis existentes na periferia das áreas urbanas apresentaria, entre outras, vantagens de minimizar custos de transportes e combustível para abastecimento das cidades, preservar e proteger para as gerações futuras a riqueza contida no solo agricultável, contribuir para diminuir o consumo de fertilizantes, grande parte importados, contribuir para baixar o custo dos alimentos, todos estes efeitos com caráter nitidamente antiinflacionário.



Foto - Campos de arroz para auto-consumo em Kenchenkuppe, Índia, circundam o núcleo habitado da aldeia.
Junto ao Instituto Agronômico, no Horto, encontra-se um raro exemplo de terra agricultável dentro da cidade. Até quando ela resistirá às pressões para a ocupação urbana?
 

ESTUDOS EXISTENTES

Embora venham de longa data as utopias urbanísticas e os modelos que incorporam a perspectiva de integração rural e urbana - e podem-se citar as cidades jardim de E.Howard, ou as idéias de Frank Lloyd Wright - é muito recente esta preocupação no que se refere a organizar as áreas de descontinuidade e as zonas verdes dentro de regiões urbanas.

Na França, por exemplo, somente em 1973 apareceu, num texto oficial, a indicação da necessidade de uma ação coerente a respeito, Um trabalho técnico pioneiro sobre o assunto foi produzido para a região de Paris e as considerações ambientais aí introduzidas visam assegurar a produção agrícola, melhorar o quadro de vida rural, assegurar a gestão natural dos recursos biológicos e permitir a constituição de reservas naturais a longo prazo.

Afirma-se neste estudo que o futuro das zonas agrícolas peri-urbanas é precário, devido às pressões imobiliárias, e que a ausência de um estatuto jurídico próprio e a insuficiência de meios de ação sobre a estrutura fundiária, são os grandes impedimentos à formulação de política efetiva conservando aí a atividade agrícola.

Na região metropolitana de Belo Horizonte, a consciência da importância destes problemas já começa a se formular: veja-se como exemplo o editorial, "Terras Ociosas", do Estado de Minas em 27.04.79, chamando atenção para a necessidade de se tomarem medidas de estímulo e compensações no sentido de induzir os donos de terrenos à produção, proteger o consumidor e comercializar adequadamente os produtos.

O controle da expansão urbana seria apenas um primeiro passo para uso mais adequado dos recursos do solo, mas um passo fundamental, já que garante a proteção deste recurso. Um relatório do Plambel, "O Setor Primário na RMBH", de novembro de 1977, afirma que a ocupação desordenada do solo absorve a terra rural com prejuízos para as atividades do setor primário, sem condições de concorrer de forma eficaz com as atividades urbanas.

A unidade de venda de terras urbanas é o m2, ao passo que para terras rurais é o hectare ou alqueire, e o diferencial de preços entre elas é muito grande. O relatório afirma ainda encontrarem-se "em fase de maturação ações com a finalidade de intervir preventivamente na utilização do solo rural da região", visando dinamizar o setor primário para aumentar a sua participação no abastecimento da região e constituir-se num dos mecanismos de controle do processo de expansão urbana, chegando a sugerir criação de gado leiteiro, olericultura, fruticultura e criação de pequenos animais, além de reflorestamento.


SUGESTÕES PARA PROTEÇÃO

Em Minas Gerais não é apenas na região metropolitana de Belo Horizonte que o problema se apresenta, mas também nas periferias de todas as cidades de porte médio e grande. Políticas para o bom uso e proteção dos solos em áreas peri-urbanas seriam adequadas se formuladas á nível estadual, e pode-se aventar algumas hipóteses de como concretizar estas políticas.

Primeiro não teria sentido reservar para usos rurais um percentual das terras de cada município sem considerar o seu potencial de uso. Interessaria proteger aqueles solos mais próprios para a agricultura, com fertilidade, disponibilidade de água e oxigênio, pouca suscetibilidade à erosão e facilidade de mecanização.

Desta forma, a interpretação dos levantamentos de solos agrícolas seria um critério básico para protegê-los. Um sistema para avaliar-se a aptidão agrícola das terras foi proposto em 1978 pela Embrapa- Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária - e nele se definem 6 grupos e as conseqüentes alternativas de uso conforme quadro em anexo.

Proteger as áreas aptas para lavoura, de forma diferenciada, através de restrições ao seu parcelamento, medidas tributárias, estímulos ou incentivos à sua utilização agrícola, podem ser convenientes se considera a perspectiva ao longo prazo de conservação de energia, auto-suficiência e utilização dos recursos locais.

A implementação destas medidas de proteção depende inicialmente, da classificação dos solos. Como um levantamento sistemático do potencial agrícola das terras é muito caro e, por isso, fora do alcance da maioria das prefeituras, uma possibilidade seria a instituição de sistema adequado de licenciamento para cada caso.

Este sistema incluiria pareceres técnicos sobre a aptidão de terras, indicando as condições para se aprovar ou não o parcelamento urbano de glebas. Tal parecer poderia ser elaborado por técnico credenciado, da Epamig, por exemplo. Legislação estadual básica e coordenação das várias instituições a serem envolvidas neste processo de licenciamento - órgãos de planejamento urbano, prefeitura, secretarias de agricultura, agência de proteção ambiental - seriam alguns pré-requisitos para se formular e montar este sistema de proteção, cujos resultados seriam altamente positivos e benéficos para a coletividade.



ARQUITETURA EMERGENTE

Este mês os emergentes estão submersos nas trevas das provas, trabalhos práticos, exames finais, especiais, um típico fim de semestre universitário. Conhecemos também o sufoco desse mar de angústia e compreendemos o sumiço deles, mas navegar é preciso, e como estímulo, publicaremos aqui o discurso do Prof. Rodrigo de Andrade Ferreira, paraninfando os arquitetos de 78.

Pode parecer estranho que eu esteja escrevendo esta carta quando o vosso barco ainda nem desatracou.

Acontece que me sinto, como uma árvore pequena, carregado de emoção e perplexidade, frutos maiores do que consigo carregar sem esta inofensiva fantasia. O primeiro vem de ter esta homenagem me pego o coração desprevenido, o segundo, da imensa responsabilidade de dizer coisas que possam ter alguma serventia na tessitura do roteiro de viagem.

Nos embarques de verdade, repetimos múltiplos recados de última hora, para que permaneçam colados na lembrança de quem vai, por terem sido ditos em situação de limite. Aqui também, não havendo grandes revelações a fazer, tentemos tirar partido dessa condição. Não quero apenas espargir sobre a festa, palavras que a enfeitem da mesma forma efêmera que tiras de papel colorido. Pelo contrário, gostaria de lhes dizer algo que tivesse algum parentesco com instrumento de navegação, com ferramenta de trabalho, com arma ou na pior das hipóteses, com um espinho que fira se a botina estiver muito larga e a sombra fresca.

Antes, portanto do regozijo de um dever apenas cumprido, á bom lembrar que essa nave se parece bastante a uma galeria, com o bojo denso de operários que a fazem e os mais sombrios repartimentos ainda entulhados de todos os tipos de marginais, inclusive os que formam o coro dos descontentes.

É duro talvez o ruído destas palavras, mas não pretendo que seja amargo e muito menos desesperançoso.

Apenas não tenho porque assumir agora atitude magistral, indicando rotas mais seguras ou perigos a evitar, se tenho nítida a noção de que é exatamente a consciência das mesmas dúvidas que nos tornou o diálogo tão irmão. Os problemas a enfrentar são os mesmos que oprimem a todos, sejam novos arquitetos, experientes metalúrgicos ou antigos cidadãos.

Não há nem segredos, nem regras a ensinar, salvo que é proibido adormecer ou deixar que as coisas aconteçam sem assumir a cidadania integral, que a consciência de uma forma ou de outra sempre nos propõe.

SER CONTRA OU A FAVOR
Daí quero dizer com isso que enquanto arrumaram malas, durante este 5 anos, estiveram sem pensar.

Mas o ARBÍTRIO destes últimos tempos nos deixou muito poucas opções: entre a apatia de uma universidade subjugada e a repressão violenta; entre a censura dos meios de comunicação e a euforia acrílica dos programas de TV; entre os altos índices de um desenvolvimento fictício e o fictício desenvolvimento dos índices salariais. Depois de tanto tempo de silêncio é normal que tenhamos a bagagem contaminada. Se o tempo começa abrir, todavia, é sempre possível se aliviar do excesso de peso, substituindo o volume oco por pedras de maior consistência. Haverá, por exemplo, outras oportunidades de discutir sobre a carência de métodos em atual arquitetura, sobre ser uma profissão de formação muito pouco teórica em detrimento de uma prática quase inexistente, sobre ser muito mais fundada em valores de época que em bases científicas. Mas isso não é fundamental agora.

Não tem sentido discutirmos a arquitetura em si, o urbanismo em si, o arquiteto em si. Sob este aspecto, custa-me admitir, nós hoje ficamos prontos.

Mas prontos, custa-me mais ainda, com as qualidades e deficiências que a sociedade atual tem condições e desejo de consumir. Consumir em sentido lato, começando pelo traço, passando pelo braço, pelo baço, chegando à RAZÃO.

Não é ato a que se busca, cada vez mais, preparar o técnico neutro para a resposta ao problema específico e não a pessoa capaz de refletir sobre as questões amplas envolvendo espaço e sociedade.

Não é ato a que todos os caminhos estão institucionalizados para a proteção corporativista do mercado de trabalho existente, mas nos impedem, e a todos os demais profissionais, de pensar a política como responsabilidade também nossa. O fundamental é agora estar atento para compreender a situação e o tempo presentes e a nossa posição com relação a eles. Tempos, por assim dizer, que acordar de duas noites dormidas simultaneamente: uma geral, que obscureceu o país há mais de quinze anos, não nos deixando perceber que fazemos parte de uma sociedade doente, a outra que afeta mais ao arquiteto, que de tanto trabalhar a forma dos objetos, a forma das casas, a forma das cidades acaba quase por acreditar, que através de alterá-las, possa corrigir as patologias das estruturas sócio políticas que as determinam.

é preciso acordar dos pesadelos,,de sermos alheios e humildes cidadãos de segunda classe, de sermos uma categoria profissional que se externa a trabalhar apenas a aparência dos objetos, que vê sua audiência sempre restrita e sua autoridade posta em dúvida.

É preciso acordar da confortável ILUSÂO de podermos ser ao mesmo tempo PROFISSIONAIS CORRETOS e CIDADÃOS INCONSCIENTES. Acima de tudo é preciso estar disposto a trocar sempre a certeza da mão por dúvidas voando. Me dêem a certeza de que a Universidade é uma instituição produtora de conhecimento e eu lhes devolvo a dúvida de que é muito mais a reprodutora da ideologia oficial. Me dêem a certeza de que a técnica é neutra e eu duvido se não está a serviço do capital em sua tarefa de consolidar a dominação social. Me dêem a certeza de que todos os problemas sociais são "desajustes" inevitáveis do desenvolvimento e eu lhes devolvo a dúvida de . que toda crítica contenha apenas subversão e ideologias estrangeiras.

Me dêem a certeza de excelentes planos urbanos e eu lhes devolvo o duvidoso futuro das cidades acorrentadas à propriedade privada. Me dêem a certeza de que o projeto é um trabalho de síntese e eu duvido que esta síntese seja possível antes da análise e crítica profundas dos fatores envolvidos. Me dêem a certeza de que os principais obstáculos ao desempenho da profissão são conseqüência das imperfeições da sociedade e eu lhes devolvo    a dúvida de que algo essencial possa mudar sem que câmbios de natureza estrutural sejam obtidos antes. Me dêem a certeza de realizações do BNH e eu duvido que seu objetivo principal não seja a dinamização da indústria da construção, o comprometimento do mutuário, a redução de sua mobilidade e poder de barganha. Me dêem a certeza da qualidade da arquitetura atual e eu lhes contesto com a dúvida de que se é desta arquitetura que a sociedade necessita. O novelo poderia ser enorme, mas já há fio suficiente com que tecer velas de viajar. A essência do recado está dada : é estar ATENTO E FORTE. Sobretudo não se deixar abater desânimo pela distância muita a percorrer. Fazer o que puder, que de todo modo a HISTÓRIA nunca vai estar pronta. Caras e Caras Corações e mentes.

Por mais procura que fizesse, não consegui descobrir outro segredo que valesse mais à pena, nesta data densa de sentidos. Nenhuma mágica a tirar do bolso. Nenhuma carta da manga. Nenhum coelho, nem cartola tenho. Há mais de 10 anos, em ocasião semelhante, perguntava a meus amigos se deveríamos dizer palavras de fim ou de princípio. Hoje estou convencido de que o que começa é sempre muito mais importante do que o que fica incorporado ao território da memória. Além disso os finais não exigem palavras.Mesmo d adeus mais corriqueiro pode ficar patético.

Para os amigos a porta fica apenas recostada. Mandem notícias e recebam beijos do amigo Rodrigo

ESCOLA DE ARQUITETURA DA UFMG 9 DE MARÇO DE 79


PANORAMA

GERAL

Agradecimentos - Informador das Construções, IAB-MG e VÃO LIVRE agradecem àqueles que colaboraram com a festa de lançamento de VÂO LIVRE : Cia. Alterosa de Cervejas, Bar e Restaurante Panorama, Banda de Cachoeira do Campo, Cabo Júlio, Antônio, Paulo e Alcebíades.

Vão Livre


Próximo número - Devido às férias e a dificuldade de contato nesse período, estaremos aliviando o número dois para matéria mais visual no tema central, que versará sobre a arquitetura do abastecimento. Já contamos com os três mercados distritais de BH, e aguardamos contribuição dos colegas que queiram enriquecer o assunto. Pedimos plantas, cortes e demais desenhos que permitam redução em traço ou retícula, fotos em papel brilhante, além das justificativas e proposta para o problema.

Vão Livre

IAB no Espírito Santo - O VÃO LIVRE deseja manter entendimentos com os colegas deste estado para divulgar trabalhos, idéias e propostas. Esperamos com isto manter maior contato e comunicação entre a classe.

Vão Livre

Aos colegas - Vão Livre não é, repetimos, o trabalho de uma minoria no IAB. A prova disso é esse número um já resultado de contribuições de novos colaboradores. Vocês, que tanto tempo ficaram calados, não acreditamos nada terem a dizer. Colaborem,  enviem cartas, critiquem os números já publicados, ajudem os que estão aqui pegando no duro todo mês a não perder fôlego e ritmo.

Vão Livre


Vade retro, Adolpho
- A Construtora Adolpho Lindemberg entrou com o pedido de concordata, no dia 29/6/79, na 219 Vara Cível.

Álvaro Hardy



LOCAL

Exposição no Palácio das Artes
- De 12 de julho a 7 de agosto acontecerá em BH o VII Salão Global cujo tema será uma amostragem da arte mineira. Haverá três salas:

1- Mestres Barrocos, com obras autênticas de Aleijadinho, Ataíde e outros.
2- Premiados dos Salões Anteriores
3- Artistas convidados: Maria Helena Andrés, Sara A'Villa, Lotus Lobo, Roberto Gil, Paulo Laender.

Na foto escultura de Paulo Laender.

Escultura Paulo Laender
Vão Livre


Patrimônio

Um mau exemplo - O deplorável exemplo que a cidade de Bocaiúva acaba de dar, demolindo um monumento religioso do período colonial é de fazer estarrecer até mesmo as pessoas afastadas de qualquer preocupação direta com os assuntos de Patrimônio Histórico e Artístico.

O fato de a população envolvida descarregar seu descontentamento nos órgãos federal e estadual responsáveis pela conservação do patrimônio, acusando-os de total desinteresse não justifica nem pode explicar o que ocorreu.

Era hora de o povo ferido juntar-se em um só esforço e levantar seus próprios recursos para a completa restauração do imóvel.

