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Vão Livre I - Página 3

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Revista Vão Livre No.0 - Vão Livre I



Arquiteto: RONALDO MASOTTI GONTIJO
Ilustrações: Sylvio Emrich de Podestá


(O vocábulo em epígrafe não se limita à Arquitetura entendida em sua conceituação clássica, mas pretende ir além ao propor uma fusão, tão em moda, das palavras arquitetura e abertura. O texto que vem a seguir busca um enfoque panorâmico da Arquitetura num período de 15 anos, visto a partir do instante em que portas e janelas vão se abrindo, sem, entretanto, descer aos porões...).

Em tempo de abertura, quando por pequenas frestas podem ser vistos os estrebuches e ouvidos claramente os ecos remanescentes do arbítrio, seria injusto e altamente impatriótico atribuir ao sistema implantado desde 1964 um plano sistemático para cercear a liberdade de criação arquitetônica. Assim, devem ser entendidas como carentes de fundamento as notícias de bastidores que pretendem atribuir aos honrados chefes militares e sequazes civis a promoção de uma solerte campanha contra a Arquitetura e seus profissionais. Quando nada, a nobre arte das edificações, juntamente com o samba e o futebol, ainda tem serventia no que se refere à promoção de campanhas ufanistas e à melhoria da imagem externa do país, embora em tempos mais amenos a Arquitetura tenha se libado de forma bem mais profícua à citada imagem. Cidadãos mais indóceis poderão lançar mão das declarações do Sr. Ueki, há alguns anos, quando o sorridente e então Ministro virou seu poder de fogo para o lado dos arquitetos e, sempre a sorrir, despejou chumbo grosso. É sabido que o Sr. Ueki obteve grande destaque, tornando-se mesmo uma figura popular, justamente pelo fato de a realidade brasileira concernente ao petróleo não ter correspondido às suas patrióticas e carnavalescas declarações à imprensa - a tão decantada auto-suficiência redundou nos contratos de risco. O Brasil, infelizmente, não integra a OPEP. Se em matéria afeta a sua competência e ao seu Ministério o Sr. Ueki tem se destacado por suas declarações precipitadas e impensadas - tolos foram aqueles que procuraram enxergar grandes lampejos ou, pelo menos, uma crítica sensata ao desempenho dos arquitetos pátrios. Talvez, pelo fato de sorrir ao fazer pontaria, o Sr. Ueki se viu compelido a apertar os olhos, prejudicando a mira e errando o alvo.

Tanto é, que fica difícil recordar se as perorações ministeriais foram objeto de contestação ou polêmica por parte dos profissionais em alvo. Argumenta-se que caso as questões formuladas tivessem sido proferidas há algumas décadas, 20 ou 30 anos, o assunto renderia bastante, com toda a classe dos arquitetos replicando e treplicando. É de se supor, assim, que as formulações arquiteturais do Sr. Ministro, como as demais, não foram levadas a sério, talvez julgadas inoportunas, ou sem fundamento, ou anacrônicas. Na época, a revista VEJA, sob forte censura, mas com a verve habitual, abordou de forma exemplar a questão. De tudo isto, pode-se concluir que as declarações do Sr. Ueki devem ser entendidas como declarações do Sr. Ueki e representaram uma voz isolada dentro do Governo, não se podendo culpar o Sistema pela intempestividade do Ministro, mesmo porque a máquina do poder tem meios e departamentos mais eficazes quando é necessário acionar medidas corretivas.

Quanto ao Sr. Ueki, louve-se o seu permanente bom humor.

Por outro lado, é sabido que o produto acabado da Arquitetura não apresenta, seja para o usuário, seja para o transeunte que simplesmente o observa, a menor carga ideológica. Arte eminentemente plástica, não figurativa, a Arquitetura, obra acabada, reflete o estilo do autor, quando muito, seu engajamento ou alienação frente à realidade e ao tema proposto, mas não carrega elementos de leitura que permitam identificar se o profissional é adepto desta ou daquela corrente ideológica. Apesar do BNH ou, talvez, por causa dele, a Arquitetura continua, infelizmente, a serviço das classes dirigentes e abastadas, jamais conseguindo atingir a coletividade. A grande massa da população continua sem a possibilidade de conviver com arquitetura, pelo menos sofrível, na medida em que o seu padrão de referência habitacional é o CÔMODO, entidade mágica e instituição genuinamente brasileira.


