Sylvio de Podestá: projetos recentes

capa sylvio altaAP Cultural | 2008

Os trabalhos mais recentes somam-se à projetos inéditos, mais antigos, para compôr o ùltimo livro do arquiteto Sylvio de Podestá, que através de desenhos, fotos, maquetes e textos retratam parte do seu trabalho nos últimos anos, executados ou em execução em várias cidades de Minas, Brasília, Goiás dentre outras. Os textos apresentados nesta edição são assinados pelo jornalista Carlos Alenquer, pelos arquitetos Cláudio Bahia e Carlos Antônio Leite Brandão e pelo Design Marcelo de Podestá que também é autor do projeto gráfico da edição.


Acesse o conteúdo completo do livro.

21x28 cm | 238 páginas

Preço: R$ 50,00





Sylvio de Podestá: projetos recentes

AP Cultural | 2008


ÍNDICE

[pretexto] arquitetura pode e está na mesa do bar
arquitetura e madureza
arquitetura de um recém-chegado

principais projetos

1992: Edifício Direcional
1994: Edifício Premo
1998: Casa Luis Carlos, Denise e meninos
1998: Itaú Power Center e itaú Power Shopping
1998/99: OuroShopping
2002: Sede Grupo Corpo
2003: Casa Luis Eduardo
2002/04: Show Auto Mall
2003: Habita Sampa
2003: Campus Lagoa do Piau
2003: Garagem Barcos
2003/07: Campus Pampulhinha
2004: UNISINOS
2004: CRMMG
2005/06: UFABC
2006: CBTU [MetrôBH]
2006: Allegro Piano Bar
1981/2007: Casa Sydney e Karla
2006: Casa John John
2006: Memorial Chico Xavier
2006: Museu do Avião
2006: Gráfica Rona
2007: Mercado de Blumenau
2007: Sede da CAPES
2007/08: Teatro de Londrina
2007: TRT
2006/08: Casa Sérgio, Maria Alice e meninos

outros projetos [em breve]
currículo


[pretexto] arquitetura pode e está na mesa do bar

Cláudio Listher Marques Bahia
Belo Horizonte, 24 de setembro de 2008

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Três arquitetos e amigos em uma mesa de bar - fórum dilatado de existência e Arquitetura. Vendo e irritado assim por gentes e seus lugares, fico surpreendentemente contente com a arquitetice que me faz lembrar de coisas nunca sabidas mas que sempre estiveram dentro de mim, e de coisas que irritam nossas discussões arquiteturais sobre a vida, as pessoas e as próprias coisas, inclusive aqui publicadas. Coisas desta vida e da outra que motivam nossa responsabilidade de arquiteto e afetiva minha sincera amizade por Sylvio Podestá e Cacá Brandão. Instigado por nossas conversas sobre Arquitetura, algumas vezes irritadas pelos deslocamentos a que nos obriga os amigos. Vendo e lendo neste livro: este texto, esta casa, este mercado, este teatro, este edifício, esta universidade, este comércio, estes powers lugares, este memorial, este bar; coisas destas pessoas e de outras - Luiz Carlos e Denise, Chico Xavier, Corpo, Londrina, Piau, Blumenau... não descrevo a arquitetura do Sylvio, entretanto aventuro-me no pretexto de sua ação arquitetônica e no texto do Cacá que, para além da profissão de arquitetos, me instigam vida e outras arquiteturas celebradas, inclusive rotineiramente no bar Via Cristina e no carnaval de Ouro Preto. Somos muitas mesas de bar e carnavais - estados de espírito possíveis em qualquer lugar, estabelecimento ou época do ano, por se tratar da tribuna do espírito livre pensar – essência dos arquitetos e dos amigos. Neste pretexto, ou melhor, nesta mesa de bar, imbuído deste estado de espírito arquitetônico, convido generosos camaradas arquitetos e filósofos, também irritados com a vida comum, que aqui debrucem, reflitem e projetem cotidianos outros - Rossi, Tschumi, Rapopport, Gadamer, Merleau-Ponty, Cacá Brandão, Alicia Pena, Altino Caldeira, Higina Bruzzi, Sylvio Podestá... e eu, que descubro nas discussões com eles, nesta mesa ou em outro carnaval,  que a  Arquitetura não pode ser constituída mas descrita e riscada - riscos de vida. Realidade e pessoas.  E trago também para esta tribuna livre a discussão de que a Arquitetura é: uma manifestação absolutamente coletiva inseparável da formação da civilização, objeto permanente universal necessário onde edifício é dado real remetido à experiência concreta do sujeito no mundo, ambiente propício à vida e intencionalidade estética. Neste sentido, difiro a Arquitetura de outras artes e ciência por dar forma concreta à sociedade, e ainda estar intimamente relacionada à natureza. Rossi, um dos nossos camaradas de mesa, determina que a arquitetura dos edifícios não representa mais que um aspecto de uma realidade mais complexa de uma estrutura particular, mas seria, ao mesmo tempo, o dado último verificável dessa realidade mais concreta - a cidade. Nesta perspectiva, considero e caracterizo, da mesma maneira, os edifícios como fatos urbanos, vida urbana e tempo urbano.

