Revista Vão Livre No.1


ARQUITETURA EMERGENTE

Este mês os emergentes estão submersos nas trevas das provas, trabalhos práticos, exames finais, especiais, um típico fim de semestre universitário. Conhecemos também o sufoco desse mar de angústia e compreendemos o sumiço deles, mas navegar é preciso, e como estímulo, publicaremos aqui o discurso do Prof. Rodrigo de Andrade Ferreira, paraninfando os arquitetos de 78.

Pode parecer estranho que eu esteja escrevendo esta carta quando o vosso barco ainda nem desatracou.

Acontece que me sinto, como uma árvore pequena, carregado de emoção e perplexidade, frutos maiores do que consigo carregar sem esta inofensiva fantasia. O primeiro vem de ter esta homenagem me pego o coração desprevenido, o segundo, da imensa responsabilidade de dizer coisas que possam ter alguma serventia na tessitura do roteiro de viagem.

Nos embarques de verdade, repetimos múltiplos recados de última hora, para que permaneçam colados na lembrança de quem vai, por terem sido ditos em situação de limite. Aqui também, não havendo grandes revelações a fazer, tentemos tirar partido dessa condição. Não quero apenas espargir sobre a festa, palavras que a enfeitem da mesma forma efêmera que tiras de papel colorido. Pelo contrário, gostaria de lhes dizer algo que tivesse algum parentesco com instrumento de navegação, com ferramenta de trabalho, com arma ou na pior das hipóteses, com um espinho que fira se a botina estiver muito larga e a sombra fresca.

Antes, portanto do regozijo de um dever apenas cumprido, á bom lembrar que essa nave se parece bastante a uma galeria, com o bojo denso de operários que a fazem e os mais sombrios repartimentos ainda entulhados de todos os tipos de marginais, inclusive os que formam o coro dos descontentes.

É duro talvez o ruído destas palavras, mas não pretendo que seja amargo e muito menos desesperançoso.

Apenas não tenho porque assumir agora atitude magistral, indicando rotas mais seguras ou perigos a evitar, se tenho nítida a noção de que é exatamente a consciência das mesmas dúvidas que nos tornou o diálogo tão irmão. Os problemas a enfrentar são os mesmos que oprimem a todos, sejam novos arquitetos, experientes metalúrgicos ou antigos cidadãos.

Não há nem segredos, nem regras a ensinar, salvo que é proibido adormecer ou deixar que as coisas aconteçam sem assumir a cidadania integral, que a consciência de uma forma ou de outra sempre nos propõe.

SER CONTRA OU A FAVOR
Daí quero dizer com isso que enquanto arrumaram malas, durante este 5 anos, estiveram sem pensar.

Mas o ARBÍTRIO destes últimos tempos nos deixou muito poucas opções: entre a apatia de uma universidade subjugada e a repressão violenta; entre a censura dos meios de comunicação e a euforia acrílica dos programas de TV; entre os altos índices de um desenvolvimento fictício e o fictício desenvolvimento dos índices salariais. Depois de tanto tempo de silêncio é normal que tenhamos a bagagem contaminada. Se o tempo começa abrir, todavia, é sempre possível se aliviar do excesso de peso, substituindo o volume oco por pedras de maior consistência. Haverá, por exemplo, outras oportunidades de discutir sobre a carência de métodos em atual arquitetura, sobre ser uma profissão de formação muito pouco teórica em detrimento de uma prática quase inexistente, sobre ser muito mais fundada em valores de época que em bases científicas. Mas isso não é fundamental agora.

Não tem sentido discutirmos a arquitetura em si, o urbanismo em si, o arquiteto em si. Sob este aspecto, custa-me admitir, nós hoje ficamos prontos.

Mas prontos, custa-me mais ainda, com as qualidades e deficiências que a sociedade atual tem condições e desejo de consumir. Consumir em sentido lato, começando pelo traço, passando pelo braço, pelo baço, chegando à RAZÃO.

Não é ato a que se busca, cada vez mais, preparar o técnico neutro para a resposta ao problema específico e não a pessoa capaz de refletir sobre as questões amplas envolvendo espaço e sociedade.