O CÔMODO


Embora seja uma realidade palpável, o cômodo pode ser definido, mas jamais entendido em sua verdadeira grandeza. Uma explicação rudimentar pode ser tentada, afirmando-se que é composto de quatro paredes levantadas segundo enorme variedade de materiais: tijolos, tábuas (ou taubas, no linguajar pitoresco dos comodistas), chapas de ferro, papelão e tecidos, entre os principais. Para os tetos, as telhas são o material mais usado. Não existem dimensões básicas padronizadas, variam segundo as disponibilidades financeiras. Janelas e aberturas se enquadram na categoria de opcionais.

O espaço interno é único, delimitado pelas paredes e teto, recebendo o epíteto de cômodo propriamente dito e serve de guarida ao marido, à mulher, aos filhos e a um ou outro parente, próximo ou não. Neste espaço único as famílias desenvolvem as atividades básicas: cocção, alimentação, lazer e repouso. As necessidades fisiológicas são normalmente obradas em barrancos ribeirinhos próximos. A atividade sexual, mais comum entre marido e mulher, deve ocorrer segundo a prática tradicional, largamente consagrada pelo uso, mas foge ao escopo do presente trabalho esclarecer aonde, como e com qual freqüência.

Deste modo, estando a Arquitetura limitada a atender às classes favorecidas e tendo a grande maioria da população a sua unidade habitacional específica, o cômodo, é fácil constatar que restou apenas aos arquitetos acompanhar os gloriosos tempos do milagre econômico. A injustiça de se imputar ao Sistema qualquer plano objetivando reprimir a livre expressão criadora dos arquitetos, torna-se mais evidente quando se verifica que a atividade profissional da classe não conflita com a Lei de Segurança Nacional e nem atenta contra a moral e os bons costumes. No auge do milagre a Arquitetura se locupletou em franco contraste com as outras artes. Música, literatura, teatro, cinema e, por extensão, a imprensa como órgão veiculador de idéias, em todos os seus meios de divulgação, foram objeto de contumaz e insidiosa censura, executada com tal requinte e falta de critérios pêlos órgãos de repressão que, em determinadas circunstâncias, pode-se mesmo admitir um paralelo com práticas normais em regimes de há muito sepultos.

 

A INCHAÇÃO DAS CIDADES
 
Ainda em tempos de milagre, o planejamento urbano foi solicitada à exaustão. O desenvolvimento a qualquer preço e o modelo concentrador agravaram a tendência, há muito constatada, relativa à inchação dos grandes centros urbanos. A falta de planejamento e critério por parte do poder público ao incentivar a concentração de grandes empreendimentos geradores de empregos junto aos centros já em vias de saturação, só fez acentuar o aumento das correntes migratórias da população rural, que por falta de condições de vida ao menos suportáveis em seus rincões de origem, agregam-se aos marginalizados da periferia das grandes cidades com o objetivo de simplesmente tentar sua integração na sociedade de consumo.

Por outro lado, um bom mercado de trabalho com a instalação dos grandes complexos industriais, comerciais, etc., e conseqüentemente projetos de novos bairros e grandes conjuntos de habitação coletiva incentivados pelo BNH. O Sistema facilitou, incentivou, financiou e em alguns casos arrependeu-se, presume-se, pois tantas foram as facilidades e tão farto o dinheiro público que os trambiqueiros, brasileiros ou não, não poderiam ficar à margem do processo.