Debruço também sobre outras nossas irritadas discussões, registradas neste livro e em outros guardanapos, panos de mesa de bar e parangolés de carnavais, em que defendo a idéia do edifício como um símbolo arquitetônico cuja função de representação não é uma mera referência à instituição Arquitetura, mas suplência daquilo que lhe é honrado. Desta forma, recuo o edifício à Arquitetura, pois somente esta lhe confere o caráter de representação, porque não é a sua experiência pétrea que lhe confere significação, pois esta condição física em si não tem significado, mas é exatamente na Arquitetura que se dá o seu significado. Abandono a idéia de edifício como um signo artificial arquitetônico, mas o defino em seu sentido para a memória, intento de conservação e permanência.

Procuro pelo discurso arquitetônico dos edifícios, não somente pelo entendimento das transformações históricas, mas, em uma idéia mais antropológica, quando busco o entendimento do processo de interações cotidianas da Arquitetura dentro do ambiente cultural, no qual a própria Arquitetura foi criação e criatura. Num significado mais tradicional do termo cultura - processo de transmissão de valores de uma determinada sociedade num determinado tempo. Observo que, recentemente, a palavra cultura apresenta um esgotamento de seu significado, restringindo-se a uma discussão particular da vida social como também no estado mental do desenvolvimento de uma sociedade, concebida como um modo vida cultivado,. Porém, a discussão sobre a Arquitetura como fato  cultural sempre foi entre nós, uma forma de tomar consciência do nosso próprio destino, o que fez com que ela estivesse intimamente associada à discussão sobre a nossa própria identidade. E, assim. pelo processo cultural a que a manifestação arquitetural está organicamente ligada, procuro sempre a dilatação do termo cultura, entendendo o edifício como uma obra de arte quando não representa apenas uma solução estética de uma função ou um uso arquitetônico, mas quando é configurado simultaneamente pela sua finalidade a que deve servir e pelo lugar que deve ocupar no todo de uma conjuntura espaço-temporal. Observo também que, em nossas irritadas discussões, relacionamos o homem ao ambiente construído considerando, por exemplo, os edifícios como obras de Arquitetura que fundamentam e organizam o tempo e espaço da existência humana. Isto entendendo que a Arquitetura não é abortada das coisas, mas mediadora da existência e que nesta mesa de bar está confirmada na ação do Sylvio e na argumentação do Cacá.

Cacá pode e está aqui.
Sylvio Podestá. Aqui. Arquitetura

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arquitetura e madureza

Carlos Antônio Leite Brandão
Escola de Arquitetura da UFMG

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O que preside a maioria dos projetos que se seguem é a compreensão do lugar e a instauração de diálogos entre ele e o objeto arquitetônico. Entenda-se “lugar” não apenas como o sítio físico, mas também como o contexto espacial, histórico e cultural que o envolve ou que por ele é sugerido.

