Revista Vão Livre No.1

DEPOIS DAS CHUVAS...

O Município de Belo Horizonte se localiza na Bacia Hidrográfica do Rio das Velhas, no vale de seus afluentes Arrudas e Pampulha-Onça. A Bacia do Arrudas abrange cerca de 20.600 ha, 16.200 ha pertencentes a Belo Horizonte, 2.900 ha a Contagem e 1.500 ha a Sabará. O talvegue do Ribeirão desenvolve-se na direção Oeste-Leste e sua extensão é de 47 km, contados desde a cabeceira à sua embocadura no Rio das Velhas.

Até então é o principal coletor das águas pluviais e dos afluentes dos esgotos sanitários da capital mineira. Sua situação em relação à cidade provocou aumento na urbanização e canalização de seus afluentes.

O problema das enchentes neste vale agrava-se de ano para ano, trazendo conseqüências desastrosas para os habitantes das margens e para o próprio poder público. Tais problemas tendem a se agravar ainda mais, na medida em que se constroem coletores e galerias de águas pluviais à montante.

Por isso, a discussão sobre as causas da grande enchente ocorrida a 8 de fevereiro passado em Belo horizonte ainda não se encerrou. De maneira geral existe a crença de que o fato decorreu de uma chuva excepcional, de pequena duração. Na realidade, a análise dos registros pluviométricos e pluviográficos dos serviços metereológicos localizado no Horto, no Aeroporto da Pampulha e em Contagem, permite algumas conclusões diferentes. Os meses de janeiro e fevereiro apresentaram realmente precipitação total de 902 mm, a maior dos últimos vinte anos. As chuvas de janeiro provocaram a saturação do terreno, tornando-o incapaz de reduzir o volume de água, que passou a fluir rápida e diretamente para os córregos. Numa região com características topográficas e com o nível de urbanização da Região Metropolitana, a saturação configurou-se crítica. Nos primeiros dias de fevereiro houve uma intensificação das chuvas que culminou com precipitação de 51,8mm entre 17,10 e 22 horas do dia 8, ocasionando violento transbordamento do Arrudas que atingiu o próprio centro de Belo Horizonte. De modo geral, analisando-se os pontos atingidos, é possível constatar o despreparo do aglomerado metropolitano para enfrentar esses fenômenos naturais e previsíveis. Por um lado o Plano Metropolitano de Drenagem Urbana elaborado em 1975 pelo PLAMBEL, não vem sendo executado nos prazos previstos por falta de recursos. Por outro, a ocupação do solo urbano se faz a mercê dos interesses do mercado imobiliário, sem que se meçam as conseqüências dessa urbanização. Verificamos, paradoxalmente, que as autoridades permitem o agravamento contínuo da situação por não fixar critérios técnicos adequados para garantir que a urbanização não resulte na necessidade de recursos crescentes para drenagem.

A ocupação de encostas íngremes verificada na zona sul da capital ocupa terreno friável onde grandes cortes e aterros vêm provocando sérias erosões, com carreamento de material para as galerias pluviais e leitos dos córregos. Esses loteamentos geralmente retiram toda a cobertura vegetal natural acelerando o processo erosivo, reduzindo a capacidade de retenção de água da área e produzindo rápida concentração das chuvas nas partes baixas. Como se não bastasse a ocupação de encostas íngremes, ainda se permite a abertura de loteamentos sem implantação da rede de drenagem, agravado pela eliminação da cobertura vegetal e aterro de talvegues, destruindo a drenagem natural. Some-se a isso os bota-foras indiscriminados em todas as áreas da cidade, mesmo junto às calhas dos córregos, composto de material não compactado, facilmente carreável, o primeiro a obstruir as redes de drenagem. As prefeituras vêm permitindo esses lançamentos para evitar que o custo de transporte de terra e outros materiais a longa distância venha onerar mais ainda as obras em execução. Chega-se ao absurdo de não se remover das margens dos córregos a terra retirada pela drenagem feita para recuperação de seus leitos. Isto leva à necessidade de implantação de um serviço sistemático de limpeza das galerias e recuperação dos leitos dos córregos, o que não vem sendo feito por descaso ou falta de recursos.