O país cresceu, é inegável e o crescimento foi tão desordenado e os desatinos foram tantos a ponto de despertar já na nação ainda emergente uma consciência ecológica. A degradação da qualidade de vida das cidades, o desmatamento, a poluição das bacias hidrográficas, o aniquilamento da fauna e flora, são hoje denunciados pelo povo, entidades de classe, clero, profissionais liberais, autoridades isoladas. O despertar ecológico ajudou a população a reativar o processo de lutar com clamor democrático por seus direitos e o assunto, hoje, é freqüentemente objeto de estudos e debates em todos os setores da coletividade do país.

Curiosamente, esta posição manifesta-se com mais lucidez nas pequenas cidades do interior ameaçadas pela instalação de indústrias poluentes e onde processos tradicionalmente poluidores são acionados acima dos limites toleráveis.


OS DIAS NEGROS

Em todo este processo de expansão urbana e crescimento industrial o arquiteto sempre esteve presente, projetou modernos e funcionais conjuntos residenciais e complexos industriais primorosos. Individualmente, movimentou-se conforme o esquema traçado pelo Sistema, embora sem uma coonestação aberta ao poder econômico. Atuação pálida, uma vez que a formação do arquiteto lhe confere condições morais, técnicas e humanas para atuar mais decisivamente no sentido de se promover maior justiça social. Nos grandes centros, por exemplo, há que se ater ao fato de que, para cada cidadão que se instale razoavelmente com sua família em habitação servida por todo o equipamento urbano mínimo e indispensável, cerca de 3 a 4 famílias estarão habitando cômodos na periferia das cidades, destituídos das menores condições de conforto, higiene, segurança, etc. e com os respectivos chefes em situação de subemprego. O aumento da criminalidade, os assaltos, a violência, são conseqüências imediatas e acarretam nas classes média e alta a paranóia da segurança: vigilância particular armada, muros altos enclausurando as habitações, sistemas de  proteção eletrônicos, entre outros.

Ora, se a classe dos arquitetos participou ativamente do milagre é de se supor que tudo vai bem, no melhor dos mundos. Não se pode nem mesmo alegar-se vítima das insidiosas patrulhas ideológicas. Entretanto o modelo também se implantou segundo uma ótica maniqueísta - bastando lembrar o famoso "Ame-o ou deixe-o". Vale a pena repensar o período de trevas absolutas, implantado com o Al-5 em dezembro de 1968. Tome-se como referência a música popular brasileira e alguns de seus mais criativos compositores : Chico, Vandré, Caetano e Gil. Não cabe aqui qualquer análise sobre o valor artístico de cada um, nem um enfoque de suas posições. Importa antes a atividade criativa e reformuladora que eles então desenvolviam, empolgando as mais variadas correntes de opinião do país. Não deu outra: nossos prezados compositores foram forçados a procurar plagas mais amenas ou, em linguajar corriqueiro, cantar noutra freguesia.

A respeito, bolsões de contestação ao regime militar, sinceros, mas radicais, chegaram a afirmar que desde os tempos frenéticos dos festivais de música popular, os órgãos de segurança do Sistema passaram a considerar os compositores como elementos "nocivos ao bem estar comum". A explicação dos bolsões em apreço alega a favor o episódio que envolveu o controvertido compositor Sérgio Ricardo: inconformado com os apupos do público presente, num gesto tresloucado atirou seu violão sobre a platéia. O inofensivo e romântico instrumento passou então a ser visto pelo Sistema como arma de alta periculosidade e os cantores e compositores como elementos nocivos à segurança nacional. Tentam explicar assim os exílios forçados, uns mais breves, outros mais longos e sofridos, de nossos mais insignes compositores e trovadores.

Relativamente à Arquitetura é de bom alvitre lembrar a fúria repressora com que o Sistema atacou o renomado patrício Oscar Niemeyer.

Mas o prezado Oscar já era então cidadão do mundo, dotado de força moral suficiente para enfrentar a paranóia coletiva e injúrias contra si assacadas. Enquanto o regime, anacrônico desde o nascimento, apodrece e já exala odores fétidos, Niemeyer vai dando lições de vida e de democracia, lépido na juventude de seus 72 anos, trabalhando com o empenho de sempre.


