1999: Prêmio Usiminas Arquitetura em Aço

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Arquitetos:
Sylvio E. de Podestá,
Mateus Pontes e Renata Rocha

* 1o Prêmio no 2o. Prêmio Usiminas Arquitetura em Aço


SISTEMA DE PRODUÇÃO DE EDIFÍCIOS HABITACIONAIS COM ANDARES MÚLTIPLOS
A crise da habitação - à qual a imprensa de hoje despende uma tão grande atenção não reside no fato da classe operária estar mal alojada e viver em moradias superlotadas e insalubres. Essa crise do alojamento não é particularidade do momento, nem tampouco um daqueles males que sejam próprios do proletariado moderno e o distinguiria de todas as classes oprimidas que o precederam: (...) Para pôr fim à crise da habitação não há senão um recurso: eliminar pura e simplesmente a exploração e a opressão da classe trabalhadora pela classe dominante”. Engels, 1979.
“A casa deve ser uma máquina de morar com economia e eficiência industriais: é preciso criar o espírito de casas em série; o estado de espírito de construir, residir e conceber casas em série”, diz Le Corbusier, sendo que a defesa deste primado da industria sobre o artesanato baseava-se em 3 argumentos principais: barateamento e massificação das construções, qualidade intrinsecamente universal e abstrata e, finalmente, a possibilidade da máquina substituir o homem em algumas horas, reduzindo sua jornada de trabalho.
Este princípio contém particularidades que poderíamos adotar como premissas para um projeto industrializado mas não incorrendo novamente no erro de uma arquitetura imposta, permitindo que o conjunto de indivíduos da comunidade atendida não perca seu caráter particular, seus projetos individuais e independentes.
“Sem o consumo o objeto não se completa como um produto: uma casa desocupada não é uma casa”. (Sahlins, 1974).
Temos, segundo Lauro Cavalcanti, três tendências sobre como abordar a questão habitacional:
1. Corrente idealista, que defende uma postura industrial em relação à moradia. Processos de construção seriada suprindo rapidamente a demanda por casas populares. A solução arquitetônica já existe faltando apenas uma decisão política para aplicá-la.
2. Corrente pragmática, defendendo uma intervenção mínima em termos construtivos. Deixa a cargo da própria população o projeto e execução de suas moradas. Não acredita em soluções rápidas devido à complexidade e diversidade de situações. Atuações em pequena e média escala.
3. Corrente tecnicista, que busca fundamentalmente racionalizar processos construtivos no sentido de possibilitar maior produção de moradias. Ocupa-se de sistemas construtivos não entrando no mérito de sua organização espacial. Propõe módulos cuja distribuição seria efetuada pelos futuros moradores ou arquitetos, por exemplo.
“Num regime capitalista não me atraía essa idéia de habitação mais barata. Atender ao pobre para ele continuar pobre”. (Niemeyer).
A vanguarda, em vários campos, assumia a defesa do desenvolvimento específico de suas linguagens que, temporariamente limitadas às elites das camadas dominantes, seriam posteriormente democratizadas. “A massa ainda comerá o biscoito fino que fabrico”, diziam.
A célula mãe
Valores individuais e urbanos, valores simbólicos e funcionais. A contraposição entre a tradição “culta” e a tradição “popular”, antítese social entre dominadores e dominados, ou entre cultura aristocrática e o folclore faz surgir a superposição dos sistemas de significados associados aos rituais da vida cotidiana, à inter-relação existente entre o sagrado e o profano na vida comunitária e à hierarquização estética dos objetos, formas e espaços que representam as funções.
Desaparecendo o consenso da cultura social e do “valor de uso” da moradia, surge o valor de “símbolo de status” da habitação concedido através da sua autonomia formal. O arquiteto passa a ser figura importante na escolha estilística, mas ainda se evidencia a participação do usuário na seleção dos símbolos.
Quando desaparecem as condições econômicas, as comunidades consideradas de “baixa renda” passam obrigatoriamente a assumir os protótipos oferecidos pelos industriais filantropos ou pelos especuladores da terra e empresários da construção, reduzindo ao mínimo sua capacidade de opção e expressão, ficando seu nível de decisão reduzido aos objetos da subcultura kitsch que a estrutura capitalista lhe oferece. Os ricos cada vez mais ampliam a autonomia e originalidade da célula, convertendo o produto final em paradigma estilístico, transcendendo-se tal qual os promotores da obra.