A situação da área central de Belo Horizonte é crítica. Sua rede de canalização fluvial é antiga e insuficiente para escoar o volume crescente de água que a impermeabilização que vem acompanhando sua ocupação acarreta. Essa área, que apresenta baixas declividades e é cortada pelos meandros do Arrudas, terá sempre lugares sujeitos a inundações, enquanto não se fizer a canalização definitiva d'o ribeirão.

A Lei de Uso e Parcelamento do Solo permitiu a ocupação e conseqüente impermeabilização de 100 por cento da área de cada lote em grande parte da área central, fato já agravado pelo asfaltamento extensivo. Além disto, as barragens do Acaba-Mundo e Santa Lúcia estão completamente assoreadas, sendo que na última foram executadas obras de terraplenagem. Mesmo a barragem da Pampulha não foi feita para controle das cheias, apontando-se várias falhas quanto a sua operação.

Os resultados estão aí aos olhos de todos; as calhas dos córregos e ribeirões assoreadas, as redes pluviais, onde existem, entupidas, as áreas baixas sofrendo inundações cada vez maiores, atingindo atualmente o próprio centro da cidade.

Entretanto, é nas áreas baixas inundáveis e de pior qualidade, naturalmente colocadas fora do mercado imobiliário, que os migrantes vão construir suas precárias habitações, os desempregados e operários cujo salário torna impossível aquisição de um terreno ou pagamento de aluguel O preço que esses pagaram é de conhecimento público conforme noticiaram os jornais.

 

Derly Maria da Silva, 24 anos, três filhos, estava fazendo comida. Há dois dias não chovia e ela já havia deixado o Abrigo São Paulo e, de volta ao seu barraco, às margens do Córrego do Onça, tentava colocara rotina na sua vida. "De repente, o céu começou a ficar preto. Eu vi a nuvem caminhando prá cá. E o tempo fecha, a gente perde até a fome". Miúda, clarinha, com os olhos muito pretos, Derly não pára de falar do dia em que ela chegou (8 de fevereiro de 1979), o dia em que caiu a tromba d'água sobre Belo Horizonte, provocando a enchente mais grave dos últimos vinte anos da história da cidade. "Eu tinha pensado em fazer um macarrão, mas quando vi que "ela" vinha, pensei, vai arroz com feijão mesmo. Dei pros meninos falando - anda, menino, come depressa. Mas não deu tempo. "Ela" chegou e em quinze minutos já estava com água na cintura. Na hora em que "ela” toma conta, eu só corro para salvar meus filhos. Porque eles se a gente perde na água, não acha nunca mais."

("EM TEMPO” no.15, pág. 12 de 15 a 21/02/79).


Essa é a situação dos flagelados mineiros, segundo as regionais do Cedec: Diamantina, 2.747 flagelados; Governador Valadares, 10.253 desabrigados; Bom Despacho 47; Barbacena, 1.661; Montes Claros, 33.646; Ipatinga, 1.498 e Patos de Minas, 36; Sabará, 40 desabrigados; Nova Lima, 200; Betim, 68; Neves, 60.

("ESTADODEMINAS" 1o. caderno, pág.6 8 de abril de 1979)


"As casas que estão sendo construídas no bairro Gorduras, para abrigo dos flagelados da cidade, são de inteira responsabilidade do governador do Estado e da prefeitura de Belo Horizonte".

A informação é do diretor da Chisbel, Marcelo Andrade Neves, que afirmou, ontem, a não participação do órgão Chisbel - na realização da obra. E desmentiu, ainda, que tenha informado, aos quatro vereadores que o procuraram na segunda feira, que a Cohab tenha qualquer participação na construção. A realização da obra foi decidida através de um convênio assinado, diretamente, entre o governador do Estado, na época Ozanam Coelho, e o então prefeito Luiz Verano, no Palácio dos Despachos. A participação da Chisbel se limita à prestação de ajuda em Unheiro e material de construção aos flagelados que perderam suas casas e, quanto à Cohab, a única participação foi a da doação do terreno do Gorduras. Inclusive as quatro construtoras encarregadas das casas foram afastadas de suas funções - Via Expressa - para atender a essa determinação do governador.