OS BANIDOS E OS BIÔNICOS

Ainda naquilo que toca íntimo nos mineiros, emerge a figura do nunca suficientemente pranteado professor Sylvio de Vasconcellos, eminente mestre da mineiridade e da Arquitetura Brasileira. Escapa aos domínios da lógica o por quê de tanta perseguição e humilhação, a ponto de forçar-se um simples professor a amargo exílio voluntário, logo quem tão bem entendia e curtia as coisas de Minas.

O arbítrio atacou com fúria incontida em todas as frentes, não se limitando apenas aos cidadãos ligados às artes. Baniu-se, exilou-se, cassou-se e fez-se cair em degradação profissionais liberais, pensadores, educadores, literatos, operários, teatrólogos, cientistas e outros. A auto-suficiência e empáfia dos chefes militares e acólitos civis do regime levaram a população à expectativa de que dos laboratórios do poder emergissem criaturas superdotadas para substituir os cidadãos caídos em desgraça. A nação, ansiosa, continua aguardando, já que a alquimia do Sistema se contentou em forjar senadores biônicos. A coletividade não atinou com as vantagens das forjas palacianas e o sistema de feitura dos biônicos não conseguiu suplantar o velho e eficiente processo da consulta popular.


O AMASSAMENTO

Atuando no atacado com o Al-5, o Sistema não esqueceu o varejo e se fez presente nas universidades com o 477, instrumentos com tal poder repressivo que a lembrança do gênio diabólico do Dr. Sylvana não é gratuita quando se questiona a paternidade dos referidos em apreço. É tônica dos governos ditatoriais obstar debates e livre circulação de idéias assim, o meio universitário veio a pagar alto preço por ser constituído maciçamente de população jovem e dinâmica, sempre ávida de participação efetiva na vida nacional. O aparato repressivo ocupou as faculdades, às vezes até militarmente, incentivou os olheiros e o dedurismo com o objetivo de limitar ao máximo a atuação da classe estudantil frente à realidade da nação. São freqüentes as citações de reitores prepotentes e inábeis no trato com os jovens, e o corpo docente via de regra se manteve assustado e impotente frente ao estado de coisas. Sob a ameaça do 477, o estudante se manteve amedrontado e os diretórios acadêmicos encurralados, sem chances de organizarem congressos, seminários, enfim, qualquer atividade paralela à vida acadêmica. O Sistema jamais tolerou qualquer reunião de estudante fora do recinto das salas de aula. Não é demais afirmar que a vida universitária e a qualidade do ensino se degradaram, pois é difícil conciliar instrução de boa qualidade com regime que não admite discussões e ameaça intervir ante simples rumores de veiculação de idéias. O jovem hoje tem suas razões se porventura se mostra apático, desinteressado ou até alienado. Apesar de tudo e apesar também da Educação Moral e Cívica, a mocidade não decepcionará e continua a ser a grande esperança da nação. Se a vida estudantil se tornou amorfa, o dia a dia da coletividade foi sendo cercado por contornos insustentáveis. Os profissionais liberais, através dos órgãos de classe, constataram a impossibilidade da promoção de reuniões de caráter amplo, congressos e similares, onde se pudesse debater com liberdade as condições de atuação no contexto da realidade brasileira.

A fisionomia inflexível e repressiva acentuou-se passo a passo com uma censura quase medieval, imposta a ferre e fogo aos órgãos de informação. É o momento em que as falas ministeriais, quase sempre divorciadas da realidade, dão as diretrizes milagrosas e o Governo se locupleta de si mesmo, pavoneia-se, e inicia processo de autopromoção sem par nos anais pátrios. A nação extasiada e anestesiada a tudo assiste e a platéia, por vezes, aplaude e pede bis. Enquanto o povo cola aos ouvidos radinhos de pilha, as classes mais abastadas colam nos pára-brisas dísticos ufanistas, adereços e alegorias compatíveis com a ocasião. A época dos milagres, segundo os mais céticos, já passou e remonta aos tempos de Cristo.