Uma proposta de projeto realizada para os “pobres” demonstra a distância que existe entre as imagens mentais dos arquitetos e a vida real de uma sociedade que, na maior parte dos casos, não se conhece quanto a seus sistemas de valores, seus esquemas estéticos, seus códigos de comportamento. Essa distância implica o antagonismo entre projeto e vida, entre o objeto “casa” e o que depois ocorre dentro dela. (Ver América Latina, Fim de Milênio de Roberto Segre).
A célula integrada ao contexto urbano
A célula é um componente da estrutura urbana. Quando se fala de habitat nos referimos a todos os elementos que circunscrevem a vida social: espaços públicos, promotores de relações sociais; edifícios para a saúde, a cultura, a educação e produção, etc. A célula é tão somente uma parte do sistema, integrando-se às soluções totais, o que não significa voltar aos ideais de Le Corbusier. Pelo contrário, a vida da sociedade é constituída de forma fragmentada entre o que se estabelece entre a ordem “distante” (planejadores e arquitetos) e o “próximo” (os usuários).
O JUST IN TIME da habitação
Nossa proposta procura estabelecer um paralelo entre um sistema tipo “just in time” adotado por uma montadora de veículos automotores e o sistema “Multiflex” elaborado por Fernando Salinas em Cuba.
“O Multiflex/Salinas estabelece uma clara hierarquização do papel do profissional e dos sucessivos especialistas que intervêm na obra até chegar ao usuário, com seus respectivos níveis de decisão. O arquiteto concebe os elementos do sistema e sua solução geral a nível urbano. De um lado, há uma estrutura de base repetível na horizontal e na vertical que estabelece de forma modular a sustentação da habitação, sem condicionar totalmente sua dimensão; de outro, define-se o conjunto de componentes de divisões internas e externas. Enquanto a célula mãe tem um modelo único, o projetista prepara um número variável de modelos para os painéis e até para o mobiliário, que são livremente selecionados pelo usuário. O dono da casa recebe o espaço ou totalmente montado (de fábrica) ou a estrutura básica e adquire numa loja de materiais de construção as peças que deseja, de acordo com suas possibilidades econômicas e necessidades funcionais.” (Roberto Segre).
Desse modo, há um projeto qualificado para os elementos com alto número de variações materiais, formas, dimensões, cores, etc. selecionáveis pelos futuros moradores. Temos então uma relação direta entre a produção industrial genérica e o nível de decisão individual, como ocorre com os automóveis.
“Significa que a elaboração de elementos em série não significa o desaparecimento da individualidade, do gosto ou da sensibilidade pessoal do usuário, mas o fortalecimento deste através de graus de liberdade conferidos ao morador da célula para que integre inclusive componentes de produção artesanal.” (Roberto Segre).
Estrutura funcional do SISTEMA
1. Criação de um sistema tipo “just in time” de forma a permitir que se estabeleça o “padrão” do cliente comprador (observar mudança de tratamento) antes da montagem do conjunto horizontal/vertical.
2. Criação de “fábricas” de confecção de peças básicas e criação de centros de montagem próximos aos centros regionais pré-escolhidos.
Em alguns casos, se sobrepõem centros de fabricação e de montagem.
3. Criação de “âncoras” junto aos centros de montagem permitindo variações imediatas na escolha dos subprodutos ou componentes diversos como: esquadrias (aço, inox, pvc, madeira); vidros; vedações; coberturas; painéis diversos; equipamentos hidráulicos e elétricos, etc.
4. Protótipo básico CÉLULA MÃE de 37,2 m2 com módulos pré-fabricados ou artesanais de acoplagem gerando habitações de 46,2 m2 e de 55,2 m2 quando verticalizadas.
5. Fechamentos e divisões com qualidade industrial, alta produtividade (cadeia produtiva) de forma a eliminar a “mão de obra custo zero” ou processos de multirão.
Justificativa: o trabalhador de multirão alocado em outras áreas pode