("ESTADO DE MINAS " 1o. caderno, pág.5 16 de maio de 1979)


Construídas pelas quatro construtoras da Prefeitura Municipal - Nossa Senhora da Glória, Andrade Gutierrez, Alcindo Vieira e Mendes Júnior - as futuras casas dos flagelados.

("ESTADO DE MINAS" lo. caderno, pág.6 8 de abril de 1979).

 
Passados cinco meses das chuvas, quando 402 pessoas que perderam seus barracos ainda se encontram abrigadas em locais oficiais, a Secretaria Estadual do Trabalho anunciou, ontem, sua intenção de construir casas para todos esses flagelados que estão cadastrados no Grupo Escolar JK e no Abrigo São Paulo. Segundo informações do gabinete do secretário, a Secretaria do Estado do Trabalho e Ação Social já tem a verba para a construção mas está em fase de contatos com "vários setores" para arranjar os terrenos onde serão construídas as casas. Sobre as casas do Gorduras, a Secretaria do Trabalho informou que "não tem nada a ver o conjunto" e nem recebeu do Palácio informação alguma sobre aquelas casas.

("ESTADO DE MINAS" lo. caderno, pág. 14 22 de abril de 1979).


Sem alicerce algum, as peças de madeira foram diretamente fincadas na terra e logo apodrecerão. As paredes são de frágil compensado de madeira, desse tipo que se usa como tapume de obras. A cobertura é de telha de amianto ordinário. A área construída é de apenas 18 metros quadrados e todo o lote (incluindo a cabana) mede somente 34 metros quadrados, quando se sabe que nos conjuntos mais modestos, tipo Cohab ou Profilurb, mede, no mínimo, 180 metros . Portanto, os chamados lotes do Gorduras são cinco vezes menores do que o legalmente indispensável. "Ruas não existem, apenas vielas de, no máximo, 3,90 metros de largura. As cabanas não possuem banheiro, nem vimos espaço para colocá-los.

Não há calçamento, sequer encascalhamento. A erosão já começa a aparecer nas encostas e até nas partes planas do terreno. Tanto a fragilidade das cabanas como o terreno inteiramente desprotegido levam a crer que não vão durar nem mesmo os seis meses calculados por entendidos, como, por exemplo, o Instituto de Arquitetos do Brasil, seção Minas Gerais. São 850 cabanas comprimidas numa área onde caberiam no máximo 200 habitações tipo Cohab.

("ESTADO DE MINAS" lo. caderno, pág.5 10 de maio de 1979).


"Mil vezes pior que o gasto na retificação deste ato criminoso seria deixar como está e permitir que milhares de seres humanos, crianças e adultos passem a viver naquele antro".


("ESTADO DE MINAS" lo. caderno, pág.5 10 de maio de 1979).


O presidente da União dos Trabalhadores da Periferia de Belo Horizonte, Francisco Farias Nascimento, está pedindo ao prefeito e a todos os membros das administrações municipal estadual e também federal que se posicionem no sentido de definirem as questões que dizem respeito "ao vergonhoso Conjunto Habitacional do bairro Gorduras", feito para abrigar os flagelados das enchentes que assolaram o Estado no início do ano. Segundo o presidente da União dos Trabalhadores, na época das chuvas o então secretário de governo assumiu o compromisso de construir um conjunto habitacional no bairro Gorduras. Agora, esclarece, "o que se vê no local são 850 caixotinhos de compensado forrado com telha de amianto, ambos de péssima qualidade, sem iluminação e sem rede de água. E dizem que é para ser habitado".

("DIÁRIO DA TARDE" lo. caderno, pág.2 21 de maio de 1979).


Numa reunião onde estiveram presentes representantes de 50 vilas (inclusive da Grande BH), os favelados de Belo Horizonte decidiram, na última quarta-feira, que não deixarão suas casas para ir para o Gorduras por "hipótese alguma". E começam essa semana a realizar um trabalho de conscientização de todos os favelados para que não se iludam com as palavras daqueles que tentarem forçá-los sob ameaças ou sob promessas a morarem por algum tempo no conjunto do Gorduras". Reafirmando a disposição dos favelados em hão deixarem suas casas sem a indenização definida e de não irem para o Gorduras, o presidente da União dos Trabalhadores da Periferia de BH disse, ainda, que "embora a Chisbel negue, ela continua, ainda essa semana, ameaçando moradores de várias favelas a serem levados para o Gorduras".