Outros, não tão céticos, chegaram a acreditar no milagre. Referem-se, é claro, ao "Milagre dos Peixes", do sempre louvado Milton Nascimento, que também ficou pelo meio, uma vez que a censura vetou a quase totalidade, das letras apresentadas.

O modelo econômico cumpriu à risca as metas traçadas, isto é, piorou a já precária e injusta distribuição de renda e permitiu um significativo avanço das empresas multinacionais. A Transamazônica, segundo projeto original, ainda faz a ligação de lugar nenhum a nenhum lugar. A Ferrovia do Aço, como toda obra executada sem planejamento, mal começada já está sujeita a grandes reformas e reformulações. Os estouros do mercado financeiro, segundo consta, nada mais são que ecos finais do troar dos canhões que deveriam ter sido acionados em março/abril de 1964. E quanto à inflação, nada a declarar.

Permanecem inexplicáveis apenas as razões que levaram as autoridades a preterir o arrojado projeto dos grandes lagos. Fica assim esclarecido que a inundação de grande parte da Transamazônica não deve ser atribuída ao projeto de Mr. Herman Kahn. Justiça se faça e inocente-se o robusto senhor, muito pouco chegado a um ciclamato e entenda-se que a inundação virá por conta da barragem de Tucuruí.

Em meio a tudo isto devem ser entendidas como absolutamente normais a participação de grupos econômicos do gabarito dos Lutfala, Atala, LUME e quejandos. São conseqüências do modelo, na medida em que se fizeram presentes e cresceram sob as bênçãos dos incentivos, do credito e do engodo oficial.


ARQUITETURA E LIBERDADE


 Os arquitetos, parte integrante da nação, viveram e participaram, juntamente com as outras classes profissionais, de todo o processo dito revolucionário. A partir do momento em que um regime se fecha e sobrepõe à Constituição a ideologia da Segurança Nacional amparada por instrumentos de exceção, a Arquitetura é automaticamente ferida – sua característica eminentemente criativa se ressente e se limita na medida em que o livre curso das idéias esbarra em canais de informação obstruídos. Embora jamais tenha 'interferido diretamente junto aos arquitetos com o intuito de cerceá-los, não é demais afirmar que indiretamente a prepotência reinante muito contribuiu para a alienação e queda de nível da produção arquitetônica.

Sofrendo feroz repressão desde os bancos das faculdades, sem receber por parte da Imprensa censurada carga de informações ao menos razoável, impedido de promover debates amplos e consistentes, sem estímulo para pesquisa e o conseqüente confronto das idéias, o profissional, mal saído da universidade, encontra pela frente uma sociedade altamente competitiva e elitista, selvagem mesmo, excessivamente consumista, casuística e imediatista. O país se encontra tolhido, fechado ao diálogo e à apreciação de idéias.

É importante e curioso ressaltar que até a década de 60 eram regularmente editadas no país inúmeras revistas especializadas em arquitetura, dentro de bons padrões gráficos:

ARQUITETURA E ENGENHARIA, mineira, HABITAT, ACRÓPOLE, MÓDULO, BRASIL

ARQUITETURA CONTEMPORÂNEA, entre as principais. Destas, sobrou apenas MÓDULO, de Oscar Niemeyer, com a periodicidade violentamente interrompida por vários anos: a revista, como seu responsável, não recebeu as boas graças do aparelho repressivo e foi declarada subversiva por veicular ideologias espúrias. Além de MÓDULO, circula também CASA E JARDIM-ARQUITETURA, que até o momento ainda não conseguiu fixar uma diretriz editorial. As publicações especializadas, de uma certa forma, jamais constituíram empreendimentos rendosos para seus editores e sempre sobreviveram, principalmente, graças ao idealismo de seus responsáveis, permitindo que os conceitos e os trabalhos dos arquitetos fossem debatidos e analisados, de maneira salutar, por todo o país. A partir do instante em que os custos foram se tornando proibitivos e a veiculação de idéias considerada nociva aos interesses do Sistema, verifica-se ser muito difícil a manutenção ou tentativa de ressurgimento destas publicações. A Arquitetura, como produto final, não contesta os regimes e não traduz qualquer conotação ideológica. Seu exercício, contudo, jamais poderá se desvincular da realidade política e social da nação. Arquitetura e ditadura rimam, quando muito, mas não combinam. O sempre citado episódio da Bauhaus é muito significativo.