render frutos diversos, inclusive financeiros, eliminando abordagens
paternalistas, dando condições financeiras ao comprador e criando
responsabilidades sobre o produto acabado (fabricante/montador) e
a dívida parcelada assumida (comprador), semelhante aos contratos
de compra e venda de geladeiras, tevês e outros, normalmente pagos
em dia por compradores de renda considerada baixa.
6. Possibilidade de transporte de peças acabadas (célula mãe e/ou célula com acoplamentos) para unidades individuais (exceto equipamentos como de banheiros) e semi-acabadas no caso de verticalização.
7. Possibilidade de financiamento total da unidade (semelhante a apartamentos tipo MRV, Tenda, etc.) ou por partes complementares e direto com os fornecedores/montadores: estrutura metálica, que deve contemplar assessoria sobre fundações ou patrocinar a criação de um centro de assistência e ordenador com instituições acadêmicas afins engenharia da UFMG, FUMEC, etc.; consultor/projetista que daria assessoria sobre vedações/esquadrias, acabamentos de pisos e paredes, semelhante às equipes de assistência técnica dos diversos tipos de equipamentos disponíveis no mercado.
Com isto teríamos custo controlado da unidade pretendida e garantia da sua qualidade por um longo período, eliminando materiais de qualidade duvidosa e tecnicamente mal produzidos.
8. Subsídios na compra coletiva de terrenos improdutivos (impolutos e/ou especulativos) ou terrenos remanescentes em bairros já portadores de infraestrutura urbana, diminuindo custo diretos de uma implantação tipo “rurbana” (rural/urbana) como perda da sua capacidade agroprodutiva e indiretos como vias de acesso, transporte, ETEs, ETAs, prolongamento de redes, etc.
A qualidade da célula mãe, além do que foi citado no item 7., pode vir arquitetônico contra as manifestações individuais ou coletivas destas interferências autônomas. Devem unicamente respeitar formalmente através de uma cartilha que diz das diversas formas de ocupar o imóvel, crescimentos programados ou autônomos, sem o xiitismo arquitetônico contra as manifestações individuais ou coletivas destas interferências autônomas. Devem unicamente respeitar formalmente e/ou espacialmente o sugerido pelo sistema como um todo ou em suas parte (áreas reservadas ao crescimento quando habitações verticalizadas; respeito às cargas previstas; contratos sociais, etc.), abrindo condições a estas manifestações, induzindo-as antes de cerceá-las, possibilitando manifestações híbridas ou conjuntas (mais como caráter ambulatorial do que preservação de um racionalismo pré-arquitetônico. Racionalismo no sentido de querer antever questões que o próprio usuário poderia interpretar de outra forma).
9. Implantações coletivas não só verticais mas verticais e escalonadas (superposições sucessivas ou balanços).
Como a célula mãe é um produto de mercado e não de uma classe específica, ela deve permitir ser industrializada de forma a aproveitar sua base teórica e estrutural (como o chassis do automóvel) para outros diversos produtos (mesma família) e suprir demandas para todo tipo de faixa social, como por exemplo:
Hotéis de turismo, com chalés individuais ou coletivos personalizados
com acabamentos regionais; alojamentos semifixos em campings;
acampamentos científicos alojamentos, laboratórios, cozinhas,
instalações sanitárias, etc.; apoio administrativos e residencial a obras
de engenharia na montagem de cidades temporárias, canteiro de
obras, etc.; apart hotéis verticais, horizontais ou escalonados e outros
que, mais uma vez, como a industria automobilística, possam oferecer
acabamentos tipo L, LS, LX, EX, etc. As centrais fabris e os centros
montadores se transformarão em verdadeiras fábricas, diminuindo
custos gerais, permitindo acesso às diversas classes sociais e usos,
criando inclusive revendedores de “casas usadas”.
10. Fornecedores paralelos de sub-produtos como caixas d'águas individuais e coletivas, fossas, coletores solares e células fotoelétricas, centrais de lixo recicláveis, estações de tratamento de esgoto e água, etc.
11. A possibilidade de desmontagem, mesmo vertical, possibilita a mudança de sítio por necessidade de remoções como desapropriações e outras.
Estrutura, lajes, vedações e acabamento