Por que só os Patrimônios Federal e Estadual é que 1 teriam que assumir o trabalho? Por que não a própria paróquia e a diocese? Onde está a comunidade que agora grita pelo precioso bem perdido?

E a nova igreja que está sendo erguida no local da demolida? Os recursos para sua construção não estariam melhor aplicados na restauração do templo antigo?

Minas Gerais é o Estado brasileiro que mais bens culturais ou bens de patrimônio histórico e artístico possui. Nós temos pelo menos 15 cidades históricas e milhares de monumentos a serem preservados. Já não é tempo de uma conscientização maior de todas as populações envolvidas de que preservação é o imperativo de todas as comunidades onde se localizam os bens e não uma simples obrigação legal de órgãos oficiais?

Eduardo Roberto Tagliaferri
 

GERAL    

Manifesto do Rio Negro - Da recente apresentação do Manifesto do Rio Negro apresentado em 3/7/79 em São Paulo, 4/7/79 em Brasília e 5/7/79 no Rio, vale apenas transcrever dois tópicos:

"A natureza para o homem de cidade é reduzida à atrofia de um jardim botânica". Sepp Baendereck.

“Trata-se de lutar muito mais contra a poluição subjetiva que contra a poluição objetiva, a poluição dos sentidos e do cérebro, muito mais que a do ar ou a água”. Pierre Restany.

Éolo Maia


LOCAL


GAF I - Gomes de Almeida, Fernandes, consociado com uma empresa do grupo ao qual pertence a FIAT, incorpora edifício de salas na Av. Afonso Pena esquina com Guajajaras. O projeto arquitetônico original, autoria de Álvaro Hardy, foi encomendado em 1976 por grupo mineiro que, desistindo de participar do empreendimento abriu lugar à entrada na Praça da Gomes de Almeida Fernandes (GAF), fato ocorrido no primeiro semestre de 1979. Pode-se prever de antemão, o tremendo quebra-lanças em que se envolverá o arquiteto em defesa do seu projeto original.

Ronaldo Masotti


GAF 11
- "É preciso exorcizar o mito do mato", é opinião de Carlos Moacyr Gomes de Almeida (reportagem POR ONDE ELES PASSAM . . . NÃO NASCE GRAMA, revista Homem, no. 28, novembro de 1977, Prêmio Nacional de Jornalismo em 1978) Alerta geral na cidade : que se cuidem Parque Municipal, adros de igrejas. Mata do Jambreiro, etc. . . .

Ronaldo Masotti


 
Esporte Clube Ginástico
- Aviso aos passantes: o projeto do ginásio coberto, ora em execução na Av. Afonso Pena não obedece ao projeto original de minha autoria.

Álvaro Hardy

Boca maldita - Panorama é o nosso "speakers corner", nossa boca maldita. Aqui publicamos sua opinião, sua denúncia, sua sugestão, sua posição, sua curtição e também (por que não?) a sua burrice. Contribua da forma que lhe aprouver.

Vão Livre

Gorduras - Abaixo, foto de um feliz morador das gorduras, saltitando de felicidade depois de receber a sua moradia.

"Lay-out", Éolo Maia.

 

ARTES     

Entrevista - No próximo número, VÂO LIVRE publicará uma ampla entrevista com o escultor Amílcar de Castro sobre a sua obra. Coincidirá com a inauguração da Bienal Internacional de São Paulo onde este escultor possui sala especial. Serão publicados diversos pensamentos e trabalhos deste artista, principalmente os últimos executados em Ouro Branco.

Éolo Maia

escultura
Escultura "O Passo". Foto de A. Faria


LOCAL

Memória de BH
- Vão Livre está interessado em reunir documentação fotográfica de Belo Horizonte, de sua fundação à década dos 50. Quem puder ceder, ou emprestar para copiarmos, já agradecemos antecipadamente.

Vão Livre


Catálogo
- A Açominas lançou o catálogo "Edifício de Andares Múltiplos para arquitetos. engenheiros e estudantes. Este catálogo, o primeiro de uma série, é destinado â difusão do uso da estrutura metálica no Brasil, com a utilização de perfis laminados.
Os interessados devem se dirigir â Av. Getúlio Vargas, 1420, 6o. andar, em BH Aproveite gente, que é de graça.

Vão Livre

A hora e a vez da "jóia brasileira" - "O Brasil embora seja um dos maiores, senão o maior produtor de pedras preciosas coradas do mundo, até hoje não conseguiu formar uma tradição no mercado internacional.

Existe, pois necessidade de informar àqueles que desconhecem as peculiaridades, problemas e dificuldades no setor, para que se programe uma regulamentação e organização do mercado de nossas pedras preciosas.

As pedras brasileiras até hoje têm representado lucro de alguns em detrimento de muitos e em prejuízo da nação. O setor regulamentado e organizado daria um atendimento social com a formação de técnicos e operários especializados para um mercado que inclui entre outras categorias profissionais: geólogos mineradores, garimpeiros, gemólogos, avaliadores, lapidários, pedristas, cravadores, ourives, gravadores, desenhistas, joalheiros, etc.; daria, também, uma garantia de investimento e atendimento não só à mineração e garimpo como às indústrias de lapidação, bijuteria e joalheria".

Jorge N. Trindade, Est. de Minas 9/7/79 Para atender a tal demanda profissional somente a criação de uma escola ampla e seria. Onde artistas, artesãos, desenhistas e conhecedores em pedra e jóia nacionais trabalhassem com base em nossas tradições e sincretismos.na criação da "jóia brasileira" que, cremos, será tão autêntica, bela e original na sua expressão quanto surpreendente no seu valor.

Paulo Laender


NACIONAL


Tributo a Stanislaw Ponta Prata
- Cada vez mais prolífico o Febeapá. No Programa Abertura de 9/07, o Sr. Marco Carneiro, presidente da Associação Nacional de Fabricantes de Veículos Automotores (, declarou que o rodoviário é o nosso transporte ideal , e mais, apoiando-se nas imensas dimensões de nosso país e sem desconsiderar a crise do petróleo . . .) É claro, não se acredita que pessoa ocupando cargo tão importante na economia e na política acredite nessa burrice. Afinal, foi na TV, e o que se viu foi um artista representando o sorridente onisciente, que deveria exigir seu cachê não só da NPI, mas também dos demais patrocinadores, como Shell, Ford, DER, etc. A Cesaro que é de Cesar, adeus ao que é de Deus . . .

José E. Ferolla


Espaço Cultural
- A Prefeitura de Curitiba, através de sua Fundação Cultural e contando com amplo apoio da Comunidade, bancos e empresas, vem de assumir a recuperação do edifício onde, durante 40 anos, funcionou a Confeitaria Schaffer. Tradicional ponto de encontro e lazer da comunidade, a Confeitaria e o prédio praticamente desapareceram em outubro do ano passado, consumidos pelo fogo. A idéia de restaurar esse marco do espaço cultural partiu de arquitetos locais, com proposta que vai além da destinação original do edifício: a Schaffer, lojas e escritórios. Assim, além da Confeitaria, uma ocupação marcadamente cultural: café-concerto, galeria de arte e locais para venda de livros, peças de artesanato, discos, "posters". A inauguração será no ano em curso.

Em Belo Horizonte, carece de fundamento a notícia de que o Poder Público promoverá a restauração da Serra do Curral, talvez a única serra em todo o mundo que tem a primeira metade tombada pelo Patrimônio Histórico e a outra literalmente tombada por interesses não tanto históricos.

Ronaldo Masotti

LOCAL

Entornando o caldo
- Bem recebida pela população o "pool" das empresas fornecedoras de concreto misturado, objetivando o aproveitamento do material excedente para auxiliar a Prefeitura na dinamização da OPERAÇÃO TAPA-BURACOS. Ocorre, entretanto, que os motoristas, talvez por falta de prática, não têm conseguido acertar os buracos e o lançamento da mistura é feito diretamente sobre as pistas de rolamento. Apesar do mérito da campanha, o problema vem se agravando na medida em que se acentua o aparecimento de saliências de concreto lado a lado com crateras. Seria mais profícuo e também iniciativa de amplo alcance social as empresas contratarem operários não especializados, com a missão de seguir os caminhões fornecedores e "varrer" o concreto entornado para os buracos.

Ronaldo Masotti



Engenho Nogueira x Catalão
- O trevo construído em frente à nova sede da USIMINAS, por falta de complementação do projeto (faixas de segurança, placas direcionais, semáforos, etc. . . .) tem provocado inúmeros acidentes, só não causando ainda vítimas fatais. Quem é o responsável pela conclusão? A Prefeitura, o DETRAN, o Estado, o País, ou os motoristas e pedestres que se arriscam por ali? Quem acertar, erra.

Álvaro Hardy


Coordenação de Pesquisa
- A coordenação de pesquisa de Vão Livre está recebendo, para publicação na revista, artigos sobre pesquisas em andamento relacionadas com assuntos de interesse para os arquitetos. Incluem-se aí pesquisas tecnológicas, de processos e materiais, propostas de pesquisas de interesse, projetos utópicos ou conceituais; propostas de aproveitamento de áreas ociosas ou edificações com uso obsoleto; pesquisas de caráter histórico. Projetos antigos. Aceitam-se propostas e projetos em todas as áreas - design, urbanismo, meio ambiente, programação visual, decoração, arquitetura, técnicas e processos construtivos, etc. que tenham vinculações com o tema - homem, arquitetura, meio ambiente.

Vão Livre


Ex. Jardim Bueno Brandão
- Quem sabe onde está o antigo Jardim, construído em estrutura metálica, doado pelo rei da Bélgica, em 1914, demolido por volta de 1 964 para dar lugar ao atual?

Álvaro Hardy


LOCAL


Poluição junto ao Shopping Center - os moradores do bairro Novo Sion - Santa Lúcia, que se situa na confluência da Av. Raja Gabaglia com o trevo de Nova Lima, em frente ao Shopping Center, entraram na justiça com uma ação de defesa do meio ambiente contra a presença poluidora de uma usina de asfalto que ali mantém a Gama Construtora. Ao que se propala a família Guimarães, proprietária dos terrenos, estaria, também, acionando a mesma organização por ocupação não autorizada, vale dizer, por invasão de seus terrenos. Mas lá está a usina fumegando e poluindo, ás vezes noite e dia e até aos domingos - contra o que estatue a Lei | de Uso do Solo, contra o que preceituam o Plambel e a Prefeitura, contra a Justiça e a Propriedade e, o que é o mais grave em tudo isso - contra a saúde de todo um bairro.
 
Desenho Éolo Maia

NACIONAL

Energia I - O tema "Energia" terá papel importante nas questões de arquitetura e urbanismo ora em diante, podendo ser abordado de várias formas: conservação de energia em edificações ou cidades existentes, criação de novos projetos conservativos de energia, produção e exploração de fontes renováveis pelo balanço energético de uma edificação ou cidade, É um assunto complexo: um balanço energético, por exemplo, inclui a energia despendida desde a extração da matéria prima, seu transporte e transformação, produção e transporte dos materiais de construção, construção propriamente dita e sua operação, manutenção e demolição. Um currículo e um programa escolar atualizados que incluíssem prioritariamente este tema permitindo, desde sua formação básica, que arquitetos e urbanistas se familiarizassem e projetassem considerando os aspectos energéticos de suas criações. Isto se aplica tanto â atividade de projetar, quanto à legislação urbana planos de uso do solo e códigos de obras, que muito se enriqueceriam ao incorporar esse aspecto entre suas considerações prioritárias.

Maurício Andrés


Energia II
- Um aspecto para o qual Vão Livre deverá dedicar atenção permanente é o da relação entre a atividade criadora do arquiteto e o problema atual da energia. Sabe-se que a melhoria dos desenhos de habitações, o uso adequado dos materiais e da orientação dos prédios e outros recursos arquitetônicos podem reduzir substancialmente o consumo de energia de uma edificação. Assim também no zoneamento de uso do solo, no código de obras, no desenho do sistema urbano e na sua integração com o espaço rural residem formas eficazes de se conceber projetos urbanos conservativos de energia, autônomos, reduzindo as necessidades supérfluas de transportes, fazendo uso do potencial de recursos naturais locais, aproveitando os rejeitos e outras fontes de energia hoje mal aproveitadas,
Um debate constante sobre o assunto inicia-se já neste número, onde algumas das matérias procuram tratar dele, e de suas implicações sobre o uso do espaço e do território.) A intenção destes trabalhos preliminares é colocar em foco e em pauta um assunto no qual os arquitetos designers, e urbanistas poderão oferecer contribuições inestimáveis para a sociedade

Maurício Andrés



LOCAL

Política Cultural - A comissão de cultura que vem se manifestando e reivindicando por uma estratégia cultural para o estado e a municipalidade, acaba de redigir em conjunto )com a coordenadoria de cultura, um roteiro cultural para Minas Gerais. Tal roteiro, que será entregue brevemente ao governador, abrange as áreas de cinema, artes-plásticas, dança, música, teatro e literatura, servindo assim como subsídio base para a implantação de uma política cultural. Em tempo : enquanto em 1978 o estado de São Paulo destinou Cr$380.000,00 à cultura , Rio de Janeiro Cr$250.000,00, Minas Gerais reconhecidamente grande celeiro cultural do Brasil, apenas Cr$80.000,00. A comparação diz tudo.

Paulo Laender


LOCAL   

Buraco Verde - Enquanto isto com a grande campanha desenvolvida pela imprensa e parte da opinião pública em favor da preservação de áreas verdes em novos loteamentos e planejamentos urbanos, á primeira vista parece que os objetivos vão sendo alcançados.
Os menos desavisados, quando vem uma planta de um loteamento ou de alguns pretensos planejamentos, ficam felizes ao lerem "área verde" ou "de lazer". Mas como diz o Mestre: "ledo engano". As "áreas verdes" ou "de lazer" não passam, na maioria das vezes de tremendas grotas onde a especulação não vê conveniente em investir. Além do mais, estes buracos são de difícil conservação para o poder municipal tornando-se um local sem atrativos e impossibilidade de utilização a não ser para : vôo livre, pára-quedismo e alpinismo. Com a palavra o Planbel.

Éolo Maia



Explosão Metropolitana - É significativo o fato de que municípios vizinhos a região metropolitana de Belo Horizonte) como Mateus Leme e Igarapé, estejam sendo intensamente loteados, devido em parte ás restrições de parcelamento impostas pela lei de uso do solo na região metropolitana. Estima-se que somente em Igarapé existam mais de 30.000 lotes populares, e tanto este município como Mateus Leme dispõem de terras agrícolas que estão sendo comprometidas. O resultado deste processo pode ser prejudicial para a região de Belo Horizonte, onerando o sistema viário, o sistema de transportes, prejudicando a qualidade de vida da população. Maneiras de corrigir estas distorções existem, e caberia aos planejadores formulá-las e discuti-las.

Mauricio Andrés

Materiais/Equipamentos da Construção - Vão Livre está interessado em publicar matérias divulgativas dos materiais de construção disponíveis no mercado de BH, reunindo-os em grupos que cobririam uma obra de sua locação ao acabamento final. O objetivo é principalmente didático, como apoio aos calouros da Escola de Arquitetura.
E nesse sentido interessa-nos a descrição, dimensões e usos de cada produto, com ilustrações para maior clareza. Empresas interessadas contatar com Ferolla: 226-1525.

Vão Livre
 
 

Revista Vão Livre No.0

Vão Livre No.0

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EDITORIAL

Vão Livre nasce da ânsia em romper quase duas décadas de isolamento. Começou com uma proposta do colega Éolo Maia que vingou pelo apoio do Instituto de Arquitetos do Brasil - MG e do Informador das Construções. É um suplemento mensal que pretende comunicar reflexões, trabalhos e dúvidas não só aos diretamente ligados ao desenho do espaço para as comunidades, instituições ou pessoas, mas também dos que, a despeito da demanda atual, ainda se preocupam com o destino das sociedades e seus assentamentos.