O CONSUMISMO E OS PACOTES


Se, de um lado/os veículos tradicionais de informação arquitetônica foram caminhando para a extinção, de outro lado, observa-se o aparecimento de variadas publicações especializadas em decoração. São revistas da melhor qualidade gráfica, altamente sofisticadas e dirigidas ao público certo, cuidando de promover um visual imediatista da sociedade de consumo. Estas publicações não se destacam pelo brilhantismo dos textos incorporados mas, ao contrário, ordenam  palavras de modo a glorificar o lugar comum de soluções tradicionais e, por vezes, alienígenas.  O conteúdo pode ser comparado às mensagens e padrões não muito realistas lançados  diariamente no vídeo, constantes nas novelas  das 6,7,8 e demais horas. Quanto às novelas e às revistas de decoração, tudo bem. Têm pleno direito à existência e devem falar daquilo que lhes compete e que encerra a essência de suas propostas. O público é certo, emergiu do milagre e está plenamente integrado às mensagens de consumo. O que se lamenta apenas é que uma grande parte da população do país permaneça à margem do processo e sem condições materiais e de instrução para conviver, ao menos, com a leitura diária de jornais. Lamenta-se também que uma pequena, porém considerável parte da coletividade, se marginalize na medida em que sua atuação profissional se processa em circuito fechado, desprovido dos meios convencionais de informação e debates.

A arquitetura sempre foi produto do meio e retrato fiel de sua época. Não se estranha assim que sua qualidade e serventia careçam de conquistas significativas durante os derradeiros 15 anos. Participando ativamente de um modelo desumano e elitista, a Arquitetura foi usada e abusada pêlos detentores do poder político e econômico. Em meio às trevas, esteve mancomunada com a especulação imobiliária e a devastação do meio ambiente. O ritmo de Brasil grande forçou os arquitetos a abrirem mão de um processo de prestação de serviços que, romântico e idealista, procurava respeitar a condição humana. Para servir ao modelo, os escritórios se ampliaram e adquiriram status empresariais, sob a ordem geral do imediatismo e do faturamento ou, no dizer de alguns, levantar uma grana. Hoje, em tempos mais amenos e abertos, já se questiona as vantagens e desvantagens desta conotação empresarial da Arquitetura. Se a atividade empresarial da Arquitetura é ou não conveniente, trata-se de assunto por demais polêmico e que escapa às intenções do momento. Em tese, a boa qualidade da Arquitetura independe de ela ser executada por autônomos ou por sociedades empresariais. Certo é que o arquiteto foi forçado a administrar pacotes de serviço ao absorver responsabilidade sobre os projetos complementares, o que se entende e aplaude.

Não se concebe é o fato de o arquiteto ser forçado a compor equipes de trabalho com profissionais estranhos à sua confiança, normalmente impostos pelo grande cliente, estatal ou privado. De pacote em pacote, sempre mal embrulhados, a Arquitetura se envolveu no milagre: muito subserviente, permitiu-se até mesmo ser uma das poucas atividades empresariais em que os honorários relativos ao trabalho profissional fossem fixados e aviltados pêlos clientes.

O arquiteto, como simples instrumento desenvolvimentista, limitou-se a executar tarefas sem chance de abrir os problemas ao debate amplo dos setores da sociedade diretamente envolvidos. Uma panorâmica da Arquitetura dos últimos tempos não apresenta um saldo muito positivo e aos arquitetos, como classe, o futuro certamente cobrará as omissões, os posicionamentos dúbios e a falta de firmeza no confronto com os grandes problemas nacionais que lhes são afetos. A respeito, a discussão de agora está generalizada no próprio âmbito ministerial: distribuição de renda, direito de greve, desrespeito aos direitos humanos, anistia e outros. Os tempos realmente mudaram, a ponto de um dos pais do milagre, o Dr. Delfim e não o Dr. Sylvana, fazer publicamente profissão de fé democrática e se declarar socialista fabiano.