Há vários modos de constituir-se esse diálogo. Um é contrapor-se ao existente e inaugurar o debate e a assimetria até alcançarmos um acordo de ordem mais elevada e complexa, como os que eu e meu amigo Sylvio almejamos ao redor da mesa de um bar, ao cair da tarde, seja para escapar da banalidade dominante, seja para submeter à prova as antigas certezas nossas e de nossos interlocutores e ver até que pontos elas resistem. Sobre este princípio da contraposição fundaram-se as vanguardas e a arquitetura moderna, como a obra de Niemeyer: o Edifício Niemeyer, o Hotel de Ouro Preto, as obras de Diamantina, Brasília e Pampulha, são formas de dizer não ao contexto pré-existente que encontramos na Praça da Liberdade, na cidade colonial, no Planalto Central e num funcionalismo estiolado em resoluções convencionais e carente de qualquer imaginação. O pós-modernismo, enquanto consciência crítica do moderno e promovido pelo Sylvio e Éolo Maia, dentre outros, recusou o não absoluto do modernismo e trouxe à cena o diálogo com a tradição, com o contexto, com o vernáculo e com a cultura dos lugares, como fundamentado em Jane Jacobs, Hassan Fathy, Aldo Rossi e Carlos Nelson. A arquitetura moderna também foi rica quando dialogava com a cultura. Mas, para ela, esta cultura era a universal, uma vez que, após as duas guerras mundiais, os problemas colocados e suas soluções também eram universais, como o da habitação em larga escala, só possível de ser resolvido mediante o recurso à produção industrial em série.

Ambos os movimentos, moderno e pós-moderno, fossilizaram-se quando suas arquiteturas deixaram de tensionar-se no debate com a cultura, caíram num figurativismo irrelevante e num esteticismo esvaziado do propósito ético, humano, cultural e ambiental que faz a arquitetura distinguir-se tanto do mero alojamento quanto das “belas artes”, academicistas ou de vanguarda. Infelizmente, é este mesmo esteticismo narcísico e pueril que domina grande parte tanto das releituras minimalistas do moderno quanto das extravagâncias, inclusive no que se refere aos custos, dos espetáculos desconstrutivistas e performáticos de toda espécie.

A arquitetura, contudo, não é espetáculo, mas decoro, conveniência ao local, à história e aos usos, promotora e facilitadora da ação humana, individual ou coletiva, e não da mera contemplação. Ela se sabe instrumento para a vida de mortais, pressionados por carências de toda ordem: econômicas, simbólicas, imaginárias e afetivas. São com essas carências mortais que ela tem de se haver, de compreender e dialogar.

***

Aproximando-se do pedestre e das casas do entorno, a escala do Edifício Direcional abaixa-se na entrada e atenua a concisão volumétrica, os talhos fortes que recortam os vazados na alvenaria acima e a oposição entre a solidez do granito e a transparência dos cristais. Trabalhando os elementos pré-moldados (como lajes, vigas e painéis) e a expressão da estrutura, a concisão volumétrica e a sisudez aparente do material também são suavizadas no projeto para a PREMO, em cujo terreno, estreito e limitado, providencia-se uma abertura para o contexto e para o espectador através do eixo de acesso. A mesma ênfase na estrutura, combinada com a dada também à luz natural, verifica-se no Itaú Power Center, onde a preservação das chaminés no meio do estacionamento traz à era da prestação de serviços as origens da nossa história industrial.

A integração entre interior e exterior define os partidos da Casa-pavilhão Beatriz e da Casa Luis. Integração que se obtém pela transparência dos grandes panos envidraçados, pela apreensão visual do entorno e por uma das constantes mais presentes na obra do Sylvio, nesta e nas fases anteriores: a criação de eixos de articulação entre o edifício e o entorno, os quais servem tanto para disciplinar a distribuição dos espaços e a paisagem quanto para conferir aos lugares a ordem da arquitetura, claramente transmitida ao fruidor.