A ausência tão prolongada requer novo treino em informar e dialogar - a experiência irá delinear um modelo editorial capaz de tornar Vão Livre mais do que um nome, mas uma possibilidade real de maior abertura.

Este primeiro número é na verdade um reencontro de gerações, colegas e amigos que, juntos, decidiram homenagear, em tema central, o professor e arquiteto que foi Sylvio de Vasconcellos.

Entretanto, é Ronaldo Masotti Gontijo quem propõe a retomada dos discursos, a partir da análise de possíveis rimas para arquitetura - fechadura, ditadura ou abertura - num convite à poesia há tanto sufocada, mas que se manifesta como alarma para o maior drama ecológico de Belo Horizonte, a destruição de sua memória natural. O ensaio tapume e a contribuição dos futuros arquitetos, inaugura assim, uma seção fixa para a arquitetura emergente.

Vão Livre se definirá a cada número, a partir da formação da equipe responsável pelo tema central, que estará sempre aberta a novas adesões, evitando-se tornar o suplemento porta-voz de panelinhas, se revezando na exibição de seus produtos. Para isso, é fundamental o maior número possível de participações e contribuições dos interessados em lançar novas idéias, divulgar trabalhos e retomar a discussão de assuntos já publicados.

A equipe editorial atual procura se reunir todas as terças, às vinte e trinta horas, na sede do Informador. Apareçam, Vão Livre propõe participação e é grande a responsabilidade do cidadão arquiteto na construção da comunidade consciente, capaz de decidir, por si e para si, o melhor para o país, a cidade, o bairro, a casa.

A equipe.




Arquiteto: RONALDO MASOTTI GONTIJO
Ilustrações: Sylvio Emrich de Podestá


(O vocábulo em epígrafe não se limita à Arquitetura entendida em sua conceituação clássica, mas pretende ir além ao propor uma fusão, tão em moda, das palavras arquitetura e abertura. O texto que vem a seguir busca um enfoque panorâmico da Arquitetura num período de 15 anos, visto a partir do instante em que portas e janelas vão se abrindo, sem, entretanto, descer aos porões...).

Em tempo de abertura, quando por pequenas frestas podem ser vistos os estrebuches e ouvidos claramente os ecos remanescentes do arbítrio, seria injusto e altamente impatriótico atribuir ao sistema implantado desde 1964 um plano sistemático para cercear a liberdade de criação arquitetônica. Assim, devem ser entendidas como carentes de fundamento as notícias de bastidores que pretendem atribuir aos honrados chefes militares e sequazes civis a promoção de uma solerte campanha contra a Arquitetura e seus profissionais. Quando nada, a nobre arte das edificações, juntamente com o samba e o futebol, ainda tem serventia no que se refere à promoção de campanhas ufanistas e à melhoria da imagem externa do país, embora em tempos mais amenos a Arquitetura tenha se libado de forma bem mais profícua à citada imagem. Cidadãos mais indóceis poderão lançar mão das declarações do Sr. Ueki, há alguns anos, quando o sorridente e então Ministro virou seu poder de fogo para o lado dos arquitetos e, sempre a sorrir, despejou chumbo grosso. É sabido que o Sr. Ueki obteve grande destaque, tornando-se mesmo uma figura popular, justamente pelo fato de a realidade brasileira concernente ao petróleo não ter correspondido às suas patrióticas e carnavalescas declarações à imprensa - a tão decantada auto-suficiência redundou nos contratos de risco. O Brasil, infelizmente, não integra a OPEP. Se em matéria afeta a sua competência e ao seu Ministério o Sr. Ueki tem se destacado por suas declarações precipitadas e impensadas - tolos foram aqueles que procuraram enxergar grandes lampejos ou, pelo menos, uma crítica sensata ao desempenho dos arquitetos pátrios. Talvez, pelo fato de sorrir ao fazer pontaria, o Sr. Ueki se viu compelido a apertar os olhos, prejudicando a mira e errando o alvo.

Tanto é, que fica difícil recordar se as perorações ministeriais foram objeto de contestação ou polêmica por parte dos profissionais em alvo. Argumenta-se que caso as questões formuladas tivessem sido proferidas há algumas décadas, 20 ou 30 anos, o assunto renderia bastante, com toda a classe dos arquitetos replicando e treplicando. É de se supor, assim, que as formulações arquiteturais do Sr. Ministro, como as demais, não foram levadas a sério, talvez julgadas inoportunas, ou sem fundamento, ou anacrônicas. Na época, a revista VEJA, sob forte censura, mas com a verve habitual, abordou de forma exemplar a questão. De tudo isto, pode-se concluir que as declarações do Sr. Ueki devem ser entendidas como declarações do Sr. Ueki e representaram uma voz isolada dentro do Governo, não se podendo culpar o Sistema pela intempestividade do Ministro, mesmo porque a máquina do poder tem meios e departamentos mais eficazes quando é necessário acionar medidas corretivas.

Quanto ao Sr. Ueki, louve-se o seu permanente bom humor.

Por outro lado, é sabido que o produto acabado da Arquitetura não apresenta, seja para o usuário, seja para o transeunte que simplesmente o observa, a menor carga ideológica. Arte eminentemente plástica, não figurativa, a Arquitetura, obra acabada, reflete o estilo do autor, quando muito, seu engajamento ou alienação frente à realidade e ao tema proposto, mas não carrega elementos de leitura que permitam identificar se o profissional é adepto desta ou daquela corrente ideológica. Apesar do BNH ou, talvez, por causa dele, a Arquitetura continua, infelizmente, a serviço das classes dirigentes e abastadas, jamais conseguindo atingir a coletividade. A grande massa da população continua sem a possibilidade de conviver com arquitetura, pelo menos sofrível, na medida em que o seu padrão de referência habitacional é o CÔMODO, entidade mágica e instituição genuinamente brasileira.


O CÔMODO


Embora seja uma realidade palpável, o cômodo pode ser definido, mas jamais entendido em sua verdadeira grandeza. Uma explicação rudimentar pode ser tentada, afirmando-se que é composto de quatro paredes levantadas segundo enorme variedade de materiais: tijolos, tábuas (ou taubas, no linguajar pitoresco dos comodistas), chapas de ferro, papelão e tecidos, entre os principais. Para os tetos, as telhas são o material mais usado. Não existem dimensões básicas padronizadas, variam segundo as disponibilidades financeiras. Janelas e aberturas se enquadram na categoria de opcionais.

O espaço interno é único, delimitado pelas paredes e teto, recebendo o epíteto de cômodo propriamente dito e serve de guarida ao marido, à mulher, aos filhos e a um ou outro parente, próximo ou não. Neste espaço único as famílias desenvolvem as atividades básicas: cocção, alimentação, lazer e repouso. As necessidades fisiológicas são normalmente obradas em barrancos ribeirinhos próximos. A atividade sexual, mais comum entre marido e mulher, deve ocorrer segundo a prática tradicional, largamente consagrada pelo uso, mas foge ao escopo do presente trabalho esclarecer aonde, como e com qual freqüência.

Deste modo, estando a Arquitetura limitada a atender às classes favorecidas e tendo a grande maioria da população a sua unidade habitacional específica, o cômodo, é fácil constatar que restou apenas aos arquitetos acompanhar os gloriosos tempos do milagre econômico. A injustiça de se imputar ao Sistema qualquer plano objetivando reprimir a livre expressão criadora dos arquitetos, torna-se mais evidente quando se verifica que a atividade profissional da classe não conflita com a Lei de Segurança Nacional e nem atenta contra a moral e os bons costumes. No auge do milagre a Arquitetura se locupletou em franco contraste com as outras artes. Música, literatura, teatro, cinema e, por extensão, a imprensa como órgão veiculador de idéias, em todos os seus meios de divulgação, foram objeto de contumaz e insidiosa censura, executada com tal requinte e falta de critérios pêlos órgãos de repressão que, em determinadas circunstâncias, pode-se mesmo admitir um paralelo com práticas normais em regimes de há muito sepultos.

 

A INCHAÇÃO DAS CIDADES
 
Ainda em tempos de milagre, o planejamento urbano foi solicitada à exaustão. O desenvolvimento a qualquer preço e o modelo concentrador agravaram a tendência, há muito constatada, relativa à inchação dos grandes centros urbanos. A falta de planejamento e critério por parte do poder público ao incentivar a concentração de grandes empreendimentos geradores de empregos junto aos centros já em vias de saturação, só fez acentuar o aumento das correntes migratórias da população rural, que por falta de condições de vida ao menos suportáveis em seus rincões de origem, agregam-se aos marginalizados da periferia das grandes cidades com o objetivo de simplesmente tentar sua integração na sociedade de consumo.

Por outro lado, um bom mercado de trabalho com a instalação dos grandes complexos industriais, comerciais, etc., e conseqüentemente projetos de novos bairros e grandes conjuntos de habitação coletiva incentivados pelo BNH. O Sistema facilitou, incentivou, financiou e em alguns casos arrependeu-se, presume-se, pois tantas foram as facilidades e tão farto o dinheiro público que os trambiqueiros, brasileiros ou não, não poderiam ficar à margem do processo.

O país cresceu, é inegável e o crescimento foi tão desordenado e os desatinos foram tantos a ponto de despertar já na nação ainda emergente uma consciência ecológica. A degradação da qualidade de vida das cidades, o desmatamento, a poluição das bacias hidrográficas, o aniquilamento da fauna e flora, são hoje denunciados pelo povo, entidades de classe, clero, profissionais liberais, autoridades isoladas. O despertar ecológico ajudou a população a reativar o processo de lutar com clamor democrático por seus direitos e o assunto, hoje, é freqüentemente objeto de estudos e debates em todos os setores da coletividade do país.

Curiosamente, esta posição manifesta-se com mais lucidez nas pequenas cidades do interior ameaçadas pela instalação de indústrias poluentes e onde processos tradicionalmente poluidores são acionados acima dos limites toleráveis.


OS DIAS NEGROS

Em todo este processo de expansão urbana e crescimento industrial o arquiteto sempre esteve presente, projetou modernos e funcionais conjuntos residenciais e complexos industriais primorosos. Individualmente, movimentou-se conforme o esquema traçado pelo Sistema, embora sem uma coonestação aberta ao poder econômico. Atuação pálida, uma vez que a formação do arquiteto lhe confere condições morais, técnicas e humanas para atuar mais decisivamente no sentido de se promover maior justiça social. Nos grandes centros, por exemplo, há que se ater ao fato de que, para cada cidadão que se instale razoavelmente com sua família em habitação servida por todo o equipamento urbano mínimo e indispensável, cerca de 3 a 4 famílias estarão habitando cômodos na periferia das cidades, destituídos das menores condições de conforto, higiene, segurança, etc. e com os respectivos chefes em situação de subemprego. O aumento da criminalidade, os assaltos, a violência, são conseqüências imediatas e acarretam nas classes média e alta a paranóia da segurança: vigilância particular armada, muros altos enclausurando as habitações, sistemas de  proteção eletrônicos, entre outros.

Ora, se a classe dos arquitetos participou ativamente do milagre é de se supor que tudo vai bem, no melhor dos mundos. Não se pode nem mesmo alegar-se vítima das insidiosas patrulhas ideológicas. Entretanto o modelo também se implantou segundo uma ótica maniqueísta - bastando lembrar o famoso "Ame-o ou deixe-o". Vale a pena repensar o período de trevas absolutas, implantado com o Al-5 em dezembro de 1968. Tome-se como referência a música popular brasileira e alguns de seus mais criativos compositores : Chico, Vandré, Caetano e Gil. Não cabe aqui qualquer análise sobre o valor artístico de cada um, nem um enfoque de suas posições. Importa antes a atividade criativa e reformuladora que eles então desenvolviam, empolgando as mais variadas correntes de opinião do país. Não deu outra: nossos prezados compositores foram forçados a procurar plagas mais amenas ou, em linguajar corriqueiro, cantar noutra freguesia.

A respeito, bolsões de contestação ao regime militar, sinceros, mas radicais, chegaram a afirmar que desde os tempos frenéticos dos festivais de música popular, os órgãos de segurança do Sistema passaram a considerar os compositores como elementos "nocivos ao bem estar comum". A explicação dos bolsões em apreço alega a favor o episódio que envolveu o controvertido compositor Sérgio Ricardo: inconformado com os apupos do público presente, num gesto tresloucado atirou seu violão sobre a platéia. O inofensivo e romântico instrumento passou então a ser visto pelo Sistema como arma de alta periculosidade e os cantores e compositores como elementos nocivos à segurança nacional. Tentam explicar assim os exílios forçados, uns mais breves, outros mais longos e sofridos, de nossos mais insignes compositores e trovadores.

Relativamente à Arquitetura é de bom alvitre lembrar a fúria repressora com que o Sistema atacou o renomado patrício Oscar Niemeyer.

Mas o prezado Oscar já era então cidadão do mundo, dotado de força moral suficiente para enfrentar a paranóia coletiva e injúrias contra si assacadas. Enquanto o regime, anacrônico desde o nascimento, apodrece e já exala odores fétidos, Niemeyer vai dando lições de vida e de democracia, lépido na juventude de seus 72 anos, trabalhando com o empenho de sempre.


OS BANIDOS E OS BIÔNICOS

Ainda naquilo que toca íntimo nos mineiros, emerge a figura do nunca suficientemente pranteado professor Sylvio de Vasconcellos, eminente mestre da mineiridade e da Arquitetura Brasileira. Escapa aos domínios da lógica o por quê de tanta perseguição e humilhação, a ponto de forçar-se um simples professor a amargo exílio voluntário, logo quem tão bem entendia e curtia as coisas de Minas.

O arbítrio atacou com fúria incontida em todas as frentes, não se limitando apenas aos cidadãos ligados às artes. Baniu-se, exilou-se, cassou-se e fez-se cair em degradação profissionais liberais, pensadores, educadores, literatos, operários, teatrólogos, cientistas e outros. A auto-suficiência e empáfia dos chefes militares e acólitos civis do regime levaram a população à expectativa de que dos laboratórios do poder emergissem criaturas superdotadas para substituir os cidadãos caídos em desgraça. A nação, ansiosa, continua aguardando, já que a alquimia do Sistema se contentou em forjar senadores biônicos. A coletividade não atinou com as vantagens das forjas palacianas e o sistema de feitura dos biônicos não conseguiu suplantar o velho e eficiente processo da consulta popular.


O AMASSAMENTO

Atuando no atacado com o Al-5, o Sistema não esqueceu o varejo e se fez presente nas universidades com o 477, instrumentos com tal poder repressivo que a lembrança do gênio diabólico do Dr. Sylvana não é gratuita quando se questiona a paternidade dos referidos em apreço. É tônica dos governos ditatoriais obstar debates e livre circulação de idéias assim, o meio universitário veio a pagar alto preço por ser constituído maciçamente de população jovem e dinâmica, sempre ávida de participação efetiva na vida nacional. O aparato repressivo ocupou as faculdades, às vezes até militarmente, incentivou os olheiros e o dedurismo com o objetivo de limitar ao máximo a atuação da classe estudantil frente à realidade da nação. São freqüentes as citações de reitores prepotentes e inábeis no trato com os jovens, e o corpo docente via de regra se manteve assustado e impotente frente ao estado de coisas. Sob a ameaça do 477, o estudante se manteve amedrontado e os diretórios acadêmicos encurralados, sem chances de organizarem congressos, seminários, enfim, qualquer atividade paralela à vida acadêmica. O Sistema jamais tolerou qualquer reunião de estudante fora do recinto das salas de aula. Não é demais afirmar que a vida universitária e a qualidade do ensino se degradaram, pois é difícil conciliar instrução de boa qualidade com regime que não admite discussões e ameaça intervir ante simples rumores de veiculação de idéias. O jovem hoje tem suas razões se porventura se mostra apático, desinteressado ou até alienado. Apesar de tudo e apesar também da Educação Moral e Cívica, a mocidade não decepcionará e continua a ser a grande esperança da nação. Se a vida estudantil se tornou amorfa, o dia a dia da coletividade foi sendo cercado por contornos insustentáveis. Os profissionais liberais, através dos órgãos de classe, constataram a impossibilidade da promoção de reuniões de caráter amplo, congressos e similares, onde se pudesse debater com liberdade as condições de atuação no contexto da realidade brasileira.