Não é ato a que todos os caminhos estão institucionalizados para a proteção corporativista do mercado de trabalho existente, mas nos impedem, e a todos os demais profissionais, de pensar a política como responsabilidade também nossa. O fundamental é agora estar atento para compreender a situação e o tempo presentes e a nossa posição com relação a eles. Tempos, por assim dizer, que acordar de duas noites dormidas simultaneamente: uma geral, que obscureceu o país há mais de quinze anos, não nos deixando perceber que fazemos parte de uma sociedade doente, a outra que afeta mais ao arquiteto, que de tanto trabalhar a forma dos objetos, a forma das casas, a forma das cidades acaba quase por acreditar, que através de alterá-las, possa corrigir as patologias das estruturas sócio políticas que as determinam.

é preciso acordar dos pesadelos,,de sermos alheios e humildes cidadãos de segunda classe, de sermos uma categoria profissional que se externa a trabalhar apenas a aparência dos objetos, que vê sua audiência sempre restrita e sua autoridade posta em dúvida.

É preciso acordar da confortável ILUSÂO de podermos ser ao mesmo tempo PROFISSIONAIS CORRETOS e CIDADÃOS INCONSCIENTES. Acima de tudo é preciso estar disposto a trocar sempre a certeza da mão por dúvidas voando. Me dêem a certeza de que a Universidade é uma instituição produtora de conhecimento e eu lhes devolvo a dúvida de que é muito mais a reprodutora da ideologia oficial. Me dêem a certeza de que a técnica é neutra e eu duvido se não está a serviço do capital em sua tarefa de consolidar a dominação social. Me dêem a certeza de que todos os problemas sociais são "desajustes" inevitáveis do desenvolvimento e eu lhes devolvo a dúvida de . que toda crítica contenha apenas subversão e ideologias estrangeiras.

Me dêem a certeza de excelentes planos urbanos e eu lhes devolvo o duvidoso futuro das cidades acorrentadas à propriedade privada. Me dêem a certeza de que o projeto é um trabalho de síntese e eu duvido que esta síntese seja possível antes da análise e crítica profundas dos fatores envolvidos. Me dêem a certeza de que os principais obstáculos ao desempenho da profissão são conseqüência das imperfeições da sociedade e eu lhes devolvo    a dúvida de que algo essencial possa mudar sem que câmbios de natureza estrutural sejam obtidos antes. Me dêem a certeza de realizações do BNH e eu duvido que seu objetivo principal não seja a dinamização da indústria da construção, o comprometimento do mutuário, a redução de sua mobilidade e poder de barganha. Me dêem a certeza da qualidade da arquitetura atual e eu lhes contesto com a dúvida de que se é desta arquitetura que a sociedade necessita. O novelo poderia ser enorme, mas já há fio suficiente com que tecer velas de viajar. A essência do recado está dada : é estar ATENTO E FORTE. Sobretudo não se deixar abater desânimo pela distância muita a percorrer. Fazer o que puder, que de todo modo a HISTÓRIA nunca vai estar pronta. Caras e Caras Corações e mentes.

Por mais procura que fizesse, não consegui descobrir outro segredo que valesse mais à pena, nesta data densa de sentidos. Nenhuma mágica a tirar do bolso. Nenhuma carta da manga. Nenhum coelho, nem cartola tenho. Há mais de 10 anos, em ocasião semelhante, perguntava a meus amigos se deveríamos dizer palavras de fim ou de princípio. Hoje estou convencido de que o que começa é sempre muito mais importante do que o que fica incorporado ao território da memória. Além disso os finais não exigem palavras.Mesmo d adeus mais corriqueiro pode ficar patético.

Para os amigos a porta fica apenas recostada. Mandem notícias e recebam beijos do amigo Rodrigo

ESCOLA DE ARQUITETURA DA UFMG 9 DE MARÇO DE 79

última do [blog]

Morar (viver?) Bem.

Morar bem não é nada mais do que uma das premissas para Viver bem. 

Em 2003 escrevi como morar bem é poder desfrutar do urbano em um ambiente calmo (releia AQUI). Há 37 anos atrás, em1966, meu avô já dizia que "uma vida bem vivida não implica em termos castelos, palácios confortáveis léguas de terras, títulos de dívida pública, ricos,  confortáveis e luxuosos automóveis, aviões, helicópteros, altas posições políticas e sociais, porém uma vida tranquila de viver bem."

Heranças de família.

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