Strict Standards: Only variables should be assigned by reference in /home/podestaarq/podesta.dreamhosters.com/templates/cirrus-yellow/index.php on line 12
Vão Livre I - Página 8

Strict Standards: Only variables should be assigned by reference in /home/podestaarq/podesta.dreamhosters.com/plugins/content/jw_allvideos/jw_allvideos.php on line 42

Strict Standards: Only variables should be assigned by reference in /home/podestaarq/podesta.dreamhosters.com/plugins/content/jw_allvideos/jw_allvideos.php on line 43

Revista Vão Livre No.0 - Vão Livre I

 

 

CARTAS

Minha correspondência com Sylvio de Vasconcellos começou quando ele ainda estava no México e se prolongou até sua morte em Washington. Foram mais de 70 cartas que ele me mandou (não incluo, aqui, cartões de Natal, bilhetes ou recortes de jornais avulsos); nelas, conversamos sobre tudo. Política, arte (arquitetura e cinema, especialmente), futebol, coisas de Minas de que Sylvio sentia muita saudade. Tenho vontade de algum dia, editar todo esse material em forma de livro; será um documento precioso, a registrar o pensamento de um homem que, forçado a deixar seu país, nunca deixou de estar em contato com sua terra e sua gente.

Paulo Augusto Gomes.
--

 

Dec. 28, 1977

Meu caro Paulo, como gostam de dizer os americanos, boas e más notícias em sua última carta. Primeiro as más: a gripe, o atraso da conclusão do apartamento. As boas: o fim do curso e os novos planos. É realmente uma lástima o que se passa com a indústria de construções no Brasil. Nunca um orçamento cumprido, nunca um prazo obedecido. Coisa que virou rotina. É uma pena que vocês não tenham podido ingressar nas festas de natal e no ano novo já no ninho próprio. Paciência. Faço votos que tudo se resolva em breve tempo. E que também a gripe já se tenha ido antes que 78 se instale.

Vi "Manchete" sobre os 70 anos de Niemeyer. Documentário sobre ele parece-me uma excelente idéia. Pondero apenas que o tema sugere dois enfoques distintos: a pessoa e a obra. Joaquim Pedro e Fernando Sabino já tentaram documentários biográficos: Manoel Bandeira, Gilberto Freire e não sei quem mais. Fica um filme de falação que creio de menor interesse público por demais intelectualizado e desprovido de sinestesia (beleza de movimento). Documentário para arquivo. É o que acho. Claro que não havia outra maneira de documentar escritores, cuja obra é abstraída de pensamento.

No caso de Niemeyer dá-se o contrário. Há uma obra real a ser documentada e é ela, principalmente, que importa. Niemeyer é, por sinal, pessoa difícil, áspera, com pouca capacidade de comunicação e de expressar-se. Chega a prejudicar sua obra com as explicações que lhe dá. Não é, como Corbusier ou Frank Lloyd, um doutrinário. É antes um intuitivo. Mais sensibilidade do que raciocínio.

Muito mais importante é, pois, mostrar a obra e não a pessoa. A obra é que é admirável. Neste caso não vejo necessidade de obter sua anuência para o documentário. Sua obra é pública, de domínio público, por ser arquitetura permanentemente plantada em logradouro público. Arquiteto não tem interferência em fotografia ou filmagem de sua arquitetura. Como não tem em seu uso ou contemplação.

Com respeito à obra não creio que comentários paralelos de Niemeyer viriam a contribuir, para um documentário melhor. Talvez contribuísse para o contrário. Tem preferências e manias que certamente restringiriam a liberdade necessária do diretor. É possível que eu me engane, esteja enganado redondamente, mas é essa a impressão que tenho. Quanto ao documentário da obra há vários caminhos ou enfoques a tomar.

Cronologia? Para mostrar sua evolução? Ordem do mais simples ao mais complexo? Residências aos conjuntos argelinos? Espírito barroco que o distingue do "classicismo" corbusiano?

Quanto ao barroquismo é onde entra a raiz de seu profeta, conforme se vê em sua carta. Há um livro importantíssimo na espécie: "Persistência do barroco na arquitetura brasileira" de Leopoldo Castedo. Fundamental.