A fisionomia inflexível e repressiva acentuou-se passo a passo com uma censura quase medieval, imposta a ferre e fogo aos órgãos de informação. É o momento em que as falas ministeriais, quase sempre divorciadas da realidade, dão as diretrizes milagrosas e o Governo se locupleta de si mesmo, pavoneia-se, e inicia processo de autopromoção sem par nos anais pátrios. A nação extasiada e anestesiada a tudo assiste e a platéia, por vezes, aplaude e pede bis. Enquanto o povo cola aos ouvidos radinhos de pilha, as classes mais abastadas colam nos pára-brisas dísticos ufanistas, adereços e alegorias compatíveis com a ocasião. A época dos milagres, segundo os mais céticos, já passou e remonta aos tempos de Cristo.

Outros, não tão céticos, chegaram a acreditar no milagre. Referem-se, é claro, ao "Milagre dos Peixes", do sempre louvado Milton Nascimento, que também ficou pelo meio, uma vez que a censura vetou a quase totalidade, das letras apresentadas.

O modelo econômico cumpriu à risca as metas traçadas, isto é, piorou a já precária e injusta distribuição de renda e permitiu um significativo avanço das empresas multinacionais. A Transamazônica, segundo projeto original, ainda faz a ligação de lugar nenhum a nenhum lugar. A Ferrovia do Aço, como toda obra executada sem planejamento, mal começada já está sujeita a grandes reformas e reformulações. Os estouros do mercado financeiro, segundo consta, nada mais são que ecos finais do troar dos canhões que deveriam ter sido acionados em março/abril de 1964. E quanto à inflação, nada a declarar.

Permanecem inexplicáveis apenas as razões que levaram as autoridades a preterir o arrojado projeto dos grandes lagos. Fica assim esclarecido que a inundação de grande parte da Transamazônica não deve ser atribuída ao projeto de Mr. Herman Kahn. Justiça se faça e inocente-se o robusto senhor, muito pouco chegado a um ciclamato e entenda-se que a inundação virá por conta da barragem de Tucuruí.

Em meio a tudo isto devem ser entendidas como absolutamente normais a participação de grupos econômicos do gabarito dos Lutfala, Atala, LUME e quejandos. São conseqüências do modelo, na medida em que se fizeram presentes e cresceram sob as bênçãos dos incentivos, do credito e do engodo oficial.


ARQUITETURA E LIBERDADE


 Os arquitetos, parte integrante da nação, viveram e participaram, juntamente com as outras classes profissionais, de todo o processo dito revolucionário. A partir do momento em que um regime se fecha e sobrepõe à Constituição a ideologia da Segurança Nacional amparada por instrumentos de exceção, a Arquitetura é automaticamente ferida – sua característica eminentemente criativa se ressente e se limita na medida em que o livre curso das idéias esbarra em canais de informação obstruídos. Embora jamais tenha 'interferido diretamente junto aos arquitetos com o intuito de cerceá-los, não é demais afirmar que indiretamente a prepotência reinante muito contribuiu para a alienação e queda de nível da produção arquitetônica.

Sofrendo feroz repressão desde os bancos das faculdades, sem receber por parte da Imprensa censurada carga de informações ao menos razoável, impedido de promover debates amplos e consistentes, sem estímulo para pesquisa e o conseqüente confronto das idéias, o profissional, mal saído da universidade, encontra pela frente uma sociedade altamente competitiva e elitista, selvagem mesmo, excessivamente consumista, casuística e imediatista. O país se encontra tolhido, fechado ao diálogo e à apreciação de idéias.

É importante e curioso ressaltar que até a década de 60 eram regularmente editadas no país inúmeras revistas especializadas em arquitetura, dentro de bons padrões gráficos:

ARQUITETURA E ENGENHARIA, mineira, HABITAT, ACRÓPOLE, MÓDULO, BRASIL

ARQUITETURA CONTEMPORÂNEA, entre as principais. Destas, sobrou apenas MÓDULO, de Oscar Niemeyer, com a periodicidade violentamente interrompida por vários anos: a revista, como seu responsável, não recebeu as boas graças do aparelho repressivo e foi declarada subversiva por veicular ideologias espúrias. Além de MÓDULO, circula também CASA E JARDIM-ARQUITETURA, que até o momento ainda não conseguiu fixar uma diretriz editorial. As publicações especializadas, de uma certa forma, jamais constituíram empreendimentos rendosos para seus editores e sempre sobreviveram, principalmente, graças ao idealismo de seus responsáveis, permitindo que os conceitos e os trabalhos dos arquitetos fossem debatidos e analisados, de maneira salutar, por todo o país. A partir do instante em que os custos foram se tornando proibitivos e a veiculação de idéias considerada nociva aos interesses do Sistema, verifica-se ser muito difícil a manutenção ou tentativa de ressurgimento destas publicações. A Arquitetura, como produto final, não contesta os regimes e não traduz qualquer conotação ideológica. Seu exercício, contudo, jamais poderá se desvincular da realidade política e social da nação. Arquitetura e ditadura rimam, quando muito, mas não combinam. O sempre citado episódio da Bauhaus é muito significativo.


O CONSUMISMO E OS PACOTES


Se, de um lado/os veículos tradicionais de informação arquitetônica foram caminhando para a extinção, de outro lado, observa-se o aparecimento de variadas publicações especializadas em decoração. São revistas da melhor qualidade gráfica, altamente sofisticadas e dirigidas ao público certo, cuidando de promover um visual imediatista da sociedade de consumo. Estas publicações não se destacam pelo brilhantismo dos textos incorporados mas, ao contrário, ordenam  palavras de modo a glorificar o lugar comum de soluções tradicionais e, por vezes, alienígenas.  O conteúdo pode ser comparado às mensagens e padrões não muito realistas lançados  diariamente no vídeo, constantes nas novelas  das 6,7,8 e demais horas. Quanto às novelas e às revistas de decoração, tudo bem. Têm pleno direito à existência e devem falar daquilo que lhes compete e que encerra a essência de suas propostas. O público é certo, emergiu do milagre e está plenamente integrado às mensagens de consumo. O que se lamenta apenas é que uma grande parte da população do país permaneça à margem do processo e sem condições materiais e de instrução para conviver, ao menos, com a leitura diária de jornais. Lamenta-se também que uma pequena, porém considerável parte da coletividade, se marginalize na medida em que sua atuação profissional se processa em circuito fechado, desprovido dos meios convencionais de informação e debates.

A arquitetura sempre foi produto do meio e retrato fiel de sua época. Não se estranha assim que sua qualidade e serventia careçam de conquistas significativas durante os derradeiros 15 anos. Participando ativamente de um modelo desumano e elitista, a Arquitetura foi usada e abusada pêlos detentores do poder político e econômico. Em meio às trevas, esteve mancomunada com a especulação imobiliária e a devastação do meio ambiente. O ritmo de Brasil grande forçou os arquitetos a abrirem mão de um processo de prestação de serviços que, romântico e idealista, procurava respeitar a condição humana. Para servir ao modelo, os escritórios se ampliaram e adquiriram status empresariais, sob a ordem geral do imediatismo e do faturamento ou, no dizer de alguns, levantar uma grana. Hoje, em tempos mais amenos e abertos, já se questiona as vantagens e desvantagens desta conotação empresarial da Arquitetura. Se a atividade empresarial da Arquitetura é ou não conveniente, trata-se de assunto por demais polêmico e que escapa às intenções do momento. Em tese, a boa qualidade da Arquitetura independe de ela ser executada por autônomos ou por sociedades empresariais. Certo é que o arquiteto foi forçado a administrar pacotes de serviço ao absorver responsabilidade sobre os projetos complementares, o que se entende e aplaude.

Não se concebe é o fato de o arquiteto ser forçado a compor equipes de trabalho com profissionais estranhos à sua confiança, normalmente impostos pelo grande cliente, estatal ou privado. De pacote em pacote, sempre mal embrulhados, a Arquitetura se envolveu no milagre: muito subserviente, permitiu-se até mesmo ser uma das poucas atividades empresariais em que os honorários relativos ao trabalho profissional fossem fixados e aviltados pêlos clientes.

O arquiteto, como simples instrumento desenvolvimentista, limitou-se a executar tarefas sem chance de abrir os problemas ao debate amplo dos setores da sociedade diretamente envolvidos. Uma panorâmica da Arquitetura dos últimos tempos não apresenta um saldo muito positivo e aos arquitetos, como classe, o futuro certamente cobrará as omissões, os posicionamentos dúbios e a falta de firmeza no confronto com os grandes problemas nacionais que lhes são afetos. A respeito, a discussão de agora está generalizada no próprio âmbito ministerial: distribuição de renda, direito de greve, desrespeito aos direitos humanos, anistia e outros. Os tempos realmente mudaram, a ponto de um dos pais do milagre, o Dr. Delfim e não o Dr. Sylvana, fazer publicamente profissão de fé democrática e se declarar socialista fabiano.

ACOMODAMENTO E DISTORÇÕES, EM MINAS

Em Belo Horizonte, a conjuntura se reveste de aspectos particulares. Capital de um estado conservador e tradicionalista, berço da revolução de 64, a cidade apresentou um crescimento cada vez mais desordenado, recebendo contingentes humanos das mais diversas regiões. De um lado, empresários e aventureiros que vieram se aproveitar do milagre e de outro, levas de populações marginalizadas, das quais o milagre soube tirar proveito. Como os objetivos da revolução bem cedo, dizem, se desvirtuaram, o clima tornou-se propício à manutenção de privilégios, ao enriquecimento rápido e à alienação cultural.

As forças da reação e da repressão, por sua essência, cultivam tradições arraigadas, entronizam o passado e se manifestam através de conceitos anacrônicos. As classes dirigentes, enquistadas ao poder, jamais poderiam negar suas tradições ao recorrer aos arquitetos. O medo de contestar e a necessidade de preservar situações e privilégios forçam um retorno às origens coloniais. Ora, uma Arquitetura dita contemporânea se impõe numa sociedade aberta a partir do momento em que se liberta de parâmetros convencionais, contesta valores estabelecidos sobre critérios duvidosos e passa a formular e reformular o conceito de espaço sob o apoio do desenvolvimento tecnológico, enfrentando a realidade social e política. É muito difícil uma Arquitetura bem fundamentada socialmente conviver com regimes de exceção e sobreviver, pois o campo de ação do profissional está sujeito a pressões incontroláveis. Em Belo Horizonte, seria cômico, não fosse trágico, a obstinação com que os habitantes se agarram aos elementos e formas arquitetônicas do passado. A falta de originalidade e o processo gratuito de compor elementos tradicionais indicam, antes de tudo, um total desrespeito à nossa herança colonial e uma ignorância ímpar do que seja preservar e cultivar os ensinamentos do passado. No fundo, um torpor, algo como um receio coletivo, quase paranóia, certeza infundada de que somente certos materiais e determinadas formas possuem fluidos milagrosos para conferir status e proporcionar boas condições de habitabilidade. O povo, desinformado e extasiado, mais uma vez aplaude e pede bis, o fenômeno se desenvolve pela periferia da cidade, atinge até os espigões.

A especulação imobiliária nunca foi de levantar tarde, dizem mesmo que dorme com um olho aberto sem fechar o outro e investe maciçamente na nova moda. É significativo observar que a questão é de moda, um reflexo da conjuntura, embora se procure dourar a pílula com a patina da tradição. Os mais tradicionalistas, berrando sobre as vantagens de uma estética anacrônica, são usualmente os primeiros a se associarem aos empreendimentos imobiliários predatórios que sistematicamente cuidam de demolir os poucos exemplos significativos da Arquitetura dos primórdios da implantação da Capital. A ótica predatória ainda tripudia: demole-se um prédio velho, em más condições de conservação, em seu lugar edifica-se outro acomodando dezenas de famílias, de aspecto mais velho ainda e a cidade só tem a lucrar com tal proceder. Para cada demolição, um espigão, seja colonioso, modernoso ou mediterrâneo. No fundo, um simples jogo de falsas premissas, onde o importante é levantar uma grana e levar vantagem em tudo, certo?

As forças da reação não são ingênuas e sabem tirar proveito de tudo. Vale lembrar a atuação daquela sociedade muito chegada a um papo firme com a Virgem, integrada por impávidos e aparentemente conspícuos cidadãos de terno, gravata e cabelos à escovinha, perdão, à buscarré, por qualquer pretexto organizando cruzadas cívicas, portando, altaneiros, belos estandartes e bradando aos céus os perigos das artes do capeta e das ideologias vermelhas. É por demais sabido que grupos econômicos e empresas incorporadoras atiçavam o alarido dos cruzados ao mesmo tempo que cuidavam de promover a reação estética, disseminando edifícios coloniais pelas metrópoles do país.

No fundo, cuidavam de levantar uma grana e os garbosos rapazes, em diversas oportunidades, valeram-se dos materiais primeiros da Arquitetura, o pau e a pedra, para enfrentar os dísticos jocosos que a população sempre lhe dirigiu. O brasileiro, muito malicioso, nunca pôde entender como séria e digna de crédito) uma sociedade em que mulher não toma parte. Aliás, no que se refere às artes do demônio, o povo sempre preferiu as amenidades cinematográficas dos americanos, com seus exorcistas e profecias. Quando nada, são muito mais engraçados.


BELO HORIZONTE É UM ESPANTO


Belo Horizonte se notabilizará na história por seu aspecto pitoresco. Sendo uma metrópole nova, sua Arquitetura tem mais idade do que a própria cidade. Pode-se mesmo imaginar o pasmo de futuros e remotos pesquisadores, bem depois do holocausto, ao baixar por estas plagas: causar-lhes-á espécie o confronto da data de fundação do município, descoberta em roto e ancião pergaminho, com os exemplares arquitetônicos que emergirem das ruínas. Aos ilustres pesquisadores restará o eterno dilema sobre quem nasceu primeir : o ovo ou a galinha? Aliás, a Capital apresenta mesmo aspecto de coisa velha e mal cuidada, sem o encanto místico e bucólico das cidades históricas. Se o visual não é de primeira ordem, não muito consistente é a arenga daqueles que procuram teorizar sobre as vantagens do colonial. Entenda-se que devem ser tolerados aqueles que gostam da coisa por gostar e deve-se respeitar o direito daqueles que procuram simplesmente faturar. Quanto a agüentar as sandices dos teóricos tradicionalistas, realmente é dose. A empáfia com que os ditos se armam para teorizar chega ao requinte, de negar conceitos de física amplamente conhecidos e formulados em laboratórios experimentais, passíveis de serem medidos e dimensionados por grandezas definidas e conhecidas. As inverdades assacadas com o pretexto de garantir um respaldo histórico, técnico e teórico do processo saudosista são de tal ordem capciosos que chegam mesmo a iludir grande parte da população. Vez por outra os porta-vozes do processo emitem conceitos que se equiparam em conteúdo aos pronunciamentos do Sr. Ueki.

Alguma razão teve o compositor e poeta Francisco de Holanda quando disse: "Esta terra ainda vai cumprir seu ideal, Ainda vai tornar-se um império colonial". O receio generalizado é de que se inverta o processo de emancipação do país e, em longo prazo, a nação se entrelace novamente com Portugal e se veja reduzida à condição de colônia. É o mesmo poeta que diz em continuação: "Esta terra ainda vai cumprir seu ideal, Ainda vai tornar-se um imenso Portugal”.