("ESTADO DE MINAS" lo. caderno, pág.5 22 de junho de 1979)


Em requerimento que irá apresentar esta semana na Assembléia Legislativa, o deputado oposicionista Luis Otávio Valadares encaminhou pedido ao governador Francelino Pereira para que proceda à demolição do conjunto habitacional do Gorduras, "uma vez que ele não se presta a nenhuma de suas finalidades, dada a sua extrema precariedade". O parlamentar justifica sua solicitação afirmando que "o conjunto habitacional do Gorduras, destinado a abrigar o restante dos flagelados das enchentes, é inabitável. Custa acreditar que firmas conceituadas tenham aceitado edificar tamanha monstruosidade.

("DIÁRIO DA TARDE" lo. caderno, pág.3 28 de maio de 1979)

Belo Horizonte - Contagem

Passada a grande enchente de Belo Horizonte, os flagelados voltaram a se movimentar, acostumados já a não aguardar ajuda de cima. Muitos se acomodaram em casas de parentes, a maioria voltou para as antigas favelas â beira de córregos ou nos altos de morros, como-opção restante. Houve casos de antigos moradores serem recebidos sob violência policial, inviabilizando o retorno pretendido. A violência também se fez presente quando da tentativa de invasão de terrenos públicos. Afinal, a ocasião era propícia para a remoção de parte das favelas da Grande BH, a baixo custo. Valendo-se da emergência, o Governo do Estado realiza convênio para implantar a "solução" do conjunto do Gorduras, a 8 km do bairro São Francisco, em terreno doado pela COHAB. Com término previsto para abril, o aglomerado do Gorduras propunha a construção de cerca de 850 casas, um poço artesiano e iluminação pública nas principais vias de acesso. Segundo a imprensa, os empreiteiros receberiam vinte mil cruzeiros por casa, mais cinco mil cruzeiros referentes á obras de saneamento, perfazendo valor unitário de vinte e cinco mil cruzeiros. O Informador das Construções, de 15 de fevereiro, apresentou orçamento de Cr$ 11.838,50 para a edificação de moradia nos moldes propostos, já computados mão de obra e encargos sociais. O CETEC, órgão ligado â Secretaria de Ciência e Tecnologia do Estado, estimou na época o custo do material a ser empregado em casa de alvenaria, com 3 cômodos, área de 20 m2, inclusive alicerces, laje e telhas francesas, em: Cr$9.129,00 - para alvenaria em blocos de concreto e Cr$ 10.726,00 - para alvenaria em tijolos furados.

Para o caso de Gorduras, dos materiais a empregar, destacam-se: telhas de amianto, paredes em madeirite. De curioso, a inexistência de alicerces, fincando-se as casas diretamente no solo. Área de cada unidade: 17,49 m2. Na ocasião, o Jornal dos Bairros publicou a opinião dos flagelados como favorável ao recebimento de terreno com infra-estrutura e respectivos materiais, ficando a construção por conta deles em regime de mutirão. Renegando a "solução" Gorduras, os marginalizados resistem â ameaça de mudança, como é o caso dos moradores do Perrela, Vila União e favelas próximas, chegando mesmo a afirmar: "Ali é pior que qualquer favela." (V. entrevista pág.20)

Favela e Gorduras apenas se identificam quanto à precariedade do material utilizado nas construções, mas falta ao segundo as características sociais e de coletividade que viabilizam a primeira. A favela é a própria garantia de subsistência, localizada próxima ao mercado de trabalho', na maioria das vezes o biscate e o emprego doméstico, próximo às áreas servidas por infra-estrutura utilizada clandestinamente. Além disso, há o lixo caseiro: móveis e roupas jogados fora e restos de comida que servem para alimentar criação de porcos. Outro aspecto importante diz respeito â constituição da favela como estrutura de apoio ao morador. A própria organização espacial reflete isso: espaços familiares criados entre as casas, quase sempre nos fundos, as portas de serviço se defrontando. Todo este condicionamento típico inexiste no Gorduras, com o agravante de os moradores serem obrigados a grandes deslocamentos até os locais de trabalho, pesando no precário orçamento.