Disciplinar os percursos é a geratriz da planta do shopping projetado no anel de Ouro Preto. Mimetizando o traçado da cidade colonial, o espaço evolui segundo várias perspectivas distintas e sucessivas, compassadas por alusões às torres sineiras, cujas verticais, ainda hoje, ritmam o casario horizontal. Situado em terreno difícil, este shopping serve também como articulador urbano e foco aglutinador das atividades desenvolvidas pela UFOP e pelo hospital próximos. A Ouro Preto recuperada no Botequim Allegro é a da geometria dos cristais, a qual dá forma à sua cobertura de forragens verdes e serve para os terraços explorarem as vistas panorâmicas da Rua São José. Vidro e aço conversam com os filetes de pedra e com a madeira em que se esculpiu a cultura construtiva local. Eles nos dizem que Ouro Preto é cidade de todos os séculos, inclusive o XXI: suas ruínas estão mais grávidas de futuro do que do peso do passado. Daí emerge a leveza desse botequim, um pouco mais sofisticado do que aqueles em que Sylvio e eu costumamos conversar para discutir a arquitetura e a cidade contemporâneas.

Grávida de intervenções e ampliações futuras e colorida como as pinturas de Frida Kahlo (1907-1954), a Casa John-John é diminuta em relação ao terreno, mas já projeta sobre todo ele o eixo de ipês amarelos que o disciplina cosmicamente. Aqui, Sylvio combina as texturas dos materiais com a lisura das vistas, a rugosidade da madeira velha com a atemporalidade dos ladrilhos hidráulicos e com o neoplasticismo dos volumes cúbicos que nos lembram Rietveld e Oud.

Combinações bem mais complexas são exigidas para o Museu do Avião, no Rio de Janeiro. Um pórtico materializa o eixo de acesso que nos leva a admirar os aviões expostos em um espaço aberto e neutro. São eles, e não a arquitetura, que devem ser admirados. E o arquiteto sabe conte-lo na sua função de suporte, e não mais. Como as insígnias aeronáuticas, os volumes distribuem-se simetricamente em relação àquele eixo, de forma a combinar a lagoa, os shoppings, os condomínios, o clube militar, a pista de pouso, o museu e todos os seus anexos. Passando do ar para a água, uma leve estrutura pousa sobre a construção da antiga Garagem de Barcos, em Furnas, para controlar a luz do sol que a ilumina e para estabelecer o diálogo entre as duas temporalidades. A mesma intenção concebe o paisagismo, o qual preserva o antigo pomar.

Dois Campus, em Caratinga e Teófilo Otoni, sintetizam as maiores prioridades desta fase mais silenciosa e calma da obra de Sylvio. Nela, a obra de arquitetura é apenas mais uma, e não a única, personagem que se apresenta no teatro do espaço. A lagoa e suas vistas, a mata do vale preservada, o solo sobre o qual se elevam os módulos construtivos, a luz ofuscante e que a orientação e a cobertura humanizam até providenciar o conforto do aluno na sala de aula, o vento que é conduzido pelo edifício até baixar-lhe a temperatura em até dez graus evidenciam o diálogo construído em Caratinga entre o artifício dos pré-moldados e a natureza virgem. Os eixos reguladores também se apresentam para conformar todo o espaço, seja enfatizando seus focos (como a Praça do Angico), seja gerando pérgulas e trepadeiras das quais bem se poderia colher e comer o maracujá. Desviando-se do ritual axonométrico, micro-paisagens e micro-lugares criam ambiências propícias ao ato fundador de uma escola: duas pessoas conversando sob uma árvore onde um ensina sem saber que está ensinando e outro aprende sem saber que está aprendendo. Como os bons diálogos em volta de uma mesa de bar. Diálogos, inclusive, com um futuro complexo com cinemas, auditórios, hotéis e chalés imaginados desde já para completar o conjunto. Em Teófilo Otoni, a falta de caráter comum às periferias de nossas cidades sugere que o edifício tenha mais expressão. O eixo da via pré-existente que corta a praça cívica dá partida ao paisagismo retilíneo, às passarelas de frutas e à construção totalmente industrializada, feita de perfis metálicos assentados pela mão de obra local. A orientação, os brises e a cobertura servem ao controle ambiental, tal como os volumes dispostos assimetricamente para otimizar as delícias do vento que passa em território tão quente. O frescor deste vento traz com ele o mesmo ato fundador da “escola”, mencionado acima, e o deposita na Praça da Árvore.
O diálogo com o contexto, inspirado no Sulacap em Belo Horizonte, é o ponto de partida do projeto para o Conselho Regional de Medicina, cujo pórtico enquadra a Igreja de Santa Tereza ao fundo e lembra-nos que a cidade é um todo cujas partes deveriam conversar entre si. As marcações e a equilibrada articulação entre as horizontais e verticais fortes liberam espaço para um jardim intermediário que serve não só às vistas da cidade quanto também aos favores do sol e do vento. Ouro Preto, Ipatinga, Caratinga, Teófilo Otoni e Belo Horizonte: as Minas são muitas, como as do ouro (século XVIII), as da terra (século XIX) e as da indústria (século XX). Suas várias vozes ecoam juntas neste início do século XXI e cumpre ao arquiteto multiplicar-se por vários estilos e por várias correntes, de modo a que o coro delas constitua-se na voz polifônica de nosso tempo. Não lhe serve mais o estilo pessoal: ele tem de ser múltiplo e vário, saber desfazer-se e recompor-se de outra forma, a cada instante e cada projeto, com outra voz, com outro traço, com outra imagem. Seu pensamento, hoje, deve ser plástico e móvel, como o vento que sopra nas asas nos pés de Mercúrio.

