POR QUE PUBLICAR? COMO PUBLICAR? QUEM PUBLICAR?

Sylvio E. de Podestá

Qualquer tipo de publicação arquitetônica passa, no mínimo, por estas questões acima nominadas. O menor dos problemas, nos parece, a questão financeira, mas se existem perto de mil revistas de arquitetura no mundo, porque no Brasil apenas duas? (a terceira, AP, foi decretada definitivamente morta na IV Bienal de Arquitetura de São Paulo, 1997).

Porque tão poucas? Uma das questões é não suportar as tradicionais pressões que procuram derrubar este tipo de manifestação, numa justificativa deslavada de que editar sugere poder. Sugere não, é poder de discernimento, de opção, de formatar a informação sob uma ótica editorial. Puxar o tapete é próprio de quem não faz, de quem não publica e não tem o conhecimento de que sua finalidade e, no mínimo, registar sem medo o nosso tempo presente, com olhar específico, com uma postura editorial pessoal e parcial, assinada em baixo.

As dificuldades existem e são muitas, mas algumas e bastante complicadas dizem do despreparo, do não conhecimento de como expor suas idéias, como preparar o material de informação que detém e que só ele, o arquiteto detém, que são informações específicas do processo de criação, abordagem de problemas inerentes, relações pessoais, sociais, financeiras que contém seu projeto.

Por outro lado existe também o medo a uma exposição crítica e dirigida, o que sugere uma não consciência real sobre as qualidades contidas no seu produto. Mas existe também o grupo que se expõe com finalidade de fama pessoal e valorização excessiva da imagem. Estes problemas, de alguma forma, são mundiais, senão vejamos:

“Antes de tudo, quem ameaça a arquitetura atualmente são os arquitetos. Cada um parece lutar cegamente pelo seu próprio sucesso, em vez de buscar solidariedade e discussão.
(...) A afirmação do autor é o reflexo do enfraquecimento da obra. Como ocorre com muitas expressões artísticas, o artista para sobreviver, torna-se mais importante que a própria obra. (...) A arquitetura é hoje uma disciplina em grave crise moral, não interessando a ninguém”.

“Deve-se fazer um esforço em duas direções: primeiro procurar entender por que uma obra é feita e depois como é acolhida. O fato é que as publicações de arquitetura estão cada vez mais parecidas com revista de moda e distantes da sua função original que seria acelerar o processo de transformação da arquitetura”. Vitorio Gregotti, arquiteto e editor da revista Casabella.

Se estes dois parágrafos respondem as duas primeiras questões do título, a questão final e mais complexa é quem publicar?

Toda publicação que pretende fornecer um ponto de vista, tem que ser parcial, senão é apenas informativa, jornalística. No caso presente o Conselho Editorial deve, embasado por um conjunto de informações pertinentes à publicação em questão, fazer suas opções informativas dentro do escopo inicial proposto, escalando qualitativa e quantitativamente os projetos apresentados.

Vejamos então algumas posições:

“O princípio básico do jornalismo é informar. A mim não interessa. Quero escolher, optar. Interessa-me as pessoas com quem parcialmente concordo, porque com elas posso estabelecer diferenças. O que caracteriza a Casabella é o que não publicamos e não o contrário”. Vitorio Gregotti.

“Existe hoje no mundo algo como mil revistas, todas confeccionadas de maneira esplêndida e inteligente, mas funcionando como um aquário habitado por um grande número de peixes exóticos e maravilhosamente coloridos. Fora do aquário está o público, que observa estúpido o peixe exótico e seu estranho movimento ritualístico”. Dietmar Steiner, Revista de Arquitetura/Mídia e Futuro

“Sou um arquiteto que faço revista e posso resumir meu trabalho em uma ação igual quando faço arquitetura e este é meu modo de fazer uma revista. Todo poeta usa um meio para cantar sua musa e nosso problema é como a arquitetura deve cantar sua musa”. Pierluigi Nicolin, revista Lotus.

“A coragem de interpretar é essencial. Mas quem são nossos leitores? Quase exclusivamente arquitetos. A publicação é uma autorepresentação do arquiteto que deve ser visto em um mundo real e como um produto de mercado. Uma publicação deve ser um sensor do presente”. Jean-Paul Robert, L’Architecture D’aujourd’hui.

Nada mal prestarmos atenção por onde andamos ou amarramos nosso simplório cavalinho.

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