O QUE SE QUESTIONA


Gorduras mostra construções distribuídas em patamares com duas fileiras de casas cortadas por rua de 3,60 m. de largura. A cerca de um metro do limite de fundos das habitações, existem taludes que definem os patamares. A distância entre casas é de três metros e a organização regular e retilínea. Foi justificada como solução provisória, aproximadamente 4 meses, enquanto se estuda o problema de cada uma e a melhor maneira de solucioná-lo", segundo Marcelo Neves, diretor da Chisbel. O otimismo do Sr.Diretor quanto ao prazo seria estimulante, não fosse tão grande a desconfiança da população frente à eternização de soluções 'provisórias. Questiona-se Gorduras principalmente pela precária viabilidade de serviço,onde entrar e sair se evidenciam como possibilidade única. Ora, para o morador de favelas, o espaço externo é fundamental e a casa mais um abrigo, o lugar de dormir. Atividades outras são realizadas no terreiro, onde comadres trabalham batem papo, vigiam crianças, se divertem. Dentro e fora se confundem: o fogão pode estar dentro, mas a bacia de lavar panelas, em geral, está fora. O verde envolve tudo, com bananeiras trepadeiras, couve e chuchu. Há o espaço coletivo, a clareira das "peladas" aos domingos. A bica e o boteco definem áreas comuns, interiorizadas, fatores de coesão, espaços polarizadores. Tudo isso reforça as dúvidas quanto ao acerto do esquema Gorduras, cuja rigidez de malha disciplinada não possibilita qualquer ajuntamento de pessoas, menos ainda convivência comunitária. Reproduziu-se ali "modo de morar" típico de classe média, em dimensões caricaturais, miniaturas de apartamentos em espaço sufocante, massificante. Pode-se mesmo afirmar que é um processo de violentação do favelado, na medida em que avilta sua forma de apropriação do espaço e a manifestação de sua própria cultura. A intenção aparte* dará : entrar no conjunto. Ir para essa (se possível encontrá-la), sair do conjunto, dispersar-se pela cidade à procura de trabalho, não conviver, não se relacionar, é tirada a possibilidade de organização e cada uma como puder, que se recolha em seu pequeno cômodo, face à ausência do entorno da casa, do quintal coletivo, das clareiras. A casa é clausura: apenas uma porta, interior e exterior separados de forma rigorosa.



PROMISCUIDADE

Paralelamente, não há possibilidade de isolamento, uma vez que a distância entre casas e os materiais utilizados não permitem privacidade, é ilustrativo o depoimento de Francisco Nascimento, Presidente da União de Moradores da Periferia de Belo Horizonte: "Calcula-se que serão 850 famílias comprimidas em tão pouco espaço. (V. entrevista). Há perigo de conflito entre vizinhos, a angústia, o desespero permanente e o medo contínuo de incêndios alastrantes, dado o perigo de um fogão dentro de tão apertadas cabanas feitas de material altamente inflamável. Nas favelas, as diferenças de nível do terreno, o agrupamento de casas orientadas de forma diferente, os espaços familiares individualizados, ainda que os afastamentos entre moradias sejam pequenos a organização permite a individualidade e ao mesmo tempo a possibilidade da área coletiva. Constata-se no Gorduras a impossibilidade de reproduzir o próprio modo de viver daqueles a quem se destina.