Susy que me perdoe, mas não vejo relacionamento explorável entre Aleijadinho e Niemeyer. O primeiro era fundamentalmente escultor de ornatos. Sua contribuição à arquitetura limitava a fachadas (fachadista) e, ainda assim discutível - muito. Os dois só se encontram porque ambos trabalharam barrocamente. Um não se filia ao outro. Ambos filiam-se a um mesmo espírito "barroco". O barroquismo de Niemeyer é barroquismo mesmo, genérico; não o barroquismo especifico, caligráfico, de Aleijadinho. O que fez Niemeyer foi reduzir o barroco a seu esquema fundamental, em sensualidade, ilimitação, descontinuidade, valorização de espaços e de massas, eliminando todo o supérfluo. Tendência brasileirista, nativa, de interpretação dos estilos universais. O mesmo que Machado de Assis fez com a literatura. É o que se pode chamar de "características ou peculiaridades constantes" da maneira de ser artística do povo brasileiro. Talvez fazendo das tripas coração, procura expressar o máximo com o mínimo. A forma em si, escorreita, limpa, não adjetivada. Isso começou em Minas colonial (mas não só com Aleijadinho, na arquitetura, na literatura (com Gonzaga), e na música. Porque no litoral brasileiro vinham as coisas prontas da Europa. Em Minas foram feitas aí mesmo, com os poucos recursos disponíveis. Há um artigo meu a respeito, publicado no Estado de São Paulo (que não tenho comigo): "Constantes peculiares da arte brasileira". Acho.

Ora; Aleijadinho entregou-se precipuamente à adjetivação. Ao ornato, à decoração. Era escultor, artesão em princípio. Rococó. E rococó é a decadência do barroco, seus excessos, seu maneirismo e feminina fragilidade. Embora tenha conseguido fazer, ainda assim, obra admirável e ascendente em lugar de decadente (por isso mesmo é gênio) caracterizou-a pela caligrafia, pelo tratamento em minúcia. Com o qual Niemeyer jamais preocupou-se. Niemeyer é, também, escultor. Mas não caligráfico. De massas, volumes, formas. Poder-se-ia dizer, talvez, tratar-se de um barroco-concretista. Onde o concretismo responde à modernidade, ao conceito ao conteúdo. Ficando o barroco na intenção plástica, no emocional.

Acho que estou falando demais. Ponto final. Desculpe-me. É só vontade de estimulá-lo. Entusiasmo por idéias e iniciativas.

Espero que Los Angeles vá além da idéia e se objetive. Para podermos tê-lo aqui.

78 está está entrando, com expectativas e promessas.
Vá em frente. Tudo só tem que melhorar mesmo.

O abraço sempre muito amigo de Muriel e de Sylvio

--

Meu caro Paulo,

sua viagem ao Rio, com Paty , me lembra a hipocrisia da sociedade americana (e brasileira também) revelada na mania de fixar um horário para as saídas noturnas das filhas, com seus respectivos "dates". Ou mesmo diurnas. Aqui se diz, por exemplo: não além das dez horas da noite, ou meia noite. Com isso está salva a honra familiar. Como se não se pudesse fazer amor antes das dez, ou mesmo à luz do sol.  São as chamadas mentiras convencionais de nossa sociedade. Algumas, como esta, tão absurdas, ingênuas, infantis, e inócuas, como outras. Dois sexos opostos podem, por exemplo, se agarrar, abraçar, se esfregarem em público sem qualquer condenação. Com música. Dançando. Se continuam abraçados, depois da música cessada, ê um escândalo. Nisso vivemos.

Enquanto Belo vai vivendo, também, os casos da Dame Margot, das Maristelas e dos Sassos. A comédia humana, como dizia Balzac. A triste comédia humana que nem vale a pena chamar-se tragédia.

Você não estava enganado. É claro que minha opinião de Belo se infere de experiência pessoal. Experiência esta mais válida do que outras, talvez, porque envolvida em uma teimosia que teimosamente procurou desmenti-la. Não sei se já lhe contei, mas por volta de 1940 uma revista de Belo - "Alterosas" - fez uma enquete entre pessoas conhecidas simplesmente perguntando "porque não haviam ainda saído de Minas". Veja você: creio que em nenhum outro lugar do mundo um periódico jamais teria feito uma pesquisa  assim.