A estrutura da célula mãe é formada por perfis tipo caixa (junção de dois perfis “U” enrijecidos) para os pilares e vigas dos módulos de borda e, perfis caixa e “Us” enrijecidos simples para vigas e pilares, chapa dobrada, USI-SAC-41, soldados e com enrijecimento dos nós através de chapa triangular soldada.
Estes componentes formam um paralelepípedo estrutural semelhante a uma vierendeel tridimensional, transportável em partes, semimontado (estrutura montada), montado (estrutura e laje de piso) ou montado e vedado (totalmente acabado) conforme sugerido no processo de formação da cadeia produtiva que viria a compor o sistema proposto.
As lajes podem ser de concreto (vigas pré-moldadas ou em placas tipo Struder), lajes mistas, “steel deck” e painéis de concreto celular tipo CCA.
Para as células montadas e montadas/vedadas, sugerimos como laje o “steel deck” com o lançamento do concreto após o transporte para o terreno onde serão instalados.
As vedações, dentro das diversas possibilidades de participação do futuro morador/proprietário no sistema ou do uso diferenciado da célula e seus componentes que não na habitação de “baixo custo”, podem ser as mais diversas possíveis, da mais artesanal a mais industrial. Mas como estamos falando da possibilidade de um sistema onde unidades podem ser enviadas quase totalmente acabadas, tipo CCA (concreto celular com largura de 50cm), de gesso, compostos, de concreto e isopor ou mesmo uma combinação entre eles ou entre eles e a alvenaria convencional.
Os acabamentos também estão sujeito ao tipo de usuário e/ou de utilização da célula mãe e seus componentes.
Pisos podem ser de cimento natado, concreto polido, cerâmico, melamílico, emborrachado, madeira flutuante, com ou sem rodapés, acabados pré ou pós-montagem.
As vedações e se painéis podem vir acabados ou podem receber pintura, revestimentos diversos e de acordo com PAR, usos diferenciados etc., aplicados pré ou pós montagem dos edifícios.
Esquadrias diversas, sendo para as habitações de “custo mais baixo” sugerido o uso de produtos encontrados no mercado, de perfis laminados tipo “L” e “T”, de chapa dobrada de aço e/ou de inox, de perfis de PVC e dependendo da região, madeira de florestas recicláveis, podendo chegar a vedações com vidro temperado semelhante a Johnson House, em New Canaan, Conecticut, EUA.
Tipos de edifícios
Casas duplex: dois andares com diversas possibilidades de elementos agregados;
Edifícios verticais de 2, 3 e 4 andares;
Edifícios com balanço: 3 ou 4 andares;
Edifícios escalonados: com avanço de um módulo da célula mãe em declive ou aclive;
Edifícios múltiplos ou contínuos: acoplagem múltipla de células mãe e módulos básicos formando grandes estruturas contínuas;
Edifícios verticais de grande porte: em superposições simples, múltiplas ou superposições atirantadas, etc.
Conclusão
O que pode ser visto de imediato é que esta proposta é uma análise de experiências e tentativas (algumas com sucesso) de diversos arquitetos, entidades e governos.
Em sua dimensão material, a habitação/moradia constitui o capital e o produto de um processo técnico-econômico em que o usuário intervém como consumidor e representa fundamentalmente uma parcela econômica.
Para o mercado imobiliário as famílias são designadas pelo número de habitantes ou pelo número de “cômodos”, sendo sua única base de avaliação do mercado, esquecendo que este consumidor é o verdadeiro motor da indústria de construção.
Para a maioria das famílias, a habitação é importante tanto no aspecto material como no imaterial, preocupada que está com sua existência, ficando os menos favorecidos com uma imensa carga socioeconômica, além de existirem famílias para as quais, financeiramente, não existem as mínimas condições de habitabilidade própria.
É necessário portanto uma garantia institucional que possibilite às pessoas satisfazer sua necessidade habitacional de acordo com as leis sociais em vigor, conseguindo assim que as habitações sejam tratadas como uma mercadoria a mais do mercado e com chances de serem adquiridas. O que temporariamente está limitado às elites das camadas dominantes possam a ser agora democratizadas.
Arquitetos
Sylvio E. de Podestá, Mateus Pontes e Renata Rocha
Projeto
1999