Os eixos norte-sul e leste-oeste definem a ocupação do terreno e a distribuição das unidades no projeto da UNISINOS (RS). Paralelas a estes eixos, elevam-se as passarelas e as estruturas metálicas, as quais evocam uma atmosfera futurista hi-tech sobreposta às ruínas de um ginásio pré-existente, ao término da linha de metrô e aos inícios de uma área de preservação ambiental que daí se descortina.

Dois tipos de estrutura, a metálica e a pré-moldada, conversam entre si no prédio da Gráfica Rona e com os ipês, aroeiras e quaresmeiras que oferecem ambientes e lugares de encontro contrapostos aos da linha industrial. Sobre aquelas estruturas, os sheds inclinam-se para direcionar o vento e a luz do sol. Em função dessa luz também são abertos os vãos permitidos pela nova estrutura metálica do Show Automall, até converter um amorfo galpão onde se amontoavam carros em um lugar amplo onde os fluxos são organizados e o vazio adquire forma, espírito e disciplina.

“Disciplina” é a palavra que ressoou três vezes no ouvido de Chico Xavier (1910-2002) ao ser instruído à beira de um rio em Pedro Leopoldo (MG) e iniciar-se na mediunidade. Sylvio a interpreta como o modo pelo qual o espírito se infunde na paisagem e na matéria para fazê-la arte, cultura, natureza humanizada. No Memorial Chico Xavier, a disciplina se faz círculo em torno de um poste que joga sua luz no ponto onde aquele rio passava e as instruções foram recebidas. O número de suas colunas abertas ao rio, à paisagem, aos homens e às mulheres do bairro vizinho coincide com os setenta e dois anos da vida de um médium generoso. Suas palavras, instrumentos da cura, circulam pelo chão sob a marquise da colunata. Um eixo de ligação, tanto física quanto espiritual, une o conjunto ao bairro e propicia ao Memorial fazer-se foco de um parque para uma cidade que dele carece. Branco e silencioso, o projeto ergue-se sobre a quadra pré-existente que serviu-lhe de base para a implantação e sobre a vida de alguém cujo brilho maior foi recuperar nos outros o brilho que haviam perdido. Foi para o céu.

É este mesmo céu que os funcionários vêem de seus gabinetes e escritórios projetados pelo arquiteto goiano para o concurso Sede da CAPES, em Brasília. Feita em parceria com Humberto Hermeto, a proposta se compõe de dois blocos separados por um vão onde o vento do Planalto Central passa e nos refresca na praça interna, a qual funciona como hall de encontro, de acesso e de distribuição da circulação. O mesmo céu, com sua luz épica, vaza através dos sheds dos escritórios e sobre as circulações verticais.