Em tempo de abertura é de se esperar que a Arquitetura reencontre seus caminhos. Havendo mais seriedade no enfoque dos problemas nacionais, estabelecida a plena liberdade e o estado de direito, pode-se supor que o Brasil voltará a ser Brasil e se realize como nação. Espera-se dos arquitetos uma maior consciência de classe participante. Pelo menos, que fiquem de olho na metade restante da Serra do Curral.

Arquitetura, bela palavra. Se confrontada com abertura permite preciosa rima e é um convite à poesia. Contudo, é preciso estar atento à licenciosidade poética da prepotência, que se vale de fechadura, ditadura e censura como rimas do mesmo grupo.


 

 

SERRA DO CURRAL

Francisco Marcos Castilhos dos Santos

Os altos interesses nacionais,
tarados e anormais,
demoníacos - maníacos - sexuais,
vestidos de tratares e dragas,
tiraram a sua roupa,
despiram-na sem nenhum pudor
ao vento frio da noite
e aos olhos da cidade,
incubaram-se, nas suas profundezas
de onde jorrou o vermelho-terra,
misto de sangue e pó,
vasculharam a sua intimidade
com desrespeito predador,
ralaram o seu casco,
evacuaram os seus casos
mitos e mistérios morro abaixo,
rasgaram os seus sulcos,
ao meio retalharam os seus veios,
e não cerziram os rasgos
nem remendaram os estragos,
escalavraram a sua pele,
e a princípio tiraram do seu nome
a letra final ele.
Depois submeteram-na a abalos
semi-sísmicos,
minaram-lhe as estruturas,
vendaram-lhe os olhos a fumaça
para que nada presenciasse,
dinamitaram suas entranhas
para que não amasse,
foram lhe furtando os pedaços,
reduziram seu tamanho e forma
em graúdos estilhaços,
arrastaram-na pouco a pouco
sem muito estardalhaço
a estranhos compartimentos,
a científicos departamentos,
onde lhe analisaram,
onde lhe alisaram,
violentaram-na a força bruta,
e da sua fecundidade
lindos filhos geraram,
a quem chamaram "divisas"
Por fim, não satisfeitos,
abandonaram-na rota e suja,
e não lavaram o que lhe restou
após borrarem o a, o ar, o arr
do seu nome.

 


 

 

SYLVIO DE VASCONCELLOS, RETRATO EM BRANCO E PRETO

Arquiteta SUZY DE MELLO

Não posso recusar a Éolo Maia a colaboração que me solicita, entusiasmado, para "Vão Livre". Gostei do nome da revista como gosto da turma que a organiza - antigos ex-alunos, hoje bons colegas, sempre amigos.

Mas gostei muito mais ainda da idéia de homenagear o mestre de todos nós, formados na Escola de Arquitetura da UFMG, que foi Sylvio de Vasconcellos, em seu primeiro número. Só haveria uma coisa melhor: abrir a homenagem com um artigo do próprio homenageado que, sem a menor dúvida, o enviaria de Washington dando-nos mais uma lição de arquitetura e de generosidade.

Infelizmente não houve tempo para isso, mas a sinceridade da lembrança é muito válida, a ocasião oportuna e nada mais justo que reunir depoimentos de alguns dos muitos amigos de Sylvio, que , comovidos, por ele rezaram há cerca de dois meses na igreja de São José, no sétimo dia de seu falecimento.

Prefiro, porém, fazer um retrato - mais que um depoimento - sobre o professor e o amigo que,  lamentavelmente, as turmas mais novas da Escola não conheceram. Além de ser o autor de tantos e tão importantes trabalhos, Sylvio era uma personalidade dinâmica, de cultura profunda, de múltiplos interesses.

Nunca tive oportunidade de lhe dizer, mas o comparava a um renascentista tal a sua capacidade de pesquisar, observar, criar. Era uma figura do "Quatrocento", surpreendentemente surgida nas Minas. Conversava e polemizava muito, exigia debates e a partir de discussões que levantava articulava novas teorias que desenvolvia em escritos nos jornais.

Fui sua aluna em 1955, de "Arquitetura no Brasil", quando já trabalhava no escritório de Eduardo Guimarães Jr., outro grande professor que perdemos muito cedo. Formada em 56, fui para a Europa e só em 59 voltei à Escola, já então como pesquisadora. Sylvio fora um professor que se destacara por suas aulas sempre interessantes e objetivas, mas com quem pouco conversara nos tempos de estudante por estar muito envolvida no escritório de Eduardo que, como o próprio Sylvio, tinha sido dos primeiros arquitetos a conquistarem a cátedra na Escola. À eles se juntaria depois Raphael Hardy Filho, em lideranças que se refletiriam profundamente em nossa formação e que, para mim, se transformariam em enriquecedoras amizades. O reencontro com Sylvio foi casual e, a partir de uma conversa sobre Mary Vieira, amiga comum que de Minas partira para a Suíça e se tornara um dos grandes nomes da escultura moderna na Europa, passamos a falar de pesquisa em arquitetura. Sylvio ouviu minhas idéias, ampliou-as com seus conhecimentos e deu-me o apoio de sua experiência. A partir daí, surdiu a Seção de Pesquisas da Escola, supervisionada por ele e dirigida por mim. O grupo de arquitetos-pesquisadores foi ampliado e nossa presença marcou o início dos anos 60 através do trabalho conjunto com a Gráfica e o Serviço de Foto-Documentaçao da Escola. Em um ano, editamos mais de vinte livros e fizemos não sei quantas exposições. Sem falar em conferências, boletins bibliográficos e outras atividades de extensão, comuns hoje, mas inéditas naqueles tempos. Trabalhava-se com imenso entusiasmo que também contagiou os alunos, tornando-os colaboradores de muitas publicações. Sylvio escrevia muito - é desta época o belíssimo "Nossa Senhora do Ó", entre outras obras - mas incentivava a todos a escreverem também, e com sua ampla visão, procurava estimular a formação de novos professores. Foi assim que fiz meu concurso para livre-docente, em 62, com o próprio Sylvio fazendo parte da banca examinadora sem tomar conhecimento dos que falsamente o acusavam de proteção para comigo. Foi um examinador justo nas notas que me atribuiu e brilhante nas questões que me propôs, encerrando os boatos já que as sessões eram públicas e o concurso incluía a participação de mais quatro catedráticos, três dos quais de outros estados. Pouco depois, Sylvio foi nomeado diretor da Escola, porém, envolvido por intrigas em março de 64, foi afastado do cargo.

Esteve no Chile, lecionando Teoria da Arquitetura na Universidade de Santiago e trabalhando na DESAL, órgão das Nações Unidas.

Retornando ao Brasil, voltou à cátedra e continuou como chefe da diretoria regional do IPHAN, que ocupava desde 1940, quando foi criada, por indicação de Rodrigo Mello Franco de Andrade. Em 69, aposentado por ato institucional, tornou-se o primeiro coordenador cultural do Instituto Cultural Brasil- Estados Unidos, entidade com a qual já colaborava anteriormente. Suas viagens internacionais incluíram um estágio em Portugal, como bolsista da Fundação Gulbenkian e uma viagem aos Estados Unidos a convite do governo americano. Viajou, também, para a França e residiu em Paris, trabalhando no escritório de arquitetura Bernard Granei. Recebeu uma bolsa da Fundação Guggenheim, em Nova York, e contratado pela OEA como especialista em restauração foi indicado para diversas missões nas Américas do Sul e Central e, principalmente, no México, onde permaneceu por algum tempo. Fixou-se, finalmente, em Washington onde fazia consultorias para a OEA, escrevia para jornais e revistas e se transformou em excelente desenhista que - em branco e preto – retratava a paisagem da capital americana e os bucólicos campos da Virgínia. Nos últimos tempos, trabalhava com sua mulher, Muriel, em ampla pesquisa sobre textos do século XVIII referentes à Minas Gerais, tendo recebido uma bolsa de 30 mil dólares, prêmio excepcional do "Fundo Nacional para o Desenvolvimento das Artes", do governo americano, concedido apenas a intelectuais de reconhecida capacidade.

Estes dados resumidos visam apenas situar Sylvio em sua vocação cultural que não obstante tantas perseguições injustas, continuou fiel às suas origens e tendência: Minas sempre fez parte dele e de seu trabalho, dando à sua personalidade as características singulares que o tornaram um arquiteto de renome, um  respeitado restaurador, o mais importante estudioso da arquitetura colonial mineira e um escritor e jornalista de agudas observações envolvidas por um estilo leve, freqüentemente romântico porém crivado de ironia e humor.

Nossa convivência na Escola transformou-se em amizade de famílias, abrangendo festas de aniversário, ajantarados domingueiros e até os natais, quando Sylvio aparecia nas nossas ceias e, com um discreto uísque na mão, fumava cigarros de palha com meu pai ou conversava com meu sobrinho Paulo Augusto, depois seu grande amigo e correspondente. A par desta leal amizade, crescia também o intercâmbio de idéias. Trazendo-me seus escritos para revisão, dava-me coragem para escrever também.

Forçava-me à discussão de teorias de arquitetura no geral, e da arquitetura brasileira em particular. Acabei perdendo a timidez de ex-aluna e discutíamos sobre todos os aspectos da arquitetura. Daí a colaborar com ele em trabalhos diversos como no levantamento e pesquisas da Capela de Nossa Senhora do Ó, em inúmeras conferências e artigos e, finalmente, no seu trabalho mais importante, embora pouco divulgado, "Mineiridade".



Escrito no exterior - em Lisboa e Paris – recebia aqui cópias xerox dos originais pelo correio. Fazia a revisão, rabiscava comentários nas margens, checava citações e devolvia tudo, via aérea, à Sylvio. As cartas eram quase semanais e as tenho guardadas, cheias de observações vivas e incluindo seus primeiros desenhos feitos em esferográfica. No meio disso tudo, Sylvio tinha planos de trocar nossas matérias na Escola (antes de ser aposentado) e deu-me quase um novo e mais completo curso de arquitetura brasileira, inclusive as fichas que fez para seu exame de cátedra.

Estas lembranças mais pessoais são evocadas agora para justificar muitas das opiniões que julgo poder dar sobre a personalidade de Sylvio como sobre suas obras já que vinte anos de amizade, de convivência e de correspondência dão um lastro de conhecimento e compreensão amplo e profundo, mesmo que - em diversos momentos - tenha discordado dele, a mais séria destas divergências tendo ocorrido em 76, quando estive em Washington, mas que foi superada posteriormente e que agora nem sequer conta.

Foi nas nossas muitas conversas que fiquei sabendo, por comentário do próprio Sylvio, de outras atividades suas na vida cultural de Belo Horizonte: suas metas como primeiro diretor do Museu de Arte da Pampulha, sua atuação em júris de arte e arquitetura (inclusive na Bienal de São Paulo), sua participação em bancas examinadoras de diversas universidades brasileiras, os convites para conferências e os temas que escolhia, os critérios determinantes de seus projetos e sua obsessão em conhecer, estudar e pesquisar a arquitetura colonial de Minas. Lembro-me de sua ida para Brasília, como coordenador do Curso de Arquitetura na época do Reitor Caio Benjamim Dias, quando discutimos extensamente os problemas da formação de arquitetos.

Recordo-me, igualmente, de suas estórias de restaurador e pesquisador, andando pelo interior de Minas a verificar os monumentos que levantaria, reformaria e estudaria para o IPHAN. E me lembro bem de sua atuação no Automóvel Clube, como diretor e presidente, além de freqüentador assíduo do famoso 4°andar, onde se discutia de tudo enquanto se jogava um carteado qualquer ou o bridge britânico, como o adjetivo que classificava o clube. De tudo participava Sylvio, em rodas variadas de amigos que ele cultivava com inteligência e sensibilidade; ainda se orgulhava de ser exímio dançarino e grande seresteiro, com violão afinado para as mais tradicionais músicas mineiras.

Seus projetos espalham-se em Belo Horizonte, muitos infelizmente desfigurados por reformas inadequadas. Em todos, porém, a marca de sua personalidade de arquiteto é evidente. Lembro-me bem quando dizia que os loteamentos usuais amesquinhavam as casas, apertadas em terrenos de dimensões mínimas.

Mas, nestes mesmos terrenos, lançava residências que sempre tinham uma parte que atravessava o lote transversalmente, vencendo a exigüidade das testadas. Era seu partido preferido, que agenciava um jardim interno, privativo da família. As soluções variam, naturalmente, mas há que notar a persistência de seu partido básico e extremamente funcional.

Dentro deste esquema foram projetadas as residências do próprio Sylvio (Cidade Jardim), de Rodrigo Otávio Coutinho (Lourdes), e Délcio Martins ( Sto Agostinho) bem como várias casas de jornalistas (no Sto. Agostinho) e outras na Serra. Em esquemas semelhantes, porém menos contidos, estão as residências de Caio Benjamim Dias, Gabriel Andrade e Gilberto Faria, na Cidade Jardim, cujos terrenos mais amplos ensejaram composições de maior liberdade ainda que referenciadas às características de Sylvio. Plasticamente, Sylvio resolvia seus projetos em blocos bem definidos que se justapunham em saudável equilíbrio, usava cores discretas mas seguramente e gostava de inventar formas novas para os elementos estruturais, como se pode notar nas residências Caio B. Dias e Gabriel Andrade, principalmente.

Os vãos se distribuíam em proporções elegantes e muito semelhantes às dos sobrados coloniais que lhe eram tão familiares e queridos. Além de inúmeras outras residências, Sylvio projetou a Capela do Colégio Izabela Hendrix, as sedes do DCE (rua Gonçalves Dias) e do Instituto Cultural Brasil-Estados Unidos e o edifício de apartamentos da Praça da Liberdade, popularmente conhecido como "Xodó" (pelo nome da lanchonete no térreo) e onde ele foi meu vizinho por algum tempo.

Também é de sua autoria o monumento ao Aleijadinho, na frente da Reitoria da UFMG, no campus da Pampulha. É uma interessantíssima concepção plástica de grande movimento que lembra bem as curvas barrocas do grande mestre mineiro do século XVIII.