SISTEMA DE PRODUÇÃO DE EDIFÍCIOS HABITACIONAIS COM ANDARES MÚLTIPLOS

A crise da habitação - à qual a imprensa de hoje despende uma tão grande atenção não reside no fato da classe operária estar mal alojada e viver em moradias superlotadas e insalubres. Essa crise do alojamento não é particularidade do momento, nem tampouco um daqueles males que sejam próprios do proletariado moderno e o distinguiria de todas as classes oprimidas que o precederam: "(...) Para pôr fim à crise da habitação não há senão um recurso: eliminar pura e simplesmente a exploração e a opressão da classe trabalhadora pela classe dominante”. Engels, 1979.
 
A casa deve ser uma máquina de morar com economia e eficiência industriais: é preciso criar o espírito de casas em série; o estado de espírito de construir, residir e conceber casas em série”, diz Le Corbusier, sendo que a defesa deste primado da industria sobre o artesanato baseava-se em 3 argumentos principais: barateamento e massificação das construções, qualidade intrinsecamente universal e abstrata e, finalmente, a possibilidade da máquina substituir o homem em algumas horas, reduzindo sua jornada de trabalho.
Este princípio contém particularidades que poderíamos adotar como premissas para um projeto industrializado mas não incorrendo novamente no erro de uma arquitetura imposta, permitindo que o conjunto de indivíduos da comunidade atendida não perca seu caráter particular, seus projetos individuais e independentes.
Sem o consumo o objeto não se completa como um produto: uma casa desocupada não é uma casa”. Sahlins, 1974.

Temos, segundo Lauro Cavalcanti, três tendências sobre como abordar a questão habitacional:

1. Corrente idealista
, que defende uma postura industrial em relação à moradia. Processos de construção seriada suprindo rapidamente a demanda por casas populares. A solução arquitetônica já existe faltando apenas uma decisão política para aplicá-la.

2. Corrente pragmática
, defendendo uma intervenção mínima em termos construtivos. Deixa a cargo da própria população o projeto e execução de suas moradas. Não acredita em soluções rápidas devido à complexidade e diversidade de situações. Atuações em pequena e média escala.

3. Corrente tecnicista
, que busca fundamentalmente racionalizar processos construtivos no sentido de possibilitar maior produção de moradias. Ocupa-se de sistemas construtivos não entrando no mérito de sua organização espacial. Propõe módulos cuja distribuição seria efetuada pelos futuros moradores ou arquitetos, por exemplo.

Num regime capitalista não me atraía essa idéia de habitação mais barata. Atender ao pobre para ele continuar pobre”. Niemeyer.

A vanguarda, em vários campos, assumia a defesa do desenvolvimento específico de suas linguagens que, temporariamente limitadas às elites das camadas dominantes, seriam posteriormente democratizadas. “A massa ainda comerá o biscoito fino que fabrico”, diziam.


A célula mãe

Valores individuais e urbanos, valores simbólicos e funcionais. A contraposição entre a tradição “culta” e a tradição “popular”, antítese social entre dominadores e dominados, ou entre cultura aristocrática e o folclore faz surgir a superposição dos sistemas de significados associados aos rituais da vida cotidiana, à inter-relação existente entre o sagrado e o profano na vida comunitária e à hierarquização estética dos objetos, formas e espaços que representam as funções.

Desaparecendo o consenso da cultura social e do “valor de uso” da moradia, surge o valor de “símbolo de status” da habitação concedido através da sua autonomia formal. O arquiteto passa a ser figura importante na escolha estilística, mas ainda se evidencia a participação do usuário na seleção dos símbolos.

Quando desaparecem as condições econômicas, as comunidades consideradas de “baixa renda” passam obrigatoriamente a assumir os protótipos oferecidos pelos industriais filantropos ou pelos especuladores da terra e empresários da construção, reduzindo ao mínimo sua capacidade de opção e expressão, ficando seu nível de decisão reduzido aos objetos da subcultura kitsch que a estrutura capitalista lhe oferece. Os ricos cada vez mais ampliam a autonomia e originalidade da célula, convertendo o produto final em paradigma estilístico, transcendendo-se tal qual os promotores da obra.

