Arquitetura no plural.

Entrevista Realizada para a Revista Sagarana n°26, por Cézar Félix.

"O arquiteto que projetou o famoso edifício “Rainha da Sucata” (junto com Éolo Maia), que fica na Praça da Liberdade em Belo Horizonte diz, nesta entrevista, que não existe arquitetura mineira, mas arquitetura feita em Minas Gerais. Sylvio de Podestá opina sobre como explorar as potencialidades turísticas da arquitetura e da arte de Minas e analisa os problemas enfrentados pelas cidades históricas."

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foto: Fernando Grilo

É possível sintetizar arquitetura segundo a visão de um profissional com a sua vasta experiência?


Arquitetura não é síntese, arquitetura é “pluri”, plural. Insere-se uma grande quantidade de matéria para se produzir arquitetura, então acho inviável, impossível sintetizar arquitetura.  Acho que é possível definir arquitetura — apesar de ser uma tragédia eu querer tentar definir arquitetura — mas eu posso me balizar em um cara que todo mundo respeita, Lúcio Costa. Ele tem uma definição bem justa. Diz o seguinte: “Arquitetura é a construção concebida com uma intenção plástica particular, em função de uma época, de um meio, de uma técnica e de um programa determinados”. O Lúcio Costa tira a arquitetura do ranço da engenharia — que é ser pragmático, é resolver um problema, um programa — e insere esta coisa de produzir espaço, a função que este espaço deve ter, no tempo dele, na cultura dele e a partir de um pensamento determinado. Quer dizer: não se faz arquitetura sem querer. Se faz arquitetura intencionalmente. Arquitetura é um fazer intencional, o que exige conhecimento. Só se faz arquitetura se houver conhecimento de várias matérias. 

Por isso que é “pluri”, você parte dos vários lados e das inúmeras formas de ver. O bom disso é que se eu estou em Minas, eu faço arquitetura em Minas; mas eu posso sair daqui e fazer arquitetura no Ceará, na Amazônia ou em qualquer outro lugar. 


Então não existe, por exemplo, uma arquitetura típica mineira…

Esqueça esse tipo de pergunta. Não existe arquitetura mineira! Existe uma arquitetura feita em Minas. Tanto que a Pampulha é feita por Niemeyer que não é mineiro. Mas o fato é que aquele trabalho do Niemeyer só poderia ser construído ali na Pampulha, em Belo Horizonte, em Minas Gerais, naquele momento histórico, na escala do lugar e pelo tipo de cliente que se apresentou na época. Outro exemplo está na Praça Sete, naquele lindo prédio que era a sede do Banco da Lavoura, feito por um excelente arquiteto paulista, o Álvaro Vital Brasil — que também projetou um prédio em Anápolis (Goiás), apelidado de Lavourinha, onde hoje moram meus pais. Andando por Belo Horizonte percebe-se que a cidade recebeu diferentes arquitetos, pessoas que trouxeram a arquitetura para cá. Eu não consigo ver o Edifício Acaiaca (Luiz Pinto Coelho, 1943) na Avenida Paulista, só consigo vê-lo naquela esquina aberta, com os ângulos particularíssimos traçados por Aarão Reis. Talvez só exista em Montevidéu um traçado parecido, como diz Roberto Segre, arquiteto e professor “ítalo-cubano-carioca”. Esses ângulos são incríveis. Mesmo que a arquitetura ali naquela região seja em alguns momentos vagabunda — como, por exemplo, aquele prédio do Top Bar (Tamoios com Afonso Pena), todo de vidro, cheio de ar condicionado —, ela é dramática por causa do ângulo, do traçado urbano. E isso é muito peculiar em Belo Horizonte. Mas, a poucos metros dali existem também outras coisas geniais. O edifício Sulacap, outro exemplo, acho que feito em 1941 por um paulista, meio italiano, meio não sei o que, o Roberto Capello. O Sulacap abria uma perspectiva do olhar rumo ao viaduto de Santa Tereza e desvelava uma nova cidade que estava crescendo pela Floresta (bairro de BH) afora. Hoje, infelizmente, esta vista está tampada por um anexo ridículo que construíram lá e a gente não consegue demolir. Portanto, é preciso interpretar a arquitetura em função do seu olhar. Eu sou de (eu estou em) Minas, mas se eu estiver no Amazonas, vou fazer uma arquitetura para o Amazonas. Você vai sempre fazer a arquitetura do lugar em que você está. Se você está em Minas, você faz uma arquitetura para Minas. Se você está no Ceará, você faz uma arquitetura para o Ceará.