Seus trabalhos escritos multiplicam-se na constante colaboração com os principais jornais brasileiros, não só o "Estado de Minas" como "O Estado de São Paulo" e o "Jornal do Brasil", além de ter sido comentarista esportivo de um jornal paulista, certamente por seu grande amor ao Atlético. Alguns de seus escritos (os mais antigos) foram reunidos no livro "Noções de Arquitetura", publicado pela EAUFMG no início de 1960. Mas há muitas e muitas crônicas publicadas posteriormente e que agora estão sendo organizadas para publicação. De sua época na Escola de Arquitetura, são seus principais trabalhos :

 "Arquitetura Particular em Vila Rica", tese de concurso reeditada em São Paulo, e que é magnífico estudo sobre a evolução das casas mineiras. E há o já citado "Nossa Senhora do Ó", completo levantamento iconográfico e histórico da mais ramosa capela mineira, em Sabará. Também importantes trabalhos são "Pintura Mineira e outros Temas", cujos ensaios se destacam pela originalidade das observações e abordagens e "Arquitetura no Brasil: Sistemas Construtivos", inicialmente publicado na revista "Arquitetura e Engenharia" e do qual quatro edições da EAUFMG se esgotaram, sendo agora reeditado pelo Curso de Especialização em Restauração e Conservação de Monumentos e Conjuntos Históricos", com novas ilustrações e fotos, bem como revisão e notas de minha autoria, por autorização escrita de Sylvio, obra indispensável para o entendimento completo da arquitetura mineira e suas características construtivas. Não se pode esquecer, tão pouco, o pequeno e precioso "Arquitetura: Dois Estudos", publicado pelo Instituto Nacional do Livro, em Porto Alegre, que analisa tanto a arquitetura colonial como a moderna em teses da maior validade, tratadas com a típica objetividade de Sylvio. A cuidada edição de "Minas: Cidades Barrocas", feita em convênio com a Universidade de S. Paulo e com ilustrações de Renée Lebfèvre, tem, certamente, as mais belas e inspiradas crônicas de Sylvio sobre as cidades que tão bem conhecia e tanto amava. Pois só quem muito conhece e muito amou as cidades s barrocas de Minas poderia - como ele - descrevê-las em linguagem fluente e de fácil entendimento para o leigo mas, ao mesmo tempo, com tanto romantismo e poesia na caracterização arquitetônica de cada uma. Premiado na Bienal do Livro de São Paulo, este é um trabalho muito especial de Sylvio. Como importantíssimo é o seu "Mineiridade – Ensaio de Caracterização", em que Minas é estudada com carinhosa ternura e objetivo espírito analítico. Através da arquitetura, em síntese que só a cultura e a vivência de Sylvio poderiam produzir, as características sociais, econômicas, históricas e políticas das Minas são examinadas e sintetizadas com riqueza de exemplos e profunda erudição que não cansam mas, pelo contrário, incitam o leitor a refletir e a ponderar com ele. Será lançado agora, em São Paulo, seu livro póstumo sobre o Aleijadinho, que aguardamos como outra obra marcante de seu conhecimento e seu amor à Minas. E isto sem falar no pequeno mas essencial "Vocabulário Arquitetônico" e nos artigos que escreveu para publicações internacionais como o Boletim da Universidade da Venezuela e a revista "Américas", da OEA, entre outras. Ou, ainda, o magistral trabalho sobre a formação de cidades mineiras que marcou sua presença no "Primeiro Seminário de Estudos Mineiros" da UFMG.

Urge organizar - e quem sabe possa fazê-lo em breve - uma bibliografia completa de Sylvio e que inclua, também, uma análise mais ampla de sua obra arquitetônica e de sua filosofia. Que ele soube resumir muito bem nas cartas que escrevia, como em uma que tenho, datada de Paris, em abril de 1965 : "Costumo dizer, tirando da Bíblia, há que dar testemunho de nós mesmos nesta vida", E melhor nem mais belo poderia ser o testemunho que o próprio Sylvio nos deu - seu humanismo, em suas múltiplas atividades culturais, sua personalidade rica ainda que contraditória, seu amor à Minas - e do qual tive a imensa sorte de, por duas décadas, poder participar.



Fotos : Sylvio de Vasconcellos
Obras :
Jeferolla/Hjteixeira


1- Edifício do Xodó/ Funcionários
2 - DCE da UFMG/Lourdes
3 - ICBEU/Lourdes
4.5.6 - Casa BM/Serra

 

 



 

 

A PROPÓSITO DE UMA CASA
(Mardia Gianetti - Residência)

Sylvio de Vasconcellos – Arquiteto (Transcrito da Revista Arquitetura e Engenharia no. 4/1947)


É incontestável que a permanência do espírito acadêmico, o gosto das adaptações, do ornamental decadente e da falta de preocupação com o espaço e o tempo, refletem-se, ainda, em quase toda a nossa a arquitetura. A causa disto pode ser encontrada no próprio desequilíbrio social e na decadência artística que perturbou e perturba ainda a marcha de nossa evolução. Não deixa, também, de ser um sinal de impotência frente aos nossos próprios problemas e às nossas dificuldades. Por isso mesmo, têm encontrado no Brasil campo favorável à sua expansão o cinema mal feito, as missões artísticas estrangeiras e a arte fácil. Não que devamos abandonar o passado e as boas influências pelo que elas contenham de sugestão, mas é necessário que, transpondo o já realizado, olhemos para o futuro. Os estilos não podem ser assim improvisados, mal vertendo-os o nosso colonial, omissões, jogando-se aqui e ali elementos de decoração clássica sem maior cuidado. A estas fantasias desarrasoadas e que tanto atendem ao gosto apurado de populações deficitárias ou individualidades rapidamente enriquecidas, sem base cultural, deve suceder um estilo mais ligado à época, aos materiais e às nossas possibilidades. Paradoxalmente, o Brasil por algumas obras, já realizadas, não está alheio a esta renovação. E cabe aqui lembrar os homens que nos proporcionaram esta boa arquitetura pela sua formação espiritual e pela coragem que revelaram.

Frisando a importância destes conceitos, devemos considerar ainda que a casa tem sobre a sociedade, através da família, uma influência bem mais forte do que possa parecer. Se ela reflete o meio, por sua vez nele também atua marcadamente, seja na formação dos novos homens e mulheres - com a criança - seja pela adaptação do adulto com o maior ou menor; impulso de beleza que possa sugerir. Verificamos que formas mais novas e mais puras ocorrem em datas de renovação e afirmação espiritual e mesmo política, tornando-se, por outro lado, um dos fatores desta renovação. Em ambiente de cópia, de pobreza, de dificuldades, não pode a gente sentir-se bem.

Se a montanha, o mar, a cidade, determinam caracteres definidos, evidentemente a casa, pelo seu muito maior contacto com o homem, interna e externamente, deve ter, também, influência decisiva na sua formação.

Quando temos uma fachada e procuramos dar-lhe sentido, aplicando sobre ela, sem maior estudo, um elemento incorporado, digamos, a construções recuadas de dois séculos, nada mais fazemos que confessar a nossa incapacidade em fazer a nossa estética. A própria Igreja, sem prescindir de suas origens, não é estática mas, pelo contrário, evolui com o mundo, e, muitas vezes, à frente dele.



Vem aqui a já velha consideração de que apenas na arquitetura nos agarramos ao passado. Por que não usarmos hoje automóveis decorados com varais de "cadeirinhas" ou iluminados por lanternas D. João V? Mesmo na moda feminina, onde às vezes voltam ao uso modelos de inspiração de outras épocas, podemos notar que estes modelos são sempre transpostos à estética moderna e não permitem confusão entre o antigo e o novo, a não ser que se transformem em "fantasias". O sentir mudou. Por que, então, só a casa deve parar em qualquer século e viver de recordações? Uma igreja gótica, hoje, não seria tão absurda como um hipódromo com os foqueis vestidos de armaduras? Uma casa estilo normando em nosso clima não seria tão ridículo como andarmos calçados de skís? Estes pensamentos presidiram a nossa preocupação ao estudarmos a casa. O terreno, de duas grandes frentes e pouco fundo, pela sua própria conformação triangular, define a situação a ser usada, e os inconvenientes da proximidade com o exterior são sanados com a transferência dos jardins para o interior e pela vedação visual da rua.

A planta desenvolve-se por quase toda a frente e seu bem pensado programa torna-a um conjunto típico de família em formação, preocupada, tanto no conforto material, como no espiritual. E aqui, se a casa reflete a mentalidade de seu habitante, ajuda-o também em seus anseios e contribui para a formação da descendência. O morador é recebido em grande sala de viver, ampla em três dimensões. A altura é dupla do resto da habitação. Os grandes ambientes de pouca altura comumente oprimem e negam, deformando-a, sua própria dimensão horizontal. A esta sala se liga a de refeições, também capaz de conter as nossas gostosas reuniões familiares ou festivas, características das mais agradáveis de nossos costumes.

Os serviços correspondentes se ligam ao local do uso em posição discreta e com acesso direto da rua, sem interferências de circulação. Na outra frente estão o escritório e o estúdio, em lugar calmo e sossegado. Da sala de viver vamos ter à de estar, em balcão como um prolongamento daquela, porém, com maior intimidade. Seguem-se os dormitórios e sanitários correspondentes, a insolação foi estudada de modo a proporcionar o máximo de sol nos dormitórios, principalmente no inverno, e o mínimo nas salas de conforto e meditação. O jardim se incorpora à casa pela varanda de trás e pelas grandes aberturas voltadas para ele. Da rua o "privace" é conseguido pelo emprego de painéis rotulados que contribuem também para a beleza da fachada principal. Jogando-se as alvenarias brancas com as pedras neutras e as madeiras coloridas procura-se conseguir uma boa composição, enobrecendo os materiais típicos de nossa arquitetura.
 
E se, com tão belas idéias, não conseguimos realizar obra também bela, isto é devido, de fato, à nossa pobreza que é muito para tão grande vôo.



 

 

O HOMEM ALTO

Éolo Maia



Um grupo de estudantes e arquitetos, maioria professores do Paraná, entre eles:
Roberto Gandolfi, Jaime Lerner, Marcos Prado e outros.
Despedem-se de um homem alto.
A tentativa de se reorganizar o curso de arquitetura da U.N.í.
Fora novamente bloqueada.
Partem...
O homem solitário, muito alto.
olha as esculturas de Mário Cravo.
Talvez com saudades dos profetas de Congonhas.
Mistura-se com elas num conjunto
de grandeza e solidão.
Março de 68
saguão do Hotel Nacional, em Brasília.


 

 

CARTAS

Minha correspondência com Sylvio de Vasconcellos começou quando ele ainda estava no México e se prolongou até sua morte em Washington. Foram mais de 70 cartas que ele me mandou (não incluo, aqui, cartões de Natal, bilhetes ou recortes de jornais avulsos); nelas, conversamos sobre tudo. Política, arte (arquitetura e cinema, especialmente), futebol, coisas de Minas de que Sylvio sentia muita saudade. Tenho vontade de algum dia, editar todo esse material em forma de livro; será um documento precioso, a registrar o pensamento de um homem que, forçado a deixar seu país, nunca deixou de estar em contato com sua terra e sua gente.

Paulo Augusto Gomes.
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Dec. 28, 1977

Meu caro Paulo, como gostam de dizer os americanos, boas e más notícias em sua última carta. Primeiro as más: a gripe, o atraso da conclusão do apartamento. As boas: o fim do curso e os novos planos. É realmente uma lástima o que se passa com a indústria de construções no Brasil. Nunca um orçamento cumprido, nunca um prazo obedecido. Coisa que virou rotina. É uma pena que vocês não tenham podido ingressar nas festas de natal e no ano novo já no ninho próprio. Paciência. Faço votos que tudo se resolva em breve tempo. E que também a gripe já se tenha ido antes que 78 se instale.

Vi "Manchete" sobre os 70 anos de Niemeyer. Documentário sobre ele parece-me uma excelente idéia. Pondero apenas que o tema sugere dois enfoques distintos: a pessoa e a obra. Joaquim Pedro e Fernando Sabino já tentaram documentários biográficos: Manoel Bandeira, Gilberto Freire e não sei quem mais. Fica um filme de falação que creio de menor interesse público por demais intelectualizado e desprovido de sinestesia (beleza de movimento). Documentário para arquivo. É o que acho. Claro que não havia outra maneira de documentar escritores, cuja obra é abstraída de pensamento.

No caso de Niemeyer dá-se o contrário. Há uma obra real a ser documentada e é ela, principalmente, que importa. Niemeyer é, por sinal, pessoa difícil, áspera, com pouca capacidade de comunicação e de expressar-se. Chega a prejudicar sua obra com as explicações que lhe dá. Não é, como Corbusier ou Frank Lloyd, um doutrinário. É antes um intuitivo. Mais sensibilidade do que raciocínio.

Muito mais importante é, pois, mostrar a obra e não a pessoa. A obra é que é admirável. Neste caso não vejo necessidade de obter sua anuência para o documentário. Sua obra é pública, de domínio público, por ser arquitetura permanentemente plantada em logradouro público. Arquiteto não tem interferência em fotografia ou filmagem de sua arquitetura. Como não tem em seu uso ou contemplação.

Com respeito à obra não creio que comentários paralelos de Niemeyer viriam a contribuir, para um documentário melhor. Talvez contribuísse para o contrário. Tem preferências e manias que certamente restringiriam a liberdade necessária do diretor. É possível que eu me engane, esteja enganado redondamente, mas é essa a impressão que tenho. Quanto ao documentário da obra há vários caminhos ou enfoques a tomar.

Cronologia? Para mostrar sua evolução? Ordem do mais simples ao mais complexo? Residências aos conjuntos argelinos? Espírito barroco que o distingue do "classicismo" corbusiano?

Quanto ao barroquismo é onde entra a raiz de seu profeta, conforme se vê em sua carta. Há um livro importantíssimo na espécie: "Persistência do barroco na arquitetura brasileira" de Leopoldo Castedo. Fundamental.

Susy que me perdoe, mas não vejo relacionamento explorável entre Aleijadinho e Niemeyer. O primeiro era fundamentalmente escultor de ornatos. Sua contribuição à arquitetura limitava a fachadas (fachadista) e, ainda assim discutível - muito. Os dois só se encontram porque ambos trabalharam barrocamente. Um não se filia ao outro. Ambos filiam-se a um mesmo espírito "barroco". O barroquismo de Niemeyer é barroquismo mesmo, genérico; não o barroquismo especifico, caligráfico, de Aleijadinho. O que fez Niemeyer foi reduzir o barroco a seu esquema fundamental, em sensualidade, ilimitação, descontinuidade, valorização de espaços e de massas, eliminando todo o supérfluo. Tendência brasileirista, nativa, de interpretação dos estilos universais. O mesmo que Machado de Assis fez com a literatura. É o que se pode chamar de "características ou peculiaridades constantes" da maneira de ser artística do povo brasileiro. Talvez fazendo das tripas coração, procura expressar o máximo com o mínimo. A forma em si, escorreita, limpa, não adjetivada. Isso começou em Minas colonial (mas não só com Aleijadinho, na arquitetura, na literatura (com Gonzaga), e na música. Porque no litoral brasileiro vinham as coisas prontas da Europa. Em Minas foram feitas aí mesmo, com os poucos recursos disponíveis. Há um artigo meu a respeito, publicado no Estado de São Paulo (que não tenho comigo): "Constantes peculiares da arte brasileira". Acho.

Ora; Aleijadinho entregou-se precipuamente à adjetivação. Ao ornato, à decoração. Era escultor, artesão em princípio. Rococó. E rococó é a decadência do barroco, seus excessos, seu maneirismo e feminina fragilidade. Embora tenha conseguido fazer, ainda assim, obra admirável e ascendente em lugar de decadente (por isso mesmo é gênio) caracterizou-a pela caligrafia, pelo tratamento em minúcia. Com o qual Niemeyer jamais preocupou-se. Niemeyer é, também, escultor. Mas não caligráfico. De massas, volumes, formas. Poder-se-ia dizer, talvez, tratar-se de um barroco-concretista. Onde o concretismo responde à modernidade, ao conceito ao conteúdo. Ficando o barroco na intenção plástica, no emocional.

Acho que estou falando demais. Ponto final. Desculpe-me. É só vontade de estimulá-lo. Entusiasmo por idéias e iniciativas.

Espero que Los Angeles vá além da idéia e se objetive. Para podermos tê-lo aqui.

78 está está entrando, com expectativas e promessas.
Vá em frente. Tudo só tem que melhorar mesmo.

O abraço sempre muito amigo de Muriel e de Sylvio

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Meu caro Paulo,

sua viagem ao Rio, com Paty , me lembra a hipocrisia da sociedade americana (e brasileira também) revelada na mania de fixar um horário para as saídas noturnas das filhas, com seus respectivos "dates". Ou mesmo diurnas. Aqui se diz, por exemplo: não além das dez horas da noite, ou meia noite. Com isso está salva a honra familiar. Como se não se pudesse fazer amor antes das dez, ou mesmo à luz do sol.  São as chamadas mentiras convencionais de nossa sociedade. Algumas, como esta, tão absurdas, ingênuas, infantis, e inócuas, como outras. Dois sexos opostos podem, por exemplo, se agarrar, abraçar, se esfregarem em público sem qualquer condenação. Com música. Dançando. Se continuam abraçados, depois da música cessada, ê um escândalo. Nisso vivemos.