Uma proposta de projeto realizada para os “pobres” demonstra a distância que existe entre as imagens mentais dos arquitetos e a vida real de uma sociedade que, na maior parte dos casos, não se conhece quanto a seus sistemas de valores, seus esquemas estéticos, seus códigos de comportamento. Essa distância implica o antagonismo entre projeto e vida, entre o objeto “casa” e o que depois ocorre dentro dela. (Ver América Latina, Fim de Milênio de Roberto Segre).


A célula integrada ao contexto urbano

A célula é um componente da estrutura urbana. Quando se fala de habitat nos referimos a todos os elementos que circunscrevem a vida social: espaços públicos, promotores de relações sociais; edifícios para a saúde, a cultura, a educação e produção, etc. A célula é tão somente uma parte do sistema, integrando-se às soluções totais, o que não significa voltar aos ideais de Le Corbusier. Pelo contrário, a vida da sociedade é constituída de forma fragmentada entre o que se estabelece entre a ordem “distante” (planejadores e arquitetos) e o “próximo” (os usuários).


O JUST IN TIME da habitação

Nossa proposta procura estabelecer um paralelo entre um sistema tipo “just in time” adotado por uma montadora de veículos automotores e o sistema “Multiflex” elaborado por Fernando Salinas em Cuba.
“O Multiflex/Salinas estabelece uma clara hierarquização do papel do profissional e dos sucessivos especialistas que intervêm na obra até chegar ao usuário, com seus respectivos níveis de decisão. O arquiteto concebe os elementos do sistema e sua solução geral a nível urbano. De um lado, há uma estrutura de base repetível na horizontal e na vertical que estabelece de forma modular a sustentação da habitação, sem condicionar totalmente sua dimensão; de outro, define-se o conjunto de componentes de divisões internas e externas. Enquanto a célula mãe tem um modelo único, o projetista prepara um número variável de modelos para os painéis e até para o mobiliário, que são livremente selecionados pelo usuário. O dono da casa recebe o espaço ou totalmente montado (de fábrica) ou a estrutura básica e adquire numa loja de materiais de construção as peças que deseja, de acordo com suas possibilidades econômicas e necessidades funcionais.” Roberto Segre.

Desse modo, há um projeto qualificado para os elementos com alto número de variações materiais, formas, dimensões, cores, etc. selecionáveis pelos futuros moradores. Temos então uma relação direta entre a produção industrial genérica e o nível de decisão individual, como ocorre com os automóveis.
“Significa que a elaboração de elementos em série não significa o desaparecimento da individualidade, do gosto ou da sensibilidade pessoal do usuário, mas o fortalecimento deste através de graus de liberdade conferidos ao morador da célula para que integre inclusive componentes de produção artesanal.” Roberto Segre.


Estrutura funcional do SISTEMA

1. Criação de um sistema tipo “just in time” de forma a permitir que se estabeleça o “padrão” do cliente comprador (observar mudança de tratamento) antes da montagem do conjunto horizontal/vertical.

2.
Criação de “fábricas” de confecção de peças básicas e criação de centros de montagem próximos aos centros regionais pré-escolhidos.
Em alguns casos, se sobrepõem centros de fabricação e de montagem.

3.
Criação de “âncoras” junto aos centros de montagem permitindo variações imediatas na escolha dos subprodutos ou componentes diversos como: esquadrias (aço, inox, pvc, madeira); vidros; vedações; coberturas; painéis diversos; equipamentos hidráulicos e elétricos, etc.

4.
Protótipo básico CÉLULA MÃE de 37,2 m2 com módulos pré-fabricados ou artesanais de acoplagem gerando habitações de 46,2 m2 e de 55,2 m2 quando verticalizadas.