Pois foi feita. E pior : todos os perguntados deram desculpas muito profundas para justificar a não saída. Todos. Todos só não haviam saído porque não puderam, em virtude de um motivo ou outro. Todos, menos eu. Disse que não havia saído porque gostava do lugar e achava que valia a pena. Agora lhe pergunto: valeu? "Mudaram os outros, ou mudei eu?". Não lhe vou repetir na lista imensa dos casos referentes. Dos casos mais recentes lhe recordo apenas Carlos Kroeber que é ator consagrado no Rio e era apenas um veado em Belo. Franz Weissman sempre foi desconhecido em Belo; tem hoje prêmios internacionais no Rio. Não há um só nome nacional de mineiro que tenha ficado em Belo. Mas há milhares de nomes nacionais de mineiros fora de Minas.

Você tem também razão quando fala do amor dos mineiros emigrados por Minas. Sou um deles. A gente fica vendo cá fora o valor de muitos mineiros desconhecidos em Minas, mas glorificados fora de Minas. A começar pelo Aleijadinho, passando por Bernardo de Vasconcelos, António Carlos, o liberal, Tiradentes, Pelé, Dantas Mota, Carlos Drumonnd, Rodrigo de Melo Franco e já vou eu de novo fazendo listas. A gente se orgulha do que nasceu em Minas.
 
Do que foi da primeira civilização urbana, industrial, liberal em Iodas as Américas. Minha família chegou a Minas em 1760 e deu, além de Bernardo, um Presidente de Província (primeiro autor da história mineira, um Senador historiador, um Presidente da Província do Rio Grande do Sul e ministro em Portugal, e meu pai, apreciado na “Europa, França e Bahia”, mas apenas um saudosista, fala porque tiveram atuação fora de Minas, Que mais quer você? Claro que falo por experiência própria. Quis teimar e ficar. Fiquei ser Minas. Não o que Minas é, hoje. Onde Teófilo Otoni ninguém sabe quem é, embora seja nome de cidade. Amo a Minas que foi a primeira região do Brasil a escolher em praça pública seu governador (l 710). A primeira das Américas. A primeira a lutar e morrer pela independência nacional. A única a inventar um barroco próprio e a ter por filho António Francisco Lisboa e Manoel da Costa Ataíde).

Amo a Minas que produziu o "Fico" de D. Pedro l e o levou à independência depois reclamada por São Paulo apenas por acidente geográfico. Amo a Minas que derrubou D. Pedro porque feria a constituição. Amo a Minas que inventou o voto secreto em 1930, depois de fazer a revolução, liberal, de 3842. Amo a Minas onde só Tomaz Antonio Gonzaga fez versos de qualidade e a Minas que prendeu um Governador (1720) que exorbitava em arbítrio. Amo a Minas que deu Pelé, Carlos Drumonnd e educou Rubem Braga, Carlos Castelo Branco e Wilson Figueiredo. A Minas que deu o movimento de Cataguazes, literário e cinematográfico. Amo a Minas que produziu Grande Sertão Veredas. Mais amores teria, não fosse tão curto o papel desta carta. Mas não posso amar a Minas que a TFM ou cuja Assembléia Legislativa votou unanimemente recomendação contra o divórcio. Essa não é Minas. São as Gerais inundando as montanhas as montanhas mineiradoras onde germinara a liberdade. Compare você o que existe lá fora com o que há em Minas. Um mineiro - Saboto Magaidi - é secretário de cultura da Prefeitura de São Paulo. Brilhando. Na Secretaria de Cultura da Prefeitura de Belo temos o Sasso. Veja os artistas e críticos de arte de São Paulo e Rio, ou mesmo de Recife, Curitiba e Porto Alegre... Em Belô temos Maristelas, Morgans e grupinhos de elogios mútuos. Amilcar de Castro teve Prêmio da Guggenheim. Agora voltou a Minas. Que está fazendo e e o que fará? Dá aulas. . . E melancolicamente fenece. Compare o gramático Aurélio Buarque com o gramático Mata Machado. É o último pior que o primeiro. Não; apenas está em Minas.