Enquanto Belo vai vivendo, também, os casos da Dame Margot, das Maristelas e dos Sassos. A comédia humana, como dizia Balzac. A triste comédia humana que nem vale a pena chamar-se tragédia.

Você não estava enganado. É claro que minha opinião de Belo se infere de experiência pessoal. Experiência esta mais válida do que outras, talvez, porque envolvida em uma teimosia que teimosamente procurou desmenti-la. Não sei se já lhe contei, mas por volta de 1940 uma revista de Belo - "Alterosas" - fez uma enquete entre pessoas conhecidas simplesmente perguntando "porque não haviam ainda saído de Minas". Veja você: creio que em nenhum outro lugar do mundo um periódico jamais teria feito uma pesquisa  assim.

Pois foi feita. E pior : todos os perguntados deram desculpas muito profundas para justificar a não saída. Todos. Todos só não haviam saído porque não puderam, em virtude de um motivo ou outro. Todos, menos eu. Disse que não havia saído porque gostava do lugar e achava que valia a pena. Agora lhe pergunto: valeu? "Mudaram os outros, ou mudei eu?". Não lhe vou repetir na lista imensa dos casos referentes. Dos casos mais recentes lhe recordo apenas Carlos Kroeber que é ator consagrado no Rio e era apenas um veado em Belo. Franz Weissman sempre foi desconhecido em Belo; tem hoje prêmios internacionais no Rio. Não há um só nome nacional de mineiro que tenha ficado em Belo. Mas há milhares de nomes nacionais de mineiros fora de Minas.

Você tem também razão quando fala do amor dos mineiros emigrados por Minas. Sou um deles. A gente fica vendo cá fora o valor de muitos mineiros desconhecidos em Minas, mas glorificados fora de Minas. A começar pelo Aleijadinho, passando por Bernardo de Vasconcelos, António Carlos, o liberal, Tiradentes, Pelé, Dantas Mota, Carlos Drumonnd, Rodrigo de Melo Franco e já vou eu de novo fazendo listas. A gente se orgulha do que nasceu em Minas.
 
Do que foi da primeira civilização urbana, industrial, liberal em Iodas as Américas. Minha família chegou a Minas em 1760 e deu, além de Bernardo, um Presidente de Província (primeiro autor da história mineira, um Senador historiador, um Presidente da Província do Rio Grande do Sul e ministro em Portugal, e meu pai, apreciado na “Europa, França e Bahia”, mas apenas um saudosista, fala porque tiveram atuação fora de Minas, Que mais quer você? Claro que falo por experiência própria. Quis teimar e ficar. Fiquei ser Minas. Não o que Minas é, hoje. Onde Teófilo Otoni ninguém sabe quem é, embora seja nome de cidade. Amo a Minas que foi a primeira região do Brasil a escolher em praça pública seu governador (l 710). A primeira das Américas. A primeira a lutar e morrer pela independência nacional. A única a inventar um barroco próprio e a ter por filho António Francisco Lisboa e Manoel da Costa Ataíde).

Amo a Minas que produziu o "Fico" de D. Pedro l e o levou à independência depois reclamada por São Paulo apenas por acidente geográfico. Amo a Minas que derrubou D. Pedro porque feria a constituição. Amo a Minas que inventou o voto secreto em 1930, depois de fazer a revolução, liberal, de 3842. Amo a Minas onde só Tomaz Antonio Gonzaga fez versos de qualidade e a Minas que prendeu um Governador (1720) que exorbitava em arbítrio. Amo a Minas que deu Pelé, Carlos Drumonnd e educou Rubem Braga, Carlos Castelo Branco e Wilson Figueiredo. A Minas que deu o movimento de Cataguazes, literário e cinematográfico. Amo a Minas que produziu Grande Sertão Veredas. Mais amores teria, não fosse tão curto o papel desta carta. Mas não posso amar a Minas que a TFM ou cuja Assembléia Legislativa votou unanimemente recomendação contra o divórcio. Essa não é Minas. São as Gerais inundando as montanhas as montanhas mineiradoras onde germinara a liberdade. Compare você o que existe lá fora com o que há em Minas. Um mineiro - Saboto Magaidi - é secretário de cultura da Prefeitura de São Paulo. Brilhando. Na Secretaria de Cultura da Prefeitura de Belo temos o Sasso. Veja os artistas e críticos de arte de São Paulo e Rio, ou mesmo de Recife, Curitiba e Porto Alegre... Em Belô temos Maristelas, Morgans e grupinhos de elogios mútuos. Amilcar de Castro teve Prêmio da Guggenheim. Agora voltou a Minas. Que está fazendo e e o que fará? Dá aulas. . . E melancolicamente fenece. Compare o gramático Aurélio Buarque com o gramático Mata Machado. É o último pior que o primeiro. Não; apenas está em Minas.

Você me fala de Murilo Mendes. Um amigo muito querido que se foi. Que era em Juiz de Fora? Nada. Fora de Minas está internacional. Para sempre. E não estará, nunca, Emílio Moura, quiçá melhor poeta que Murilo, salvo seja.

Os tentáculos de Minas são fortes. Acredito. Pois foram fortes comigo e me engoliram. Mas não sei de ninguém que tenha saído e fracassado. Ainda hoje estou vendo em “Veja” o caso de um rapaz meineiro que veio estudar economia nos EE.UU. e hoje tem uma loja de flores exilosa em N. Iorque. É sempre assim. É claro que há tempo de rir e de chorar.  E tempo de decisões. Os tentáculos da rotina são fortes e, de fato, representam uma esperança de vida mais tranqüila. Se é tranqüilidade que se deseja.

Não leve a sério o que lhe escrevo. Repito que são mais solilóquios que me saém, reprimidos, quando lhe escrevo. Olho para você como se olhasse para mim mesmo quando tinha sua idade. E me vêm remorsos, arrependimentos tardios. Que expresso nestes solilóquios. Longe de mim estar a lhe dar  conselhos. Apenas lhe digo o que me vai na alma, sentimentos de mim mesmo. Nada mais. Velhice, talvez.

Que não impede ou esmorece o grande afeto que lhe temos, e a gostosura de poder conversarmos de vez em quando. Para terminar como sempre, com este abraço sempre muito amigo. De Muriel e de Sylvio.

Não perca a Volta da Pantera Cor de  Rosa. Não é filmologia, mas dá para rir um bocado,

Gostaríamos de muito conhecer Paty. Cada vez mais nos perece que vocês dois fazem um casa! Invejável.


 

 

SYLVIO DE VASCONCELLOS, O PROFESSOR

Arquiteto Ronaldo Masotti Gontijo



Corria a década de 50, já em sua metade final, e não é exagero afirmar-se que todo o corpo discerne da Escola de Arquitetura, incluídos os estóicos alunos do Curso de Urbanismo, se acomodaria com razoável conforto em qualquer das salas de aula hoje destinadas à disciplina de Planejamento. Ainda longe dos benefícios e malefícios advindos com a reforma pós-64, o ensino da arquitetura tinha conotações marcadamente acadêmicas, diretamente vinculados às diretrizes estabelecidas pela Congregação. Boas intenções nunca faltaram a seus membros, sempre homens íntegros, dedicados e profissionais de renome. Mas é inegável que o Hermestismo e o academicismo que então davam a tônica do currículo estavam diretamente ligados à ortodoxia dos mestres que integravam o citado colegiado (fato comum às faculdades de época), em sua maioria engenheiros e bacharéis, entre os quais ainda quase todos os idealizadores e fundadores da Escola. Deve-se reverenciar a memória dos já falecidos: o patrimônio cultural que a Escola hoje representa é fruto básico do idealismo e dos sacrifícios destes antigos mestres.

Nem sempre, infelizmente, as boas intenções são suficientes quando se busca um esforço supremo para renovar. É significativa a referência ao episódio de 56, quando a Congregação formulou e apresentou proposta de reforma do currículo a partir do simples desdobramento de cadeiras de cunhos artístico e técnico, mantendo-se a mesma estrutura então vigente e, pior dos males, estendendo-se a duração do curso para 6 anos. No bojo da proposta, nada que promovesse uma efetiva melhoria da qualidade do ensino, preocupação alguma com o real entrosamento de disciplinas afins, colocações aleatórias frente à  realidade então vigente. A reação dos alunos foi imediata e o amplo debate promovido sustou a tentativa que então brotava. De positivo, o episódio deixou como saldo o atendimento de antiga reivindicação do DA, qual seja, o direito à presença de seu presidente às reuniões de Congregação, embora sem direito a voto.

Nada mais natural, portanto, o despontar de dois professores integrantes da Congregação, ambos arquitetos e então jovens: Sylvio de Vasconcellos e Eduardo Mendes Guimarães Jr.; este, como o primeiro, também precocemente falecido, tão logo assumiu o exercido efetivo da cátedra foi designado para chefiar o Escritório Técnico de Projetos da Cidade Universitária, afastando-se da regência da cadeira. Para os alunos de então, a figura do Prof. Sylvio se revestiu de características especiais: sua condição de catedrático, sua cultura, sua facilidade em dialogar e se expressar, sua pouca idade, seu renome nacional, fizeram-no elemento natural para receber e entender as inquietações formuladas pelo corpo discente e é cerro que os queixumes e reclames da época em nada diferiam em intensidade dos de agora. Sem paternalismo e sem assumir qualquer postura de gênio, sempre tranqüilo e atencioso, o Prof. Sylvio esteve constantemente em colaboração com as iniciativas do DA que objetivavam reformular ou melhorar as condições do ensino, mesmo em horários e períodos extracurriculares. A sua atuação e o seu apoio, num sem número de ocasiões, foram decisivos para a organização e preparação de seminários, promoção de exposições de trabalhos, vinda de conferencistas, enfim, uma constumaz disposição de perseguir tudo aquilo que, direta ou indiretamente, abrisse qualquer luz ao ensino de arquitetura. É bem verdade que, então um bom número de professores assistentes já se engajara nas proposições reformuladoras e, lado a lado com os alunos, procuravam em amplos debates os fundamentos de uma proposta renovadora. A época era de ebulição, alimentada pelo calor trazido por colegas chilenos ao II Congresso Panamericano de Estudantes de Arquitetura, realizado em 56: uma fascinante experiência fora implantada no Chile, transformando-se o curso num imenso atelier, espinha dorsal para onde convergiam as informações de ordem prática, teórica e técnica. Entretanto, o processo de luta por melhores condições de ensino sofreu a curto prazo solução de continuidade, quando todo o corpo discente se uniu para enfrentar aquilo que na ocasião se configurou o maior dos males.

Mas nem tudo foram flores no que diz respeito ao relacionamento do Prof. Sylvio com o corpo discente. Por proposta sua, a Congregaçãoaprovou a criação de um curso de Belas Artes a funcionar na Escola. Não cabe aqui qualquer análise sobre o assunto, nem questionar as razões que levaram o Professor a tal proposição.

 Ressalte-se apenas que, pela primeira vez, alunos e o professoro se situaram em campos opostos. Aos debates e discussões sobre o tema, sucedeu-se greve geral dos alunos, decretada por unanimidade. Embora o comando do movimento buscasse uma colocação eminentemente teórica e embasada em experiências já registradas na história, o assunto foi objeto de tanta polêmica, cobertura pelos jornais e até mesmo emissoras de rádio que, vez por outra, não pôde ser resguardada à figura do prezado mestre. Contornou o impasse o Reitor de então, mediante convênio entre a firmado o acordo, o Prof. Sylvio já havia se dirigido à Congregação propondo a extinção do curso, não pelo fato de não mais acreditar no provável acerto de sua idéia, mas com a finalidade única de acalmar as tensões e fazer voltar a paz à escola. Se no ano seguinte os alunos recorreram novamente à greve geral, aí não mais se questionava o curso de Belas Artes, mas, tão só, lutava-se pelo cumprimento do convênio pacificador. Nesta segunda greve, de radicalismos e desdobramentos incríveis, o corpo discente já não mais combatia as idéias de um professor, de um arquiteto, de um futuro colega. A favor do Professor cabe destacar que findas as hostilidades, o prezado Mestre sepultou o assunto e manteve as suas tranqüilidade e eficiência de sempre e jamais se valeu de sua posição para tentar perseguições ou revanchismos aos alunos que mais se empenharam ao combate às suas idéias.

Da atividade letiva do Professor ficam recordações substanciais. No recinto da sala de aula as suas explanações primavam pela clareza fruto de um processo racional de encadear as idéias com propriedade. Embora dominando com requintes de perfeccionismo a matéria subordinada à sua cátedra, Arquitetura no Brasil, de antemão informava que seus conhecimentos deveriam ser entendidos como pessoais, não devendo, portanto, pretender esgotar o assunto. Para tanto, estimulava com freqüência, à nível de debates, as porventura tímidas dúvidas levantadas pêlos alunos. Há que se entender bem que o curso de então era fechado e cada disciplina se bastava por si própria, encerrada em um livro texto, quando havia, ou mesmo limitada por apostilas e anotações de aula. O grande mérito do Prof. Sylvio foi não se prender aos alfarrábios e esconjurar sempre as apostilas, buscando um enfoque bem amplo para a disciplina a seu cargo: era comum assim, que um assunto tratado em classe fosse objeto de pesquisas e estudos dos mais variados livros e até mesmo revistas, alguns dos quais até mesmo nem específicos de arquitetura. O gosto pela leitura, pela pesquisa e posterior confronto de idéias a negação de dogmas e conceitos duvidosos já enquistados, eram constantemente levantados em classe. A cadeira de Arquitetura no Brasil abria um painel amplo e livre aos a ortodoxia acadêmica ministrada nas demais disciplinas. Não é demais afirmar que o professor, então, conseguia uma atividade letiva de nível realmente universitário. Mais ainda, a arquitetura não era vista como fenômeno isolado: o professor a inseria no global, destacando suas relações dentro do contexto, o que permitia abordagens históricas, sociais e específicas, estas na medida em que outras atividades artísticas e demais ramos do conhecimento se aliaram e se fizeram presentes às correntes mais específicas do pensamento arquitetônico. A dinâmica que o professor conferia à sua cátedra vinha completar suas posições tantas vezes colocadas em palestras e conferências e que diziam respeito às suas preocupações com o mercado de trabalho do arquiteto. Dentro da realidade brasileira da época, entendia ele que o arquiteto poderia limitar-se como profissional, tornar-se mesmo um mero agente da especulação imobiliária ou simples executor de planos governamentais, caso não assumisse uma postura mais analítica e realística: o arquiteto devia estar preparado para questionar decisões, levantar problemas e soluciona-los. Para tanto, o arquiteto, desde cedo, precisava estar apto ao debate, assumindo posições de cunho marcadamente cultural. E este lastro de cultura devia ter suas formulações nascidas no âmbito do curso na própria Escola, aprofundando-se os ensinamentos teóricos e históricos através de uma visão crítica, incentivando-se o livre debate e o confronto de opiniões.

Algo desconfiado e ensimesmado, como todo bom mineiro, apreciava e curtia ao máximo, porém em termos contemporâneos, todo o imenso legado arquitetônico do período colonial. Tanto que hoje a referência ao termo "mineiridade" se liga de modo indissolúvel ao Professor. É de se louvar, também, a sua disposição em assumir sempre que possível, em caráter interino, as vagas porventura surgidas com o impedimento de qualquer professor da disciplina de planejamento arquitetônico.

Mesmo fora de sua especialidade letiva o Professor conseguiu resultados surpreendentes, na medida em que levou o debate e levantou polêmicas diretamente sobre as pranchetas. A seu favor, também, a eterna disposição para representar a Escola nos congressos e seminários estudantis, chefiando ai caravanas organizadas pelo DA.