5.
Fechamentos e divisões com qualidade industrial, alta produtividade (cadeia produtiva) de forma a eliminar a “mão de obra custo zero” ou processos de multirão.
Justificativa: o trabalhador de multirão alocado em outras áreas pode render frutos diversos, inclusive financeiros, eliminando abordagens paternalistas, dando condições financeiras ao comprador e criando responsabilidades sobre o produto acabado (fabricante/montador) e a dívida parcelada assumida (comprador), semelhante aos contratos de compra e venda de geladeiras, tevês e outros, normalmente pagos em dia por compradores de renda considerada baixa.

6.
Possibilidade de transporte de peças acabadas (célula mãe e/ou célula com acoplamentos) para unidades individuais (exceto equipamentos como de banheiros) e semi-acabadas no caso de verticalização.

7.
Possibilidade de financiamento total da unidade (semelhante a apartamentos tipo MRV, Tenda, etc.) ou por partes complementares e direto com os fornecedores/montadores: estrutura metálica, que deve contemplar assessoria sobre fundações ou patrocinar a criação de um centro de assistência e ordenador com instituições acadêmicas afins engenharia da UFMG, FUMEC, etc.; consultor/projetista que daria assessoria sobre vedações/esquadrias, acabamentos de pisos e paredes, semelhante às equipes de assistência técnica dos diversos tipos de equipamentos disponíveis no mercado.
Com isto teríamos custo controlado da unidade pretendida e garantia da sua qualidade por um longo período, eliminando materiais de qualidade duvidosa e tecnicamente mal produzidos.

8.
Subsídios na compra coletiva de terrenos improdutivos (impolutos e/ou especulativos) ou terrenos remanescentes em bairros já portadores de infraestrutura urbana, diminuindo custo diretos de uma implantação tipo “rurbana” (rural/urbana) como perda da sua capacidade agroprodutiva e indiretos como vias de acesso, transporte, ETEs, ETAs, prolongamento de redes, etc.

A qualidade da célula mãe, além do que foi citado no item 7., pode vir arquitetônico contra as manifestações individuais ou coletivas destas interferências autônomas. Devem unicamente respeitar formalmente através de uma cartilha que diz das diversas formas de ocupar o imóvel, crescimentos programados ou autônomos, sem o xiitismo arquitetônico contra as manifestações individuais ou coletivas destas interferências autônomas. Devem unicamente respeitar formalmente e/ou espacialmente o sugerido pelo sistema como um todo ou em suas parte (áreas reservadas ao crescimento quando habitações verticalizadas; respeito às cargas previstas; contratos sociais, etc.), abrindo condições a estas manifestações, induzindo-as antes de cerceá-las, possibilitando manifestações híbridas ou conjuntas (mais como caráter ambulatorial do que preservação de um racionalismo pré-arquitetônico. Racionalismo no sentido de querer antever questões que o próprio usuário poderia interpretar de outra forma).

9.
Implantações coletivas não só verticais mas verticais e escalonadas (superposições sucessivas ou balanços).Como a célula mãe é um produto de mercado e não de uma classe específica, ela deve permitir ser industrializada de forma a aproveitar sua base teórica e estrutural (como o chassis do automóvel) para outros diversos produtos (mesma família) e suprir demandas para todo tipo de faixa social, como por exemplo:
Hotéis de turismo, com chalés individuais ou coletivos personalizados com acabamentos regionais; alojamentos semifixos em campings; acampamentos científicos alojamentos, laboratórios, cozinhas, instalações sanitárias, etc.; apoio administrativos e residencial a obras de engenharia na montagem de cidades temporárias, canteiro de obras, etc.; apart hotéis verticais, horizontais ou escalonados e outros que, mais uma vez, como a industria automobilística, possam oferecer acabamentos tipo L, LS, LX, EX, etc. As centrais fabris e os centros montadores se transformarão em verdadeiras fábricas, diminuindo custos gerais, permitindo acesso às diversas classes sociais e usos, criando inclusive revendedores de “casas usadas”.

10.
Fornecedores paralelos de sub-produtos como caixas d'águas individuais e coletivas, fossas, coletores solares e células fotoelétricas, centrais de lixo recicláveis, estações de tratamento de esgoto e água, etc.

11.
A possibilidade de desmontagem, mesmo vertical, possibilita a mudança de sítio por necessidade de remoções como desapropriações e outras.