ACOMODAMENTO E DISTORÇÕES, EM MINAS

Em Belo Horizonte, a conjuntura se reveste de aspectos particulares. Capital de um estado conservador e tradicionalista, berço da revolução de 64, a cidade apresentou um crescimento cada vez mais desordenado, recebendo contingentes humanos das mais diversas regiões. De um lado, empresários e aventureiros que vieram se aproveitar do milagre e de outro, levas de populações marginalizadas, das quais o milagre soube tirar proveito. Como os objetivos da revolução bem cedo, dizem, se desvirtuaram, o clima tornou-se propício à manutenção de privilégios, ao enriquecimento rápido e à alienação cultural.

As forças da reação e da repressão, por sua essência, cultivam tradições arraigadas, entronizam o passado e se manifestam através de conceitos anacrônicos. As classes dirigentes, enquistadas ao poder, jamais poderiam negar suas tradições ao recorrer aos arquitetos. O medo de contestar e a necessidade de preservar situações e privilégios forçam um retorno às origens coloniais. Ora, uma Arquitetura dita contemporânea se impõe numa sociedade aberta a partir do momento em que se liberta de parâmetros convencionais, contesta valores estabelecidos sobre critérios duvidosos e passa a formular e reformular o conceito de espaço sob o apoio do desenvolvimento tecnológico, enfrentando a realidade social e política. É muito difícil uma Arquitetura bem fundamentada socialmente conviver com regimes de exceção e sobreviver, pois o campo de ação do profissional está sujeito a pressões incontroláveis. Em Belo Horizonte, seria cômico, não fosse trágico, a obstinação com que os habitantes se agarram aos elementos e formas arquitetônicas do passado. A falta de originalidade e o processo gratuito de compor elementos tradicionais indicam, antes de tudo, um total desrespeito à nossa herança colonial e uma ignorância ímpar do que seja preservar e cultivar os ensinamentos do passado. No fundo, um torpor, algo como um receio coletivo, quase paranóia, certeza infundada de que somente certos materiais e determinadas formas possuem fluidos milagrosos para conferir status e proporcionar boas condições de habitabilidade. O povo, desinformado e extasiado, mais uma vez aplaude e pede bis, o fenômeno se desenvolve pela periferia da cidade, atinge até os espigões.

A especulação imobiliária nunca foi de levantar tarde, dizem mesmo que dorme com um olho aberto sem fechar o outro e investe maciçamente na nova moda. É significativo observar que a questão é de moda, um reflexo da conjuntura, embora se procure dourar a pílula com a patina da tradição. Os mais tradicionalistas, berrando sobre as vantagens de uma estética anacrônica, são usualmente os primeiros a se associarem aos empreendimentos imobiliários predatórios que sistematicamente cuidam de demolir os poucos exemplos significativos da Arquitetura dos primórdios da implantação da Capital. A ótica predatória ainda tripudia: demole-se um prédio velho, em más condições de conservação, em seu lugar edifica-se outro acomodando dezenas de famílias, de aspecto mais velho ainda e a cidade só tem a lucrar com tal proceder. Para cada demolição, um espigão, seja colonioso, modernoso ou mediterrâneo. No fundo, um simples jogo de falsas premissas, onde o importante é levantar uma grana e levar vantagem em tudo, certo?

As forças da reação não são ingênuas e sabem tirar proveito de tudo. Vale lembrar a atuação daquela sociedade muito chegada a um papo firme com a Virgem, integrada por impávidos e aparentemente conspícuos cidadãos de terno, gravata e cabelos à escovinha, perdão, à buscarré, por qualquer pretexto organizando cruzadas cívicas, portando, altaneiros, belos estandartes e bradando aos céus os perigos das artes do capeta e das ideologias vermelhas. É por demais sabido que grupos econômicos e empresas incorporadoras atiçavam o alarido dos cruzados ao mesmo tempo que cuidavam de promover a reação estética, disseminando edifícios coloniais pelas metrópoles do país.