Numa região amorfa onde duas vias margeiam a rodoviária e as antigas fábricas, cumpre ao projeto de Sylvio e Humberto para o concurso do Teatro de Londrina buscar uma ordem mais precisa, contemporânea e abstrata, como as esculturas de Amílcar de Castro, tão caras e influentes no trabalho dos arquitetos mineiros dessa geração. Assim, o conjunto é composto por dois volumes geométricos, recortados em planos triangulares definidos a partir de exercícios processuais tridimensionais. Ligando estes volumes, o espaço estruturado por grandes eixos de circulação cria um foyer integrado à praça e às árvores, ao contrário dos ambientes que predominam nas casas de espetáculo, geralmente divorciadas do teatro maior da vida. Daí descortina-se a cidade.
Também desenvolvido através de maquetes processuais e também contrariando o edital do concurso, de forma proposital, o projeto do Tribunal de Trabalho, em Goiânia, (Sylvio, Humberto e Igor), constitui-se de dois prismas separados. Um deles é um grande paralelepípedo sobreposto aos galpões existentes e que deveriam ser destruídos após a ocupação do novo projeto. Placas servem para controlar o vento, a temperatura, a iluminação e o ritmo plástico das fachadas. Também o projeto para o Mercado de Blumenau é definido pela necessidade contemporânea de otimizar ao máximo os fatores ambientais e poupar nossas energias. O projeto sintetiza-se na cobertura de sheds que filtram a luz solar, o ambiente e o clima do edifício, sem prejudicar as insolações e conforto das edificações vizinhas, como a vila com a qual o Mercado interage. Na agência de publicidade construída na Barragem Santa Lúcia, em Belo Horizonte, a vizinhança é um aglomerado de ocupação irregular. O prédio cúbico não nega esta vizinhança. Ao contrário, abre-se para ela e para as cores novas com que se vai pintando o casario pobre. São estas cores e o samba da favela que atravessam a transparência das paredes de vidro do cubo para contaminarem o espaço fluido, amplo e livre dos andares landscape.

***

É passada a época dos grandes manifestos e das grandes revoluções, como aquela de quarenta anos atrás e da qual somos filhos. Desconfio que Sylvio pressente que as grandes mudanças fazem-se, hoje, em silêncio, devagar, sem alardes, de modo a abalarem a estrutura profunda do sistema, e não as superfícies de um mundo por demais liso, neutro e achatado na dimensão de sua imagem e aparência, sem espessura e sem densidade, como domina na arquitetura contemporânea. É passada a época dos arrebatamentos e das paixões que não se deixam decantar. Chegamos à madureza, à idade da raça dos que não se limitam a lutar e ganhar, como disse Cecília Meireles (1901-1964), e precisam aprender a bem passar. “Deus me deu um amor no tempo de madureza”, diz Drummond em Campo de Flores. Neste tempo, o mundo deixa de ser um “vácuo atormentado, um sistema de erros”. Ele também tem manhãs que me sorriam, e eu não via. Tem crepúsculos maravilhosos, como o deste azul belorizontino, onde as mãos aprendem a projetar e a acariciar com paciência, sabendo que os limites de nossas mortais possibilidades não vão além da distância demarcada por nossos braços estendidos. No tempo da madureza, as angústias vividas e os sonhos alardeados espremem-se em silêncio para decantar o vinho que merecemos e para encontrar o mundo que perdemos. No crepúsculo, vibra um sabor que é privilégio de maduros, “que se aprende no limite, depois de se arquivar toda a ciência herdada, ouvida. Amor começa tarde.” (Drummond, Amor e seu tempo). E o vinho da arquitetura também. Há que merecê-lo, e saboreá-lo. Como Sylvio vem fazendo e, aqui, o estende ao leitor.