Para uma situação de calamidade, uma solução da emergência, favorecendo apenas algumas empresas construtoras e configurando ameaça permanente para centenas de famílias que, a duras penas, reconstruíram seus barracos com maior rapidez que esses empreiteiros, que contaram com recursos até excessivos frente ao produto apresentado. O conjunto Gorduras ainda nem estava pronto e a maioria dos flagelados já tinha "quebrado o galho". Se a Chisbel tivesse eliminado os intermediários e entregado diretamente aos interessados o terreno e os materiais como pediram, a solução seria muito mais eficaz, e ainda, muito mais rápida e econômica. Afinal, quem constrói nas grandes empresas são esses mesmos favelados, e ninguém conhece melhor que eles o modo de vida e moradia que lhes convém. Assistimos outra vez à falência das atitudes paternalistas e comprometidas, que levaram ao conhecimento público um vexame maior que a atual atitude da Chisbel, que andou carimbando casas de favelados, lembrando o "xis" nas moradias dos hebreus...

P.S. Quanto se terminou de redigir este artigo, chegou-se ao conhecimento da instauração de uma comissão parlamentar de inquérito para tentar apurar o que foi feito da verba / destinada às vítimas de enchente (V.Estado de Minas de 8/7/79), outro vexame que o Sr. Marcelo Andrade, diretor da Chisbel, poderia ter facilmente evitado. Como em várias outras CN provavelmente será tudo arquivado, pois reconhecer a incompetência do Estado é algo que, nem em tempos de abertura, ainda se teve notícia.

 

Esta entrevista foi feita durante uma reunião comunitária de moradores das vilas do Perrela, Santa Terezinha e União. Ameaçados de i desalojamento devido às obras da via expressa Leste-Oeste, foi-lhes apresentada possibilidade de ocuparem o conjunto dos Gorduras por um1 período de tempo, para posteriormente conseguirem adquirir um lote e se instalar definitivamente.

Esta conversa é uma coletânea de impressões sobre as medidas que são tomadas com relação aos favelados analisadas por eles mesmos, e fala também de suas aspirações e seus problemas.

No final, um depoimento de uma moradora da favela que na última enchente (Fev/79), perdeu sua casa e tudo o que havia dentro.



... Falaram que o favelado não sabia morar Eu sempre penso que á o governo é que não sabe construir...
 
1 - Que impressão tem do Gorduras?

Não somos contra as obras públicas, porque sabemos que as obras públicas são o engrandecimento de nossa BH Somos contra de ir para os Gorduras porque não tem condições para a família morar. Porque os barracões de lá já foram condenados pelos engenheiros arquitetos (sic).

O engenheiro arquiteto é que refere que as casas não tem sobrevivência mais de 6 meses. Aquilo lá não serve nem pro cachorro do favelado morar. Muito embora o favelado seja marginalizado lá em cima, aqui existe muita gente boa, são pessoas de baixa renda, carentes, mas nós também sabemos morar. Esse caso dos Gorduras, esse diretor da CHISBEL, eles tão querendo aproveitar i a mesma coisa de uma palhada - depois que você colhe\ o mantimento, então solta a criação naquele resto que fica lá e eles vão e comem o resto.

Então aquele resto, eles comeram uma verba muito garante que ficou pelos 21 mil e pouco aqueles barracões e tem pessoas aqui que entendem e diz que não ficam mais de 5.000,00. Então, eles querem mandar nós para lá, é a mesma coisa que uma palhada, o negócio não presta não, pode jogar qualquer criação lá para comer o resto. Até para pessoas que foram indenizadas eles estão propondo de ir para lá. Porque se fosse casa própria, eles não queriam dar. As casas lá são emprestadas por 90 dias. Depois de 90 dias, dar um dinheiro para o favelado dar entrada no lote. Os barracões, eles tão doidos pra mandar gente pra lá por que eles comeram a verba, era uma verba que podia ter feito coisa melhor, eles estão querendo ver se ocupa aquilo lá de qualquer maneira e estão propondo que vão dar um dinheiro, mas eu já tenho uma série de experiências e sei a convivência desse diretor da CHISBEL com o favelado, eu não acredito que ele vai dar nem o dinheiro para o favelado dar entrada num lote. Sou um dos presidentes da Vila União e Santa Terezinha e o que nós falamos para os nossos companheiros, é que não vá à CHISBEL nem atender esses avisos.

Moro em favela há 14 anos, sei muito bem que quando vem esses avisos, vem um fiscal percorrer esses barracões, saber quantos cômodos tem, o que é de melhoramento, e esses avisos é exatamente para as pessoas chegar lá e o pessoal da CHISBEL perguntar, saber da vida deles, saber o que que eles tá comendo.