No fundo, cuidavam de levantar uma grana e os garbosos rapazes, em diversas oportunidades, valeram-se dos materiais primeiros da Arquitetura, o pau e a pedra, para enfrentar os dísticos jocosos que a população sempre lhe dirigiu. O brasileiro, muito malicioso, nunca pôde entender como séria e digna de crédito) uma sociedade em que mulher não toma parte. Aliás, no que se refere às artes do demônio, o povo sempre preferiu as amenidades cinematográficas dos americanos, com seus exorcistas e profecias. Quando nada, são muito mais engraçados.


BELO HORIZONTE É UM ESPANTO


Belo Horizonte se notabilizará na história por seu aspecto pitoresco. Sendo uma metrópole nova, sua Arquitetura tem mais idade do que a própria cidade. Pode-se mesmo imaginar o pasmo de futuros e remotos pesquisadores, bem depois do holocausto, ao baixar por estas plagas: causar-lhes-á espécie o confronto da data de fundação do município, descoberta em roto e ancião pergaminho, com os exemplares arquitetônicos que emergirem das ruínas. Aos ilustres pesquisadores restará o eterno dilema sobre quem nasceu primeir : o ovo ou a galinha? Aliás, a Capital apresenta mesmo aspecto de coisa velha e mal cuidada, sem o encanto místico e bucólico das cidades históricas. Se o visual não é de primeira ordem, não muito consistente é a arenga daqueles que procuram teorizar sobre as vantagens do colonial. Entenda-se que devem ser tolerados aqueles que gostam da coisa por gostar e deve-se respeitar o direito daqueles que procuram simplesmente faturar. Quanto a agüentar as sandices dos teóricos tradicionalistas, realmente é dose. A empáfia com que os ditos se armam para teorizar chega ao requinte, de negar conceitos de física amplamente conhecidos e formulados em laboratórios experimentais, passíveis de serem medidos e dimensionados por grandezas definidas e conhecidas. As inverdades assacadas com o pretexto de garantir um respaldo histórico, técnico e teórico do processo saudosista são de tal ordem capciosos que chegam mesmo a iludir grande parte da população. Vez por outra os porta-vozes do processo emitem conceitos que se equiparam em conteúdo aos pronunciamentos do Sr. Ueki.

Alguma razão teve o compositor e poeta Francisco de Holanda quando disse: "Esta terra ainda vai cumprir seu ideal, Ainda vai tornar-se um império colonial". O receio generalizado é de que se inverta o processo de emancipação do país e, em longo prazo, a nação se entrelace novamente com Portugal e se veja reduzida à condição de colônia. É o mesmo poeta que diz em continuação: "Esta terra ainda vai cumprir seu ideal, Ainda vai tornar-se um imenso Portugal”.

Em tempo de abertura é de se esperar que a Arquitetura reencontre seus caminhos. Havendo mais seriedade no enfoque dos problemas nacionais, estabelecida a plena liberdade e o estado de direito, pode-se supor que o Brasil voltará a ser Brasil e se realize como nação. Espera-se dos arquitetos uma maior consciência de classe participante. Pelo menos, que fiquem de olho na metade restante da Serra do Curral.

Arquitetura, bela palavra. Se confrontada com abertura permite preciosa rima e é um convite à poesia. Contudo, é preciso estar atento à licenciosidade poética da prepotência, que se vale de fechadura, ditadura e censura como rimas do mesmo grupo.

última do [blog]


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Morar (viver?) Bem.

Morar bem não é nada mais do que uma das premissas para Viver bem. 

Em 2003 escrevi como morar bem é poder desfrutar do urbano em um ambiente calmo (releia AQUI). Há 37 anos atrás, em1966, meu avô já dizia que "uma vida bem vivida não implica em termos castelos, palácios confortáveis léguas de terras, títulos de dívida pública, ricos,  confortáveis e luxuosos automóveis, aviões, helicópteros, altas posições políticas e sociais, porém uma vida tranquila de viver bem."

Heranças de família.

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