1. Este estudo conta com a colaboração das reflexões desenvolvidas também junto à nossa pesquisa “Arquitetura, Humanismo e República”, patrocinada pelo CNPq, e que encontram-se melhor sistematizadas em nosso site http://www.arq.ufmg.br/ahr e na revista eletrônica Interpretar Arquitetura (http://www.arq.ufmg.br/ia).

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arquitetura de um recém-chegado

Marcelo Aragão de Podestà

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A arquitetura provavelmente deveria ser mais discutida, nas escolas, nos jornais e entre as pessoas – que falam de música, de cinema e de outras artes – para cultivarmos, junto com outros ensinamentos, uma cultura arquitetônica que nos permitisse compreender melhor o nosso ambiente e cobrar mais daquilo que nos influencia tão profundamente.

Saber ver a arquitetura não é algo muito simples e muito difuso por aí. Assim como não é fácil entender de cinema, de artes plásticas e de tantas outras. É necessário mergulhar nos discursos, na história, contemplar as mudanças e os produtos destas mudanças; analisar os contextos, habituar-se às ferramentas... No entanto, quando nos deparamos com um quadro ou escutamos uma música acontece de nos sensibilizarmos profundamente sem que haja muitas explicações para isso.

De maneira parecida, sentimos a arquitetura, porque cada discurso, cada traço que divide uma área no papel (ou no computador, digamos) se traduz em espaço; espaço que nos rodeia, que percorremos, e habitamos.

Se talvez as fachadas nos lembrem uma escultura, é na relação com o ambiente e no jogo de formas e linhas e vazios do espaço interior que a arquitetura se manifesta, e onde, mesmo que inconscientes, apreendemos de forma definitiva o discurso arquitetônico. Este carrega consigo as concepções e formas de seu tempo, e se por acaso nos encontramos vivendo em um apartamento fastfood (de produção em série) ou numa redoma de vidros verdes, não só os arquitetos merecem as críticas, mas nós mesmos.

Porem, saber ver aquilo que está contido em um projeto, uma planta, um croqui ou perspectiva exige experiência e, ai sim, uma boa dose de cultura arquitetônica. Os detalhes técnicos, da altura, espessura, encaixes estão descritos ali nas plantas sem grandes desafios. Mas a habilidade está em conseguir extrair dos esboços as etapas do processo, as sobreposições e tentativas da idéia que se forma e se transforma em perspectivas e em desenhos. Criar a imagem mental do espaço, levantar na imaginação as paredes, os recortes e os vazios, atravessar linhas, vigas, curvas, para então projeto pronto na cabeça, caminhar ao longo dos espaços imaginados, para sentir as distâncias, as nuances de luz, a alusão das formas, observar e fazer parte da vista que se projeta pela janela.

Ajudam-nos as maquetes em 3D e os tours virtuais, aos leigos e aos clientes mais difíceis. Mas não há tour que traduza os fluxos do olhar e das sensações de quem entra num ambiente, o percorre e o habita. Talvez, saber ver a arquitetura só mesmo fazendo.

E transformar em livro esse universo de desenhos, propostas e rabiscos tem um quê de imaginar esses percursos, outro desafio, de buscar dar formas àquilo que é muito mais para ser vivido.

Particularmente, devo confessar, comecei pelos croquis (tão abundantes nesse livro), com o esforço de não transformá-los em texturas, ampliando-os até explodirem na folha, ou cortá-los e sobrepô-los, até me acostumar com os projetos e decifrar melhor a seqüência das plantas, as fotos (nem sempre as melhores) mais significativas.

Operei sem censuras, mas também não completamente ingênuo. Alguns projetos conheço pessoalmente, ou os vejo por aqui em maquetes e plantas; de outros acompanhei alguns processos e os resultados que provocaram nos ânimos (telefonemas, viagens, serões noturnos). E, como não, alguns desenhos e conversas de bar, inclusas as outras presenças deste livro.

O resultado não é uma forma de ver a arquitetura, mas pretende contribuir para transmitir uma, aquela dos riscos e rabiscos que, se por acaso expandi demais e quase os transformei em textura, certamente falam por si só. Boa arquitetura.

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