A CHISBEL não tem nada a ver com isso. Eles teriam que saber ou sobre uma casa própria ou a indenização justa de 16.200,00. Desse jeito nós saímos plenamente. Estamos para sair a qualquer momento, desde nos indenizar. Do contrário não saímos de maneira nenhuma. Nós temos nosso advogado Dr. Obregon Gonçalves que trabalha 24 horas por dia para o favelado sem cobrar um tostão. Mas voltando ao problema dos Gorduras, além do espaço ser de apenas 18 m2, sem jeito para crescer, ainda não tem água, luz, e a instalação sanitária é para quatro famílias ao mesmo tempo.  

Todo favelado pode não ter instalação completa, mas tem sua casinha com fossa, alguns até de rede. Lá é muito longe e tem pessoas sem condição para trabalhar, não tem dinheiro para pagar a condução todos os dias. Aqui a gente sempre vai a pé, o serviço é perto.

Até que se tivesse lá nos Gorduras, uma casa própria de 180 m2 de terreno, pelos menos meio lote, as pessoas sofriam uns tempos, mas podiam dar um jeito de arrumar emprego por lá e sobreviver.

Uns tempos atrás, num governo anterior, falaram que o favelado não sabia morar. Eu sempre penso que é o governo é que não sabe construir. Morar nós sabemos, nós não temos é condição.


2 - Saindo daqui, onde pensam ir?

Tem muita gente que se for indenizado em 16.200 irá para outra favela. O nosso lema não é receber a indenização, nós estamos querendo é o PLANHAP- Plano Nacional de Habitação Popular. Nosso interesse é ter casa própria. As pessoas estão dizendo que até o fim do ano teremos que sair daqui, eles enrolam, a prefeitura já disse que deu o terreno, o Plano PLANHAP de Habitação alega que não recebeu o terreno, por isso temos certeza que não vai sair as casas.

Por 16.200,00, nós saímos tranquilamente sem precisar recorrer à polícia, como já ocorreu aqui recentemente. Um nosso companheiro foi levado por pessoas que nem sabíamos que eram da polícia. Foi levado para a CHISBEL, e de lá para o DOPS. Depois de muito falaram que o favelado não sabia morar. Eu sempre penso que é o governo é que não sabe construir.

Ameaçado no DOPS, foi dito a ele para aceitar qualquer acordo que a CHISBEL fizesse, sob pena de represálias. Mas não fugindo da sua pergunta, eu como todo favelado tem desejo de ir para uma casa própria e não para outra favela. A maioria das pessoas não tem condições de ir pra um lote urbanizado. Menos de 15 por cento. Aqui nas nossas favelas, temos 2000 casas. Dessas, somente umas 200 podem ir para um lote próprio.


3 - A indenização de 16.200,00, o que cobre?

É por cada cômodo, sendo que um melhoramento vale como um cômodo. Uma cisterna vale um cômodo, um padrão de luz vale um cômodo. O preço médio de um barraco indenizado fica por 50.000,00 mais ou menos. Mas esse dinheiro é pouco para adquirir uma casa própria. Como o favelado está acostumado com pouco, faz um barraco mais humilde e com o tempo ele pode melhorar. Eu acharia pelo menos, que tem aqui barracões com só um cômodo, de papelão, que não seria justo que este companheiro também recebesse a mesma indenização. Ele deveria receber uma ajuda para sair da favela, pra não dá mais amolação pra CHISBEL.



4 - Como é o processo de remoção do favelado?

Eles vem e tiram as pessoas, mas por não ter quem tome conta, vem outro favelado e ocupa o lote que está vazio. Para ser assim, é preferível a gente mesmo ficar, porque se eu saio, dou lugar pra outro. Nós saímos com a lei mas não para ir para os Gorduras. A CHISBEL tem interesse em desapropriar, por isso ela não põe alguém para tomar conta dos locais desocupados, ela ganha dinheiro com isso, de forma que para um barraco de 60.000,00 para o favelado, a verba é de 80.000,00 para a CHISBEL. Além disso, ela não tem critérios para a distribuição de verbas de emergência, não beneficiando as pessoas que precisam realmente.