Como educar ou explorar o olhar do turista para a arquitetura que existe em Minas Gerais?

Vamos começar por BH. Quando Éolo Maia e eu resolvemos projetar o (edifício) “Rainha da Sucata” ninguém, na verdade, pediu um projeto pra gente. Eles pediram um banheiro, mas resolvemos inventar um prédio na Praça da Liberdade. 

No “Rainha da Sucata” criamos um programa e dimensionamos o que viria a se chamar Centro de Informações Turísticas. Era o seguinte: como na época estávamos bem conhecidos por causa da discussão sobre o pós-modernismo, muita gente vinha nos visitar. Então, a gente promovia um ‘tour’ pela cidade, mostrando prédios antigos, prédios novos, a Pampulha e tudo mais. Era algo totalmente ligado à arquitetura. Por meio do Centro de Informações Turísticas formulamos circuitos como o circuito modernista, circuito colonial, circuito decô e Vale do Jequitinhonha, dentre outras regiões de Minas Gerais. É claro que muda governo, e a nada vai pra frente. Mas era algo sistemático e nós precisamos deste tipo de circuito dirigido, inclusive porque hoje esse método sistematizou-se. O nosso escritório recebe estudantes de vários lugares, mineiros, gaúchos, paulistas, dentre outros. Recebemos também italianos, gente da Nova Zelândia, espanhóis, poloneses e até um croata já apareceu por aqui. Eles nos visitam para ver a arquitetura de Belo Horizonte, que tem toda uma particularidade, cidade projetada, com poucos anos, etc. Nós traçamos percursos para eles andarem por aí. Na volta, eu falo: não deixem de passar em Ouro Preto, Congonhas, nas outras cidades históricas, passem em Cataguases e fechem o circuito. Se no nosso escritório é assim, imagine um projeto gerido pelo estado com concessões para os agentes de turismo?  O fato é que Belo Horizonte, em particular, está completamente fora deste circuito arquitetônico — ao contrário de cidades como Porto Alegre, Florianópolis e Curitiba, sem falar no Rio e em São Paulo.  

Andar por Belo Horizonte, com o olhar arquitetônico, com o olhar monitorado, é tão fantástico quanto olhar para qualquer outra cidade conhecida no mundo. 


Então o senhor sugere a criação de circuitos turísticos temáticos voltados, especificamente, para a arquitetura de Minas Gerais?

Sim. É possível também fazer estes circuitos arquitetônicos com mais critério também pelas cidades coloniais. Não é só esta coisa de três dias em Ouro Preto, outro dia em Sabará, Catas Altas, Santa Bárbara e o Santuário do Caraça; meio dia em Congonhas, dali para São João del-Rei e depois Tiradentes. É preciso efetivar um circuito arquitetônico pelas cidades históricas, é fundamento básico de qualquer programa de turismo que se preze. Outra coisa: por que até hoje não existe em Minas Gerais o circuito dos alambiques de cachaça? Vamos levar turistas a Salinas, conhecer o Vale do Jequitinhonha. O turista precisa ser atraído para entender porque nesta região se produz a melhor cachaça do Brasil. Além disso, pode-se passar por Minas Novas, por Grão Mogol, que apresentam atrativos geniais. 

É determinante criar roteiros, com critério, supervisionados por profissionais competentes, preparados. Só assim será possível primeiro mensurar e depois garantir um tempo mínimo de permanência do turista. Os baianos fazem um ótimo trabalho neste sentido. Veja o caso de Lençóis, cidade que hoje faz parte de qualquer proposta de roteiro turístico da Bahia. E Lençóis é longe, não é perto não!