Você me fala de Murilo Mendes. Um amigo muito querido que se foi. Que era em Juiz de Fora? Nada. Fora de Minas está internacional. Para sempre. E não estará, nunca, Emílio Moura, quiçá melhor poeta que Murilo, salvo seja.

Os tentáculos de Minas são fortes. Acredito. Pois foram fortes comigo e me engoliram. Mas não sei de ninguém que tenha saído e fracassado. Ainda hoje estou vendo em “Veja” o caso de um rapaz meineiro que veio estudar economia nos EE.UU. e hoje tem uma loja de flores exilosa em N. Iorque. É sempre assim. É claro que há tempo de rir e de chorar.  E tempo de decisões. Os tentáculos da rotina são fortes e, de fato, representam uma esperança de vida mais tranqüila. Se é tranqüilidade que se deseja.

Não leve a sério o que lhe escrevo. Repito que são mais solilóquios que me saém, reprimidos, quando lhe escrevo. Olho para você como se olhasse para mim mesmo quando tinha sua idade. E me vêm remorsos, arrependimentos tardios. Que expresso nestes solilóquios. Longe de mim estar a lhe dar  conselhos. Apenas lhe digo o que me vai na alma, sentimentos de mim mesmo. Nada mais. Velhice, talvez.

Que não impede ou esmorece o grande afeto que lhe temos, e a gostosura de poder conversarmos de vez em quando. Para terminar como sempre, com este abraço sempre muito amigo. De Muriel e de Sylvio.

Não perca a Volta da Pantera Cor de  Rosa. Não é filmologia, mas dá para rir um bocado,

Gostaríamos de muito conhecer Paty. Cada vez mais nos perece que vocês dois fazem um casa! Invejável.

última do [blog]


Strict Standards: Only variables should be assigned by reference in /home/podestaarq/podesta.dreamhosters.com/plugins/content/jw_allvideos/jw_allvideos.php on line 42

Strict Standards: Only variables should be assigned by reference in /home/podestaarq/podesta.dreamhosters.com/plugins/content/jw_allvideos/jw_allvideos.php on line 43

Morar (viver?) Bem.

Morar bem não é nada mais do que uma das premissas para Viver bem. 

Em 2003 escrevi como morar bem é poder desfrutar do urbano em um ambiente calmo (releia AQUI). Há 37 anos atrás, em1966, meu avô já dizia que "uma vida bem vivida não implica em termos castelos, palácios confortáveis léguas de terras, títulos de dívida pública, ricos,  confortáveis e luxuosos automóveis, aviões, helicópteros, altas posições políticas e sociais, porém uma vida tranquila de viver bem."

Heranças de família.

Leia mais...

Notícias / news


Strict Standards: Only variables should be assigned by reference in /home/podestaarq/podesta.dreamhosters.com/plugins/content/jw_allvideos/jw_allvideos.php on line 42

Strict Standards: Only variables should be assigned by reference in /home/podestaarq/podesta.dreamhosters.com/plugins/content/jw_allvideos/jw_allvideos.php on line 43
mail_icon3 Registre seu email para receber as notícias e atualizações do site.
Nome:
Email:

Strict Standards: Only variables should be assigned by reference in /home/podestaarq/podesta.dreamhosters.com/modules/mod_topcloud17v16/tmpl/default.php on line 239

Strict Standards: Only variables should be assigned by reference in /home/podestaarq/podesta.dreamhosters.com/modules/mod_topcloud17v16/tmpl/default.php on line 350

Strict Standards: Non-static method modtopcloud17v16Helper::censor() should not be called statically in /home/podestaarq/podesta.dreamhosters.com/modules/mod_topcloud17v16/tmpl/default.php on line 353

Strict Standards: Non-static method modtopcloud17v16Helper::getCloud() should not be called statically in /home/podestaarq/podesta.dreamhosters.com/modules/mod_topcloud17v16/tmpl/default.php on line 373

Strict Standards: Non-static method modtopcloud17v16Helper::assembleoutput() should not be called statically in /home/podestaarq/podesta.dreamhosters.com/modules/mod_topcloud17v16/tmpl/default.php on line 383
Copyright