5 - Qual o emprego do favelado?

Eu acho que o embelezamento e o engrandecimento de BH nós devemos ao favelado, porque o favelado sendo o de baixa renda, é que é o pedreiro, que começa o prédio, é o que pega todo o pesado. No entanto, a maioria dos favelados passa fome. Na época daquela enchente teve muito gente que ia lá para o Jumbo pegar os restos de comida, coisas estragadas, para poder sobreviver.


6 - Qual foi aqui a conseqüência das chuvas?

Aqui teve muita casa caída e se tiver uma enchente metade da anterior, vai ser bem pior porque deu rachões na terra. Com uma nova chuva o que sobrou vai embora, pelo menos umas duzentas famílias vão embora porque não vai dar tempo de sair, poderá morrer muita gente.


7- Continuam vindo muitos do interior para BH?

Se o governo olhasse para o homem do campo, ele não viria para a cidade grande. Eles vem de lá porque não tem condições. No interior o homem tá ganhando 30 cruzeiro por dia para trabalhar de 6 da manhã às 6 da tarde, e ganha 40 cruzeiros se traz o caldeirão de comida de casa. Os alimentos lá são mais caros e de pior qualidade, e não existe mais de um tipo. Agora, se der condições para o homem do campo viver lá, ninguém vem para BH O homem do campo quando vem para a cidade, para ele é uma coisa de outro mundo.

Ele não acostuma aqui nem com um ano. Ele vive aqui por necessidade e a vida não á fácil pra ele. As mulheres num pode nem ter muito filho porque o dinheiro não dá. Eu achava que o governo devia tomar uma providência, porque tanto o homem do campo chega aqui, ele enfrenta aquele dilema: o emprego é difícil. Muitos vêm para BH e ficam desempregados, uns às vezes por motivo de documentos, ele tem que ter o certificado de reservista pra tirar a carteira profissional, começando por aí as suas dificuldades. No interior devia ter hospital, escolas, etc.

Por exemplo, o fazendeiro põe o agregado na sua fazenda.O agregado é aquele que faz a roça com o patrão. O patrão cobra dele a terça. Se ele colhe 30 alqueires de milho, o patrão tem 10 alqueires sem ter trabalho nenhum, ele não arou o terreno, não fez nada. O homem do campo é geralmente doente, é difícil de ver homem gordo porque ele vive sofrendo, passando fome. Ele alimenta só duas vezes por dia e pouco.

O custo de vida em BH é mais barato que no interior mais de 30 por cento. O povo do interior tá muito desfardado, mesmo devido as faltas de chuva, num tá produzindo mais nada "nas suas terras".

Tem muitos fazendeiros que não gostam de ter o "camarada” nas suas terras para não ter problemas depois. Eles preferem buscar os camaradas na cidade e nas favelas, sendo que o trabalhador tem que viajar todo dia, até 200 km. Se o governo não tá agüentando manter a cidade de combustível...


8 - Existe aqui, algum tipo de assistência de Entidades Filantrópicas?


Durante a época das enchentes, teve distribuição de roupas e alimentos, os quais foram tão bem distribuídos quanto à verba que a CHISBEL distribuiu para os flagelados; distribuíram para pessoas que não precisavam. Os alimentos e roupas não foram distribuídos pela CHISBEL - Ela só dá veneno e polícia para favelado .

A LBA ainda não veio aqui, sendo que existem mães que não alimentam seus filhos direito por falta de recursos.

 

última do [blog]

Morar (viver?) Bem.

Morar bem não é nada mais do que uma das premissas para Viver bem. 

Em 2003 escrevi como morar bem é poder desfrutar do urbano em um ambiente calmo (releia AQUI). Há 37 anos atrás, em1966, meu avô já dizia que "uma vida bem vivida não implica em termos castelos, palácios confortáveis léguas de terras, títulos de dívida pública, ricos,  confortáveis e luxuosos automóveis, aviões, helicópteros, altas posições políticas e sociais, porém uma vida tranquila de viver bem."

Heranças de família.

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