Guarda-se também dele seu profundo desgosto, uma indescritível decepção, no momento em que a Direção da Escola, em reunião de Congregação, o ameaçou com fichas do DOPS e vitupérios outros. Já bem antes de 64 o macartismo tupiniquim ensaiava seus primeiros e trôpegos passos, muito embora a democracia por então não fosse adjetivada. Teria assim o Professor já intuído uma espécie de premonição, o que viriam a ser os duros e violentos anos vindouros, pós-64 e, principalmente, pós-68, quando o dedurismo e o puxassaquismo se transformaram em virtudes patrióticas?

Bem antes de seu recente falecimento, o sistema conseguiu matá-lo de forma nada sutil, no instante em que tapou-lhe a boca e impediu-o de lecionar. Com isto, perdeu a Escola, perdeu a comunidade mineira, o concurso de uma grande figura humana dotada de rara inteligência. No fundo, resta a tristeza de ver o país degradar seus homens de talento e abrir mão dos mesmos quando se procura a afirmação nacional. As boas idéias sempre sobreviveram aos regimes mais rudes e arbitrários, mesmo que se afaste, degrade e mate homens de pensamento e ação. O legado cultural do Prof. Sylvio permanece indestrutível: seus ensinamentos, seus livros, sua produção intelectual, continuam firmes e serão sempre de grande valia para as futuras gerações.

 

 



 

 

A ÚLTIMA CRÓNICA DE SYLVIO DE VASCONCELLOS

Aos amigos da "Vão Livre":

Recebi, através de Muriel Vasconcellos, a última crônica escrita por Sylvio exatamente um dia antes de ser hospitalizado no George Washington Hospital, de onde não mais sairia, ficando encarregada de sua divulgação, já que teria sido enviada ao "Estado de Minas"' se houvesse tempo e oportunidade. Ao receber, logo após, um telefonema de Muriel, de Washington, lembrei-lhe a possibilidade deste último texto ser divulgado não pelo jornal, mas sim no número especial de "Vão Livre", dedicado à Sylvio, o que foi imediatamente aprovado. Aqui está a crônica como mais uma prova do amor de Sylvio por Minas e de seu constante interesse pelas atividades culturais também - o sonho dele se tornará realidade?
É o que eu espero muito sinceramente.


Suzy de Mello


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WASHINGTON: São essas coisas que me dão tristeza. Falei do assunto a Murilo Badaró quando veio aos Estados Unidos cerca de dois anos atrás.  Mostrei-lhe a importância da iniciativa para o progresso industrial do Brasil, apontei-lhe a glória que teria Minas em sendo pioneira em matéria, acenei-lhe com a possibilidade de tornar-se figura histórica promovendo o projeto. Murilo estava preocupado com as eleições americanas e sua brilhante carreira parlamentar: não se interessou.

Apareceu aqui, depois, Luciano Peret. Seu esplêndido trabalho de preservação de monumentos arquitetônicos mineiros deu-me largadas esperanças de vir a dedicar-se à idéia. Ofereci-lhe argumentos: não ha progresso sem mentalidade progressiva; estava na hora de se criar no Brasil esta mentalidade, ajuntando exemplos de progressos passados, permitindo que crianças se familiarizassem com o progresso de criação cientifica e levando os adultos a compreenderem como a ciência, através dos tempos, vem fazendo nossa vida mais fácil de ser vivida.

Luciano Peret, muito sério, pareceu-me convencido. Prometeu estudar o assunto e levá-lo para frente. Com o que animei-me de contente e fiquei esperando. Esperei sentado como aconselhava a boa gente de antigamente porque tempo passou e mais notícias não tive da novidade.

Aí escrevi artigo de jornal na expectativa de que viesse a encontrar apoio de quem de direito. Mostrei o que são os museus da Fundação Smithsonian em Washington, com milhões de curiosos a percorrê-los cada ano. Muito mais sedutores e importantes do que a Disneylandias que vêem atraindo a criançada incauta desses brasís. Ao que pude apurar, meu artigo mo produziu qualquer efeito.

Abro hoje um jornal brasileiro da semana passada e me estatelo: foi inaugurado na Bahia o Museu de Ciências e Tecnologia, no parque Metropolitano de Pituassu, cidade de Salvador. Com a assessoria de um tal Walter Winton, do Museu de Ciência de Londres.

Minas perdeu a parada. Por pura preguiça. Porque museus deste tipo são facilíssimos de se fazerem. As peças que expõem não são Picassos de milhões, nem jóias ou móveis antigos de ouro e jacarandá trabalhado. São aparelhos velhos, máquinas de costura, fogões em desuso, carros de bois, engenhocas de moer cana, máquinas de escrever, relógios de peso, bombas de gasolina manuais, tudo que o engenho humano produziu no passado e que evoluiu para formas continuamente aperfeiçoadas.

Pode parecer bobagem tal museu, mas não é. Gerações mais novas, que já encontraram tudo funcionando, mal sabem como funcionam e não percebem o longo caminho percorrido pela tecnologia para nos oferecer as maravilhas de hoje.

Não são cursos de pós-graduação que gera know-how. Antes deles é preciso haver mentalidade e esta só pode existir quando o meio ambiente a estimula. É o que os Estados Unidos ensinam.

Minas perdeu a prioridade que sonhei e persegui. Contudo, ainda poderia fazer agora, não o primeiro mais, senão o melhor museu de tecnologia do país. Tem tudo para tanto, e não me venham dizer que não há dinheiro. Há, e é muito pouco o necessário. O mais é capacidade de iniciativa e boa vontade. Um pouco menos de interesse imediatista e um pouco mais de amor ao progresso.

O que fico esperando de Murilo, Luciano e outros muitos com voz na república. Para que essas omissões de Minas não me entristeçam mais.

Era o que tinha a dizer, pois mais não me foi perguntado.

 Sylvio de Vasconcellos

 


 

 

SYLVIO DE VASCONCELLOS
CURRÍCULO VITAE

• NASCIMENTO : 14 de outubro de 1916 - Belo Horizonte .MG
• FALECIMENTO: 14 de março de 1979 - Washington. D.C.


FORMAÇÃO UNIVERSITÁRIA

• Engenheiro-Arquiteto formado em 1944 pela Universidade Federal de Minas Gerais, tendo recebido medalha de ouro por média excepcional.
• Urbanista formado em 1952 pela Universidade Federal de Minas Gerais, tendo recebido medalha de ouro por média excepcional.
• Doutor com grau recebido em concurso público de provas e títulos para a cátedra de "Arquiteiura no Brasil", da Escola de Arquitetura da Universidade Federal de Minas Gerais, em 1953.

CRONOLOGIA PROFISSIONAL

1978

• Pesquisador principal, tendo recebido uma bolsa de US$ 27.000,00 do "U.S. National Endowment for lhe Humanities" para estudo e versão para o inglês de documentos selecionados do século XVIII referentes a Minas Gerais.

1973/1977
• Trabalhos diversos como consultor da organização dos Estados Americanos (OEA) para assuntos da cultura Brasileira, preservação de patrimônio artístico e histórico e desenvolvimento urbano.
• Consultor da CBS (rede americana de TV) para a preparação de um filme sobre o barroco em Minas Gerais. 
• Conferências diversas e preparação de ensaios sobre arte barroca brasileira e mineira.
• Artigos diversos publicados em revistas internacionais ("Américas", da OEA e "Boletim do Centro de Investigações Históricas e Estéticas de Caracas") e em jornais ( Estado de Minas).
• 4 exposições individuais de desenhos (tinta).

1971/1973
• Especialista em desenvolvimento urbano , Organização dos Estados Americanos em Washington D.C. e na Cidade do México.

1970/1971
•Bolsista da Fundação Guggenheim, para a preparação de um trabalho sobre história

1970 e 1965
• Bolsista da Fundação Calousie Gulbenkian para pesquisa de origens brasileiras livro "Mineiridade", que recebeu um prémio de erudição».

1969/1970
• Diretor Cultural do instituto Cultural Brasil-Estados Unidos, Beto Horizonte/M G.

1939/1969
• Chefe de Distrito (Minas Gerais) do Nacional? do Ministério da Educação e Cultura do Governo Brasileiro, responsável pela supervisão de todos os trabalhos de conservação conjuntos arquitflt&nicos (como Ouro Preto), quando colaborou! com Lúcio Costa e Rodrigo Mello Franco de Andrade.

1948/1959
•Professor da Escola de Arquitetura da UFMG, sendo catedrático a partir de 1953.

1963/1964
•Diretor de Escola de Arquitetura da UFMG.



OUTRAS ATIVIDADES

• 1968 - Professor de Teoria da Arquitetura na Universidade de Brasília.
• 1966 - Professor de Teoria da Arquitetura na Universidade de Santiago do Chile.
• 1961/1963-Fundador e diretor do Instituto Escola de Arquiteiura da UFMG.
• 1960/1962 - Diretor e membro do Conselho do Museu de Arte da Prefeitura de Belo Horizonte.
• 1958/1960 - Chefe do Serviço de Plano Diretor da Prefeitura da Belo Horizonte.
• 1955-Presidente do Departamento de Minas 1951/1952 -Diretor da Escola de Betas Artes de Minas Gerais.
• Membro do Conselho Diretor da Fundação Álvares Penteado, de São Paulo.
• Membro do Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais.
• Membro da Associação de Críticos de Arte do  Brasil e da Associação Internacional de Críticos de Arte.
• Membro do Júri de Arquitelura da IV Bienal de São Paulo (j unta mente com Philip
• Conferencista convidado pelas Universidades de São Paulo, Rio Grande do Sul, Bahia e Rio de Janeiro.
• Citado no "Dicionário das Artes Plásticas no Brasil", de Roberto Pontual, (Ed. Civilização Brasileira, Rio. 1969).


França (1 ano)
Portugal l 2 longas visitas)
Espanha
Argentina 12 visitas)
BoKvia • El Salvador • Honduras- Panamá- Peru
Chile (1 ano e meio)
Costa Rica l 4 visitas)
Gu alemã l a l 2 visitas)
México 116 meses)
Nicarágua (3 visitas)
Vivendo nos Estados Unidos (em Washington, D.C., desde 1969).

 

TRABALHOS E PUBLICAÇÕES


01. "Vila Rica - Formação e Desenvolvimento" - Tese da Concurso para cátedra - 1a. ed.: 1951. 2a. ed. : 1956, Instituto Nacional do Livro, Rio da Janeiro; 3a. ed. : Ed. Perspectiva, São Paulo.
02. "Arquitetura no Brasil" Sistemas Construtivos" • diversas edições, a última publicada pelo Curso de Restauração e Conservação de Monumentos e Conjuntos Históricos, em 1979. Belo Horizonte.
03. "Arquitetura Colonial Mineira". Beto   
04. "Formação de Cidadãs na Região Aurífera Brasileira", publicado inicialmente pela UFMG e depois pela Revista da Faculdade de Filosofia da Universidade de São Paulo.
05. "Pintura Mineira e outros Temas", Belo Horizonte, Imprensa da UFMG. 1959.
06. "Arquitetura : Dois Estudos", Porto Alegre. RS, Instituto Estadual-do Livro. .1968.
07. "Noções sobre Arquiletura" , Belo Horizonte, Imprensa da UFMG, 1963.
08. "Vocabulário Arquitetònico" , Beto Horizonte, Imprensa da UFMG, 1961.
09. "Capela de Nossa Senhora do Ó". Belo Horizonte. Imprensa da UFMG, 1964 (edição de luxo, impresso ã mão, de 500 exemplares, faz parte da Coleção de Obras Raras da Biblioteca do Congresso, em Washington, D.C.).
 10. "Mineiridade - Ensaio de Caracterização" - Belo Horizonte, Imprensa Oficial, 1968. (Este livro, baseado em uma pesquisa feita em Portugal através da Fundação Gulbeokian, recebeu o 1o. prémio na categoria "erudições", em concurso da Prefeitura de Belo Horizonte, 19681.
11. "Minas • Cidades Barrocas". São Paulo, Cia. Editora Nacional, 1968. (Esta edição de luxo Bienal de São Paulo e recebeu o Prémio Jabuti como melhor livro de sua categoria em 19681.


ARTIGOS DIVERSOS, PUBLICADOS EM VÁRIOS JORNAIS

• Revistas "Américas" ( da 10EA - artigo sobre "O Milagre Cultural de Minas Gerais" IFev. 19741 e o número especial - "O Barroco no Brasil" (junho-julho 1974t. com tradução de é publicada em Washington, D.C. USA).
• Centenas de artigos em jornais brasileiros - como o "Estado de Minas", "O Estado de São Paulo" e o "Jornal do Brasil", em diversos


Órgão de Cultura e Divulgação do IAB/MG,
Suplemento mensal do Informador das Construções

Diretor: Benito Barreto
Equipe Editorial: Reinaldo Guedes Machado (presidente do IAB/MG), Álvaro Hardy, Éolo Maia, Joel Campolina, José Eduardo Ferrola, Ronaldo Masotti Gontijo, Francisco Moreira Andrade Filho, Cid Horta, Marcus Vinicius Rios Meyer, Maurício Andrés Ribeiro, Miguel Resende Vorcaro, João Antônio Diniz e Sylvio Emrich de Podestá.

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Número:. 0                               Número:. 1                            

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Vão Livre nasce da ânsia em romper quase duas décadas de isolamento. Começou com uma proposta do colega Éolo Maia que vingou pelo apoio do Instituto de Arquitetos do Brasil - MG e do Informador das Construções, o suplemento mensal pretende comunicar reflexões, trabalhos e dúvidas não só aos diretamente ligados ao desenho do espaço para as comunidades, instituições ou pessoas, mas também dos que, a despeito da demanda atual, ainda se preocupam com o destino das sociedades e seus assentamentos.

Ausência tão prolongada requer novo treino em informar e dialogar. A experiência irá delineando modelo editorial capaz de tornar Vão Livre mais que um nome, realmente uma possibilidade de maior abertura.

Este primeiro número é mais um reencontro de gerações, colegas e amigos. Juntos decidiram homenagear, em tema central, o professor e arquiteto que foi Sylvio de Vasconcellos.

Entretanto, é Ronaldo Masotti Gontijo quem propõe a retomada dos discursos, a partir da análise de possíveis rimas para arquitetura - fechadura, ditadura ou abertura - num convite à poesia há tanto sufocada, mas ainda se manifestando como alarma para o maior drama ecológico de Belo Horizonte, a destruição de sua memória natural. O ensaio tapume e a contribuição dos futuros arquitetos, inaugurando seção fixa para a arquitetura emergente.

Vão Livre se definirá a cada número, a partir da formação da equipe responsável pelo tema central, que estará sempre aberta a novas adesões, evitando-se tornar o suplemento porta-voz de panelinhas se revezando na exibição de seus produtos. Para isso, é fundamental maior número possível de participação e contribuições dos interessados em lançar novas idéias, divulgar trabalhos e mesmo retomar a discussão de assuntos, já publicados.

A equipe editorial atual vem se reunindo as terças, as vinte e trinta horas, na sede do Informador. Apareçam, Vão Livre propõe participação, e é grande a responsabilidade do cidadão arquiteto na construção da comunidade consciente, capaz de decidir, por si e para si, o melhor para o país, a cidade, o bairro, a casa.


(Editorial - Vão Livre No. 0 / Junho de 1979)

última do [blog]

Morar (viver?) Bem.

Morar bem não é nada mais do que uma das premissas para Viver bem. 

Em 2003 escrevi como morar bem é poder desfrutar do urbano em um ambiente calmo (releia AQUI). Há 37 anos atrás, em1966, meu avô já dizia que "uma vida bem vivida não implica em termos castelos, palácios confortáveis léguas de terras, títulos de dívida pública, ricos,  confortáveis e luxuosos automóveis, aviões, helicópteros, altas posições políticas e sociais, porém uma vida tranquila de viver bem."

Heranças de família.

Leia mais...
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