Estrutura, lajes, vedações e acabamento
 
A estrutura da célula mãe é formada por perfis tipo caixa (junção de dois perfis “U” enrijecidos) para os pilares e vigas dos módulos de borda e, perfis caixa e “Us” enrijecidos simples para vigas e pilares, chapa dobrada, USI-SAC-41, soldados e com enrijecimento dos nós através de chapa triangular soldada.
Estes componentes formam um paralelepípedo estrutural semelhante a uma vierendeel tridimensional, transportável em partes, semimontado (estrutura montada), montado (estrutura e laje de piso) ou montado e vedado (totalmente acabado) conforme sugerido no processo de formação da cadeia produtiva que viria a compor o sistema proposto.
 
As lajes podem ser de concreto (vigas pré-moldadas ou em placas tipo Struder), lajes mistas, “steel deck” e painéis de concreto celular tipo CCA.

Para as células montadas e montadas/vedadas, sugerimos como laje o “steel deck” com o lançamento do concreto após o transporte para o terreno onde serão instalados.

As vedações, dentro das diversas possibilidades de participação do futuro morador/proprietário no sistema ou do uso diferenciado da célula e seus componentes que não na habitação de “baixo custo”, podem ser as mais diversas possíveis, da mais artesanal a mais industrial. Mas como estamos falando da possibilidade de um sistema onde unidades podem ser enviadas quase totalmente acabadas, tipo CCA (concreto celular com largura de 50cm), de gesso, compostos, de concreto e isopor ou mesmo uma combinação entre eles ou entre eles e a alvenaria convencional.
Os acabamentos também estão sujeito ao tipo de usuário e/ou de utilização da célula mãe e seus componentes.

Pisos podem ser de cimento natado, concreto polido, cerâmico, melamílico, emborrachado, madeira flutuante, com ou sem rodapés, acabados pré ou pós-montagem.
As vedações e se painéis podem vir acabados ou podem receber pintura, revestimentos diversos e de acordo com PAR, usos diferenciados etc., aplicados pré ou pós montagem dos edifícios.
Esquadrias diversas, sendo para as habitações de “custo mais baixo” sugerido o uso de produtos encontrados no mercado, de perfis laminados tipo “L” e “T”, de chapa dobrada de aço e/ou de inox, de perfis de PVC e dependendo da região, madeira de florestas recicláveis, podendo chegar a vedações com vidro temperado semelhante a Johnson House, em New Canaan, Conecticut, EUA.


Tipos de edifícios

Casas duplex: dois andares com diversas possibilidades de elementos agregados;Edifícios verticais de 2, 3 e 4 andares;
Edifícios com balanço: 3 ou 4 andares;
Edifícios escalonados: com avanço de um módulo da célula mãe em declive ou aclive;
Edifícios múltiplos ou contínuos: acoplagem múltipla de células mãe e módulos básicos formando grandes estruturas contínuas;
Edifícios verticais de grande porte: em superposições simples, múltiplas ou superposições atirantadas, etc.

Conclusão

O que pode ser visto de imediato é que esta proposta é uma análise de experiências e tentativas (algumas com sucesso) de diversos arquitetos, entidades e governos.
Em sua dimensão material, a habitação/moradia constitui o capital e o produto de um processo técnico-econômico em que o usuário intervém como consumidor e representa fundamentalmente uma parcela econômica.

Para o mercado imobiliário as famílias são designadas pelo número de habitantes ou pelo número de “cômodos”, sendo sua única base de avaliação do mercado, esquecendo que este consumidor é o verdadeiro motor da indústria de construção.

Para a maioria das famílias, a habitação é importante tanto no aspecto material como no imaterial, preocupada que está com sua existência, ficando os menos favorecidos com uma imensa carga socioeconômica, além de existirem famílias para as quais, financeiramente, não existem as mínimas condições de habitabilidade própria.

É necessário portanto uma garantia institucional que possibilite às pessoas satisfazer sua necessidade habitacional de acordo com as leis sociais em vigor, conseguindo assim que as habitações sejam tratadas como uma mercadoria a mais do mercado e com chances de serem adquiridas. O que temporariamente está limitado às elites das camadas dominantes possam a ser agora democratizadas.
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