É impressionante a diversidade de atrações de Minas Gerais. Nós temos de tudo por aqui! Temos o circuito da Estrada Real, uma ótima idéia, mas temos também outras modalidades de turismo. Eu, por exemplo, não vou a lugar nenhum para tomar banho de cachoeira. No entanto, eu vou ver uma casa, uma rua, uma igreja. Imagine Diamantina! Toda aquela região é rica. Biribiri, que coisa linda! Mais interessante ainda é que este circuito colonial se completa com o circuito moderno. Cataguases, Uberlândia, Uberaba, Triângulo Mineiro, Alto Paranaíba, Montes Claros… tudo é moderno! E Pouso Alegre?  É cidade de primeiro mundo. Juiz de Fora apresenta todas as épocas. Até Viçosa, que é uma cidade meio estranha... Metade é Universidade, metade é uma cidade como outra qualquer. Mas, a Universidade contém ali, arquitetonicamente, todas as épocas. Ela começa quase que ecleticamente, com os primeiros prédios, passa pelos modernistas, os concretões ... Revela uma leitura destas arquiteturas. As potencialidades turísticas que sobram em Minas Gerais só vão se transformar em produtos turísticos com a efetivação e a sustentação de circuitos dirigidos, temáticos. Não há muito o que discutir: o mundo inteiro faz isto. 


Assim como a arquitetura, a arte mineira, ou melhor, a arte produzida em Minas, também tem potencialidade turística?

Para ter potencialidade turística a gente tem que mostrar que existe. Belo Horizonte não tem museu. E nós temos muitos ótimos artistas. Nós usamos um velho cassino adaptado — aliás, o prédio é belíssimo — que vai ter um anexo agora como um pseudo museu. O museu da Praça da Estação, que seria construído num terreno vago que lá existe, não aconteceu. Pode parecer um gasto supérfluo construir um museu, mas não é. Só iremos revelar os artistas que temos, talvez para o mundo, se tivermos um museu decente, específico para expor o talento de muita gente. Hoje nós desperdiçamos obras de artistas de todas as gerações, gente mais nova, gente mais velha, os benjamins, os luchesses, as sartoris, os zavaglis… nós não mostramos nada! O artista tem que estar em algum lugar disponível!  Claro que você pode entrar na internet, lá tem um banco de dados, fotos e coisa e tal. Mas o artista precisa estar disponível, para que as pessoas vejam escala, tamanho. Artista precisa de museu. 

Se não existe museu, a percepção de todos é uma só: só existiu um artista em Belo Horizonte, foi o Amílcar de Castro! O único pintor da cidade é o fulano de tal! O arquiteto de BH é beltrano. Os artistas são muitos, potencialmente talentosos. Eles merecem ter um museu apropriado. Não um museu que seja só uma espécie de lápide, só para guardar obras. Não! Que seja um espaço dinâmico, que produza e reproduza. O centro cultural da UFMG faz esse trabalho, mas é muito tímido. O Palácio das Artes não deixa de ser um espaço importante. Só que lá tem uma certa sofisticação, é estranho o lugar chamar-se ‘palácio’. Poderia ter outro nome. Alguém uma vez já disse que “no meu palácio nunca vai tocar rock and roll”. O Abílio Barreto é pequenininho, mas tá lá, cumprindo a sua função. O Museu de Artes e Ofícios é muito bacana, cumpre com sobras a sua função. Todavia, nós precisamos de mais museus, e, de preferência, espalhados por todas as Minas Gerais. Temos um território que é um país. Todos os artistas precisam estar conectados, com reais chances de aparecer, de cruzar informações. Abrigado nos museus, o artista consagra a sua capacidade de fazer com que as pessoas, o turista inclusive, tenham a oportunidade visualizar o estado de Minas Gerais como um todo. Assim será possível observar todas as influências que conduzem as obras dos artistas mineiros. Afora o exagero, mas vale a comparação, o barro mágico do Jequitinhonha precisa estar em um museu como a Vênus de Milo está no Louvre que, aliás, não é bom exemplo, é o maior ladrão da história mundial... Tem outros, mas o Louvre é o maior deles. Os mineiros são extraordinários escultores, gostam de pincéis, de aquarelas, de desenhos. Como na arquitetura, não podemos rotular uma ‘arte mineira’. É arte feita em Minas Gerais. 


O que o senhor acha do Inhotim, Museu de Arte Contemporânea?

É uma grande conquista, e feito por conta própria. O Inhotim, é inegável, foi agregado ao patrimônio de Minas. Ele traz, a partir do olhar de seu idealizador, uma visão contemporânea da arte brasileira. Existe um acervo e toda uma dinâmica de funcionamento. É um pouco longe, mas é ótimo. Além do mais, tem o belo paisagismo, a arquitetura, as obras de arte, a flora, as árvores… Tudo lá é parte de processo. Funciona. É bacana! 


Como o senhor analisa os problemas enfrentados pelas cidades históricas?

Congonhas tem a obra mais fantástica de Aleijadinho. A Basílica do Bom Jesus de Matozinhos é fabulosa, a relação da igreja com o casario, o que sobrou, o jeito que Aleijadinho colocou os profetas! Você vai subindo vai vendo... a contra linha, com a montanha no fundo... as capelinhas em posição não linear... tem uma ruazinha do lado com seqüência de casinhas que são lojinhas e tal... depois você tem uma ruazinha de pedra e uma igreja lá em baixo. O resto é uma merda! Quer dizer, não vamos falar que o resto é uma merda! Tem a romaria que eu ajudei a restaurar que é muito legal. Mas sabe o que acontece? Nada daquela arquitetura fantástica influenciou as outras construções em volta. Não consigo entender isso... As pessoas admiram tanto, são moradores de lá, e não dão uma mínima resposta que seja! Além disso, ocorreram administrações e mais administrações, todas desprovidas de informações. A não ser aquelas que envolvam as mais esdrúxulas especulações sobre a própria cidade. Do lado de um fabuloso patrimônio histórico, construiu-se um aglomerado vagabundo, baixo, medíocre. Foi isso que aconteceu em todas as cidades históricas. A arquitetura que simboliza a história foi interrompida e não existe mais um processo continuado de ocupação que represente cada época ou cada sentido ou cada pensamento. Por quê? Nunca existiu um plano diretor, uma legislação que preste. Ouro Preto, penso, talvez tenha os maiores problemas. Desde 1970 ouço falar dos planos diretores pra cidade. Como não deixar Ouro Preto inchar? Como dirigir o crescimento? Nunca foi feito nada! E até hoje existe uma dificuldade cavalar para conter todos os tipos de ocupação e de descaracterização. Lembrei-me de algo aterrador: no segundo quebra-molas, na entrada da cidade, tem uma horrorosa Igreja Batista construída com umas pedras almofadadas que não tem nada haver com Ouro Preto. Só porque a Igreja Batista colocou essas pedras, os proprietários que estão reformando suas casas estão usando a mesma pedra da igreja. É uma sucessão de erros que não é interrompida de jeito nenhum. Como fazer? Existe lei para isso. Mas não existem planos que sejam coerentes. Uma cidade não pode crescer eternamente, esse crescimento pode ser interrompido. Se for construir tudo o que a lei permite, Belo Horizonte viraria uma cidade para 20 milhões de habitantes. 

Mas é importante lembrar que Ouro Preto é dinâmica, tem construções de todas as épocas, não é um lugar estagnado. A cidade tem construções modernistas como o Grande Hotel e a Igreja Metodista; tem neoclássicos, alguns foram modificados, outras não. É uma cidade que nunca parou. Tem coisas dos séculos 17, 18, 19 e 20. Um projeto que estamos fazendo, eu e Lila, um piano-bar perto do Grande Hotel é do século 21. Ouro Preto, por nossa conta, já passou para o século 21. É lógico que é preponderante ter todos os cuidados, é absolutamente necessário respeitar toda uma história que ali está. Com a arquitetura é a mesma coisa. É preciso compreender a arquitetura colonial, a arquitetura moderna... Não apenas para reproduzir ou recriar algo. É para criar algo. É preciso deixar como legado uma base teórica ligada à prática para que as próximas gerações possam transformar a arquitetura que farão numa nova arquitetura, sempre pensando em projetar o futuro, as novas cidades, os novos lugares.

Por Cézar Félix
Sagarana

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