1981/2007: Casa Sydney e Karla


Local: Brasília, DF.
Projeto: 1981
Construção: 1982/1983
Reforma: 1996
Área terreno: 1.033,00m2
Área: 405,00 m2
Área após a reforma: 470,00m2

 


Projeto 1 (1981)


Terreno sem vegetação, ligeiramente inclinado e árido, a residência, situada na Península dos Ministros (Lago Paranoá, Brasília, DF), é uma proposta de cor, luz, sombra; encaminhamentos físicos visuais e utilização de materiais comuns e de baixo custo, participando de maneira nova no contexto urbano/residencial da Capital Federal.


 

Com uma planta que envolve um pátio central permitindo trazer para dentro de casa o jardim elaborado, exuberante, tropical, ficando todo o terreno para um paisagismo mais macro e lazer, o volume final, juntamente com a volumetria vertical e transparente dos coqueiros, dão à obra características que resulta em objeto arquitetônico tão importante quanto aos de maior porte, feitos sob a égide do modernismo. E faz da Capital, mesmo em pequena escala, mais uma vez local de importância arquitetônica, agora recebendo uma obra com linguagem "pós-Brasília".

Filha direta da Residência Hélio/Joana, esta casa, se olhada superficialmente, pode parecer uma continuação preguiçosa das conquistas expressas no projeto de Ipatinga.

Num olhar mais aprofundado, entretanto, poderemos observar que sua semelhanças são importantes por incorporarem conquistas observadas na Residência Hélio/Joana; mas, por situação diversa, contribui com novas propostas e novas formas de estabelecer parâmetros para que se rediscutísse a arquitetura oficial ou colonial/mediterrâneo/moderna/etc. que estava sendo feita então ou mesmo hoje.

Projetada para ser residência da irmã Karla, do cunhado Sidney (conhecido como "Fera", pelo seu passado de corredor automobilistico e vestimentas semelhantes ao do cantor Roberto Carlos), e dos filhos Lara e Davi, a casa, que fica, local de concentração das mansões oficiais e de casas de poderosos, mesmo com seus 405,00 metros quadrados iniciais, deveria ter o cuidado de apresentar uma volumetria que não ficasse acanhada perto destas "grandes obras".

A solução foi elevá-la sobre um semi pilotis semi porque só a liberta parcialmente do solo e, aproveitando a inclinação do terreno, aproveitar o nível do solo para área de apoio ao lazer, serviço e garagens. Posteriormente, já na construção, ampliou-se esta área sobre a casa com área de jogos/TV, ginástica e sauna.

Brasília apresenta particularidades na forma de implantação, quando se trata dessas áreas residenciais sempre acessadas por ruas de serviço. Ficando a frente da casa voltada para os fundos, o espaço público verde e as vias de pedestres podem ser "anexadas" aos lotes adjacentes, desde que se cumpra o compromisso de utilizá-las como lazer e área verde, sem nenhuma construção. Por uma dessas incapacidades gerenciais do poder público, o que ocorre é que a área aberta do lote praticamente duplica ao mesmo tempo em que a fachada, voltada para a rua, passa a ter importância secundária dentro da forma convencional de ver as casas nas via públicas.

Aqui, duas alas simétricas em proporções, cobertas com telhas cerâmicas, estão ligadas por um grande pórtico de concreto revestido de cerâmica fazendo as vezes de entrada principal, reforçada pelo piso cerâmico e colorido que marca este caminho desde a rua ou passeio, sobe pela escada interna e se distribui pelas circulações de serviço e íntima localizadas em torno do pátio, depois pela ponte sobre o pátio, continuação do eixo/circulação até as varandas, antes triangulares, existentes na elevação principal.

O volume da construção, praticamente quadrado e com o pátio interno com a mesma forma, é enriquecido com o desenho do estar principal e do estar íntimo com suas respectivas varandas hoje circulares e registrando no seu piso, como uma arqueologia, a forma em cerâmicas coloridas das antigas varandas e sua cobertura abobadada, bastante forte, também em cerâmica.

Se por um lado a casa está sobre semi-pilotis, suas varandas posteriores se apoiam sobre uma plataforma que se dissolve em uma grande escadaria que dá acesso ao pomar, quadra e piscina/lazer.

Para o proprietário, de origem sírio-libanesa, fizemos uma pequena homenagem: a piscina, mesmo com o lago ao lado que seria a miragem funciona como seu oásis particular e é ladeado por três alamedas de palmeiras/coqueiros plantadas em filas militares, que adentram pelo pátio interno. Essa forma racional de abordar o paisagismo fazia parte da nossa discussão e, ainda, era uma forma de evitar o paisagismo orgânico feito por Burle Marx e filhotes, que em alguns momentos só era percebido em vôos de helicópteros; e como Louis Kahn, procurávamos fazê-lo de tal forma que fosse percebido na sua intenção de criar uma massa que participasse da composição arquitetônica geral. Uma pequena duna, não construída, também fazia parte da proposta, mas foi substituída pela churrasqueira.

O desenho das esquadrias a pedido do proprietário foi um caso a parte: optamos pela sabedoria das nossas antigas janelas onde, com vidro e venezianas, criávamos opções diversas de aeração e luz mas não como estas, que dentro da mesma linguagem e construídas em chapa metálica (cujo desenho previa um grande quadro pivotante e divisão diagonal entre veneziana e vidro), permitiam uma combinação de pelo menos 16 tipos de aberturas. Devo lembrar que, logo depois, ainda se incorporou a tela mosquiteiro nestas esquadrias.

A reforma (feita em 1996) acrescenta no programa mais três vagas de garagem (lembrem-se, Brasília foi projetada pensando no deslocamento via automóveis), apartamento do caseiro e reformulação das varandas, necessária para a proteção contra o luminoso sol poente, antes previsto através de vegetação de porte, mas não conquistado. Tivemos vários problemas com o telhado de telhas francesas (hoje de fabricação inferior às verdadeiras francesas) e, também, instituído pelo projeto, com o pequeno beiral lateral duramente criticado pelo proprietário que não funcionou como uma boa pingadeira, revertendo parte da água do telhado para a alvenaria.

A casa é carinhosamente conservada pelos proprietários, está sempre nova, sempre pintada de cores fortes, sempre aberta a receber.


Projeto 2 (2007)

 
arquiteto:
Sylvio Emrich de Podestà
projeto inicial: 1981
área do terreno: 1.033,00 m2
área: 380,00 m2
1a. reforma: 1982/83
área: 450,00 m2
2a. reforma: 2006
área: 650,00 m2
construção: 2006/07



Na época do projeto inicial intitulei esta casa de uma obra pós-Brasilia, fora dos cânones modernistas, dos concretões e também dos mediterranês e coloniosos. Discutíamos circulações, simetrias, materiais, texturas e cores.



“A cor existe” era nosso grito de guerra e a cor que lá utilizamos foi o vermelho goiaba, mistura feita in loco nos tempos que as mix machines não existiam por aqui.

Quando foi publicada no livro Sylvio E. de Podestá – CASAS em 2000 pela AP Cultural, fizemos um histórico destes primeiros momentos. Dizíamos das relações dela com o terreno/lago, como ela se abria para dentro (pátios e jardins) e sua inusitada fachada de rua praticamente cega, com um grande pórtico marcando dramaticamente o acesso principal, o piso que transpunha os limites e ia até o meio fio em cores variadas e aleatórias; das palmeiras em linha compondo com as empenas inclinadas, inspiração Kahniana.

Hoje, concluída a segunda reforma/acréscimo, temos um projeto que mantêm a idéia básica e incorpora equipamentos atuais como os nominados home theater, espaço gourmet, suítes, elevador, novas varandas, bar da piscina, vestiários, etc. que se juntam aos outros anteriormente projetados. Os espaços de uso se ampliam, também garagens e serviços.

E assim a casa passa a atender aos tempos de netinhos sem esquecer os amigos. Casa é assim. Nasce com o casal, com os filhos pequenos, depois adolescentes e mais a frente, casados. Mudam e voltam trazendo a alegria da nova turma, da meninada que usa novamente a piscina um pouco esquecida, o campinho, subir e descer no elevador, dormir no quarto novo, conhecer o funcionamento das novas janelas e portas agora mais atuais e transparentes.

A cor está um pouco mais desbotada, próximo do salmão que se dá bem com o verde que está cada dia mais exuberante. O jatobá está imenso e sombreia a varanda no sol noroeste. As palmeiras continuam por lá marcantes, verticais.

Casa com cheiro de nova.

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