A arquitetura Amorosa de Podestá (entrevista)

Sylvio Emrich de Podestá concede entrevista ao jornalista Marco Lacerda no FrenteVerso. Confira AQUI o aúdio completo do programa e trechos da entrevista que foi ao ar no domingo, 10/10/10, pela Rádio Inconfidência FM, 100,9, de Belo Horizonte. Acesse também novas entrevistas disponibilizadas no arquivo.

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Abaixo trechos da conversa disponibilizados pela revista digital DomTotal.

Marco Lacerda:
Para começar o nosso bate-papo: como surgiu o seu interesse pela arquitetura?

Podestá:
É uma história muito engraçada, talvez você tenha que cortar uma ou duas palavrinhas por ai. Na verdade, eu nem sabia que existia arquitetura. Na minha terra só existia Direito, Medicina e Engenharia. E pronto. Essas eram as profissões. 

Sou um goiano mineiro, nascido em Rio Verde (GO). Hoje parece pertinho, porque tem uma fábrica da Perdigão, mas era um lugar muito ermo, longe. Acho que a única coisa que passou por lá foi a Coluna Prestes. Fora isso, Rio Verde estava lá. 

Sou filho de um dos Emrich, são famílias protestantes muito ligadas ao ensino, todos estudavam e tive que entrar nessa também. Peguei um avião (porque de Rio Verde não se saia de carro, só de avião), fui para Anápolis e morei um tempo lá. 

Para você ver a minha idade, isso foi no final da década de 50. Depois me mudei para Catanduva, não porque meu pai era militar, ele era bancário do BB, mas eles faziam o mesmo tipo de troca (que me levou por este Brasil a fora). 

Ali, fui influenciado por outros colegas que já haviam estudado em Belo Horizonte e fui fazer a tal engenharia, mas não sabia muito bem o que era. Sabia que, de alguma forma, era uma profissão ligada à construção ou à mecânica, um tio era engenheiro mecânico, outro construtor. Então, tinha mais ou menos esse astral, mas não sabia exatamente o que vinha a fazer. 

Era fim da década de 60, tentei estudar em Brasília, que estava recém-nascida, mas na época a cidade havia sido demolida pelos militares. Havia um jornal chamado ‘De Fato’, que ilustrava um pé na porta do Departamento de Química, porque eles achavam que ali se fazia bombas e coisas desse tipo. Não consegui ficar ali, vim pra cá (Belo Horizonte). 

Fiquei um ano estudando para o vestibular em um colégio fantástico, chamado Universitário, mas mostrava bem a sociedade com a qual passei a conviver. Ali dentro se estabeleciam castas, existiam os alunos mineiros, filhos da terra, que estudavam pela manhã. Nós, que vínhamos de fora, estudávamos à tarde. Para começar, só convivi com pessoas do interior: Nova Era, Campo Belo, tudo o que você pode imaginar. 

Consegui passar em engenharia e me enlouqueci, porque eram 500 vagas, destas 496 eram ocupadas por homens (e apenas quatro mulheres). Hoje estamos praticamente empatados (homens e mulheres) dentro da Engenharia, mas a desigualdade me apavorou na época. 

Aquela convivência com machões o dia inteiro, jogadores de futebol (não que odiasse futebol e não fosse um ‘pseudo machão’). O máximo que consegui foi ser chefe do departamento musical do DA. Nessa época, fui à Escola de Música na hora do almoço e comecei a entender um pouco a mineiridade com suas músicas (mas também ouvi muito Janis Joplin, Jimi Hendrix, Led). 

Dessa forma, consegui ficar na engenharia por três anos. Quase morri de tédio. A melhor coisa que fiz foi entrar na biblioteca da Escola, que do terceiro andar para cima era literatura (antigamente não existia a Biblioteca Central). Passei três anos lendo. Foi ótimo, li coisas que não tinha saco para ler em casa, como os sete volumes dos Miseráveis (...). 
Andando um dia pela rua, encontrei um colega do interior, que ao invés de caminhar para a Engenharia foi para a Arquitetura. Ele estava numa tristeza genial: “nossa Sylvio, errei tudo. Aquela Escola só tem alienado, homossexual e um bando de mulher que não quer nada da vida, preferia ter feito engenharia como você”. 

Respondi na hora: “uai, você quer trocar?”. Na época, existia um negócio chamado “reopção”, se você soubesse de alguém que quisesse literalmente trocar, era possível. Então fui para a arquitetura e foi um paraíso! Desenho, as tais mulheres, os meus amigos homossexuais, todas aquelas festas famosíssimas na cidade. A música era inerente, não precisava ficar colocando no DA. Todo mundo era cartunista, tocava violão, era um barato! Tudo que eu queria. 

Gostei tanto que fiquei 13 anos lá. Naquele tempo não havia jubilamento, então fui esticando, comecei a viajar e conhecer o Brasil. Sou goiano, quase virei mineiro durante a engenharia, retomei minhas origens goianas na arquitetura e elas se expandiram para uma visão mais geral do mundo. Isso me fez muito bem. 

Marco Lacerda: Silvio, você tem um método para projetar uma obra arquitetônica? 

Sylvio de Podestá: Não. Tenho um método de traduzir as querências que estão envolvidas nessa obra. Esse método significa pesquisar, ver materiais semelhantes, conhecer outras abordagens. Fazer todos os feedbacks que você puder com o cliente, com a técnica construtiva e com os consultores. 

Depois se dedicar a avaliações futuras das coisas que projetou para aquele lugar. Uma das formas de se fazer isso (que venho utilizando desde 78) é publicar, botar a mão na palmatória. Todos os meus projetos estão não só no papel, mas também na rede. 

Marco Lacerda: Mudando um pouco de assunto: o que é morar bem em sua opinião? 

Sylvio de Podestá: Morar bem, para mim, é um pouco o que eu faço. Moro em frente ao meu escritório, não pego o carro para ir trabalhar. “Mas assim fica fácil”, podem dizer. Mas batalhei por isso. 

Acordo de manhã, conheço o lixeiro, a formiguinha que varre a minha rua, o guarda da esquina, o mecânico ao lado, o caixa do supermercado que é ali pertinho. Quer dizer, tenho uma proximidade com o meu espaço e isso me dá a chance de reproduzir um dito que é muito importante na arquitetura: “a casa é a continuação da rua e a rua é a continuação da sua casa”. 

Assim não jogo lixo no chão, varro o meu passeio. A passagem da minha casa para a rua, a próxima avenida e o próximo bairro, vai sendo feita numa seqüência. Primeiro tenho que dominar esse meu pedaço. Isso é viver bem. Ainda mais quando o meu buteco está a meia quadra! A lei seca chegou tarde para mim, nem para tomar cerveja eu preciso